Seis sentidos – Crônica de Paulo Mendes Campos

By | 01/11/2021

É boa para os olhos. Nas outras cidades grandes, onde não devia haver nada, há um monturo de edificações; em Brasília, onde não deve haver nada, não há nada. Descansa os olhos. Possui as riquezas elementares que foram mutiladas nos grandes centros: céu cor de céu, vegetal verde, água tranquilizante. Até os cegos podem ver Brasília pela vibração sutil e confortante dos espaços abertos.

Brasília é boa para os ouvidos. Reclamar do barulho de certas superquadras é um luxo. Na verdade os decibéis do trânsito e das construções, à falta de eco, perdem depressa o timbre agressivo nos descampados do planalto. Por isso, quando um carro sem tubo de escapamento dá partida debaixo de nossa janela, sentimos um repelão na trama nervosa: depois de uma noite serena nossos ouvidos já estão passados a limpo e percebemos o quanto o silêncio nos era precioso. Mas é natural que o brasiliense reclame do ruído, onde este só aparece para dizer que existe; os habitantes do Rio, São Paulo e Belo Horizonte, se quiserem manter a mesma coerência, deverão reclamar do silêncio, caso este der o ar de sua graça.

Brasília faz bem ao nosso nariz. Não agride o olfato de ninguém. Um poeta fala da necessidade urbana de um nariz solene e paciente, apto para servir num mundo prosaico. Em Brasília nosso nariz não precisa assumir esse ar conspícuo. E há mesmo certo bucolismo na expressão mais espontânea dos narizes federais.

Brasília não nos agride pelo tato. A transpiração não escorre pelo pescoço. A lã não irrita a epiderme alérgica. E, se houvesse uma estatística para encontrões de rua, a capital teria decerto o mais baixo índice de todas as outras capitais do mundo.

Brasília por fim é boa de paladar. As cidades comem melhor na medida em que sobra tempo à imaginação culinária da dona de casa. E comem pior na medida em que o relógio nos come por uma perna. Comi razoavelmente bem nos restaurantes mais mesureiros e não tenho defeito para botar na costelinha, no torresmo e no tutu do posto de gasolina de seu Louzada, na roça da Asa Norte.

No princípio, quando Brasília era a Cidade-Livre e fundações, não havia nada, a não ser calor humano. Depois, quando a base urbana ficou pronta, saiu logo do forno uma chapa que vem sendo repetida nestes treze anos: “Brasília não tem calor humano”.

Que acho? Antes de tudo, que nessa questão de calor humano não há termômetro universal. De minha parte seria uma injustiça e até uma ingratidão qualquer queixa. Tenho numerosos amigos em Brasília e meu constrangimento é nunca dispor de tempo para abraçar a todos. Acredito além disso que um jornalista, neste cálido Brasil, pode sentir falta de muitas coisas, menos calor humano. Em nosso território, terrestre e aquático, as letras, por mais humildes que sejam, sempre encontram um cantinho quente, um aperto de mão, uma cachacinha amiga.

Mas só há um modo de saber: perguntando. Foi o que fiz. Saí colocando para todo mundo o meu enigma. Você sente falta de calor humano em Brasília? Passei a ser a esfinge do calor humano, com o risco de passar (ou de ser reconhecido) por maluco. Perguntei a jornalistas, empregados de hotel, estudantes, comerciantes, um corretor, donas de casa, motoristas e funcionários: Sente falta de calor humano?

Como? Que trem é este? – Aqui em Brasília… A aturada pesquisa deu em nada. Uns disseram que sim, outros que não. E houve ainda uma pequena fração, aritmeticamente desprezível, que respondeu: Mais ou menos.

Pois creio que essa fração desprezível está com a verdade: esse negócio de calor humano (em Madri, Paris, Londres, São Petersburgo e o mundo) é mais ou menos. As ondas de frio e calor humanos são variáveis e dependentes de mil fatores, muitas vezes contrastantes. O termômetro humano, a qualquer local, registra um enxame de temperaturas diferentes. Tal é o nosso destino de aparelhos ultrassensíveis, capazes de registrar simultaneamente o calor da criança que nos sorri e o gelo da criança que faz uma careta para a nossa solidão. Calor humano de fato (não resisto à vulgaridade) a gente encontra nos trens elétricos da Central. Não há nada a fazer contra a imensa escala térmica das reações humanas.

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