Sonho de uma Noite de Abril – Crônica de Carlos Drummond de Andrade

By | 10/02/2022

Penumbra. Escritório. Homem, com as mãos à cabeça, fuma e pensa na vida. Alto-falante:

– Já fez sua declaração de imposto de renda?

– Que renda? Que declaração? Recebi, gastei, estou sem nenhum.

– Prepara tua declaração de imposto de renda!

– Mas…

– Até 30 de abril, improrrogavelmente!

Batem à porta. Homem vai abrir. Entra uma forma gorda, que dá 210 voltas, senta-se e contempla o homem. Este:

– Quem és tu?

– Sou o Decreto no 40 702, que aprova o regulamento do imposto de renda.

– E vais me explicar tudo?

– Tudinho. Sou simples e prático. Tenho só 210 artigos, em que consolidei toda a literatura sobre o assunto.

– Literatura?

– Sim. Queres ver? (Bate palmas. Entram pela janela, como besouros, quinze formas diferentes, umas compridas, outras curtinhas, esta pomposa, aquela pífia.) Vou apresentar… Ladies first. (Apontando) Lei no 154. Lei no 2354. Lei no 2862. Lei no 2973.

As leis cumprimentam cerimoniosamente e tomam assento no sofá-cama, com ares majestáticos.

Homem: — Mas praquê tanta lei?

40 702: — Agora os senhores decretos-leis: 5844, 6071, 7885, 9330, 9407, 9781. Não está faltando alguém?
Os decretos-leis, cheirando a Estado Novo, abanam o rabo, negativamente, e ficam de pé, ao fundo.

40 702: — Bem. Temos ainda os decretos. Aproximem-se. São o 3079, o 36 597, o 36 773, o 38 250. Ah, aquele gordão é o 24 239, com seu regulamento. Tudo isso eu condensei, numa espécie de “seleções”. Mas se tiveres alguma dúvida — vejo que sim, por teu ar pacóvio —, hás de consultar alguns ou todos eles…

Ruído. Os decretos-leis tentam barrar um senhor distinto, meio calvo, que introduziu o nariz na sala.
40 702: — Quem é?

– É o Código Civil, dizendo que também quer entrar.

– Deixa. Tem um artigo que me interessa. O Código entra, ressabiado.

Homem (aterrorizado): — E agora, José?

40 702: — Bem. Agora é só me leres com recolhimento, como a um texto metafísico, e encheres este formulário-sanfona, que te dou de graça. Não vais me esconder nada, hem? Pagarás só quatro vezes: o imposto cedular, o complementar, o adicional e o percentual de proteção à família. É facílimo. Até 60 mil cruzeiros não pagas nada, por um lado; por outro, pagas 1, 2, 3, 5, ou 10%, conforme a cédula. Tens direito a descontar 50 mil para custeio de tua esposa. Se ela gastar mais do que isso, azar teu. Idem quanto a filhos. Pagas 50 mil do colégio, por ano, para cada um? O colégio sai de graça, pois deduzes justamente essa importância; o resto da despesa fica por isso mesmo. Se tiveres mais de 25 anos e não te casares, é espeto: 15%. Casa, e barateia. O complementar é de uma clareza de água: de 61 mil a 90 mil, pagas 30 cruzeiros por conto; de 91 a 120, pagas 50; de 121 a 150, morres em 80; de 151 a 200, em 110; de…

– Tudo não é o mesmo dinheiro, ganho do mesmo modo?

– Não. À medida que ganhas mais, pagas mais. Salvo acima de 3 milhões, quando passarás a pagar meio conto por conto, até o infinito. Quer dizer: se fores pessoa jurídica, poderás reavaliar o ativo, e não pagas nada. Mas sendo pessoa física, simplesmente…

– Ordenado é renda?

– Por que não? Tudo é renda. Se não for renda para ti, é para o Estado. Não tens um biquinho no Instituto? Recebes e restituis; mas restituis a ti mesmo, porque o Estado é a cooperativa dos cidadãos. Ou não é?

Homem tem uma vertigem. Leis, decretos-leis e decretos, armados de aparelhos de microfilmagem (art. 206, do 40 702), precipitam-se sobre ele, auscultam-no — está morto — e dançam lentamente, em torno do cadáver, ao som da sanfona-formulário, uma pavana de Ravel, em adaptação de J. Coringa.

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