Ausência da poesia – Adélia Prado

Aquele que me fez me tirou da abastança, há quarenta dias me oprime no deserto. O político morreu, coitado. Quis ser presidente e não foi. Meu pai queria comer. Minha mãe, peregrinar. Eu quero a revolução mas antes quero um ritmo. Ó Deus, meu filho me pede a bênção, eu dou. Eu que sou mau. … Ler mais

Amor Feinho – Poema de Adélia Prado

Eu quero amor feinho.Amor feinho não olha um pro outro.Uma vez encontrado é igual fé,não teologa mais.Duro de forte o amor feinho é magro, doido por sexoe filhos tem os quantos haja.Tudo que não fala, faz.Planta beijo de três cores ao redor da casae saudade roxa e branca,da comum e da dobrada.Amor feinho é bom … Ler mais

Sem Enfeite Nenhum – Conto de Adélia Prado

A mãe era desse jeito: só ia em missa das cinco, por causa de os gatos no escuro serem pardos. Cinema, só uma vez, quando passou os Milagres do padre Antônio em Urucânia. Desde aí, falava sempre, excitada nos olhos, apressada no cacoete dela de enrolar um cacho de cabelo: se eu fosse lá, quem … Ler mais

Dona Doida – Poema de Adélia Prado

Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora. Quando se pôde abrir as janelas, as poças tremiam com os últimos pingos. Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema, decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos. Fui buscar os chuchus e estou voltando agora, … Ler mais