Tag Archives: Crônica de Nelson Rodrigues

Flor de laranjeira – Conto de Nelson Rodrigues

Baixou a voz: — Sabe qual é o golpe? — Qual? E ele, com a boca encostada no seu ouvido: — Você mata o serviço hoje e vamos ao cinema. Topas? Hesitou, numa tentação deliciosa. Antes de capitular, porém, bateu na mesma tecla: — Então jura que não és casado, jura. Recuou, quase ofendido: “Mas… Read More »

Um chefe de família – Conto de Nelson Rodrigues

Foi um amigo que chamou sua atenção: — Fulana te dá cada bola tremenda! — Mentira! E o outro veemente: — Palavra de honra! Não tira os olhos de ti! Mas como o amigo fosse quase um débil mental, tido como irresponsável, Anacleto duvidou, ainda: — Estás querendo me pôr máscara! Passou-se, Mas no dia… Read More »

Sórdido – Conto de Nelson Rodrigues

Começa perguntando: — Topas uma farrinha hoje? Do outro lado, Camarinha boceja: — Hoje não posso. Outro dia. E o Nonato: — Escuta, seu zebu. Tem que ser hoje. Vamos hoje. Escuta, Camarinha. Eu acabo de ler o Corção. Deixa eu falar. E quando leio o Corção tenho vontade de fazer bacanais horrendas, bacanais de… Read More »

Os intelectuais corajosos – Crônica de Nelson Rodrigues

Ah, sou um homem suscetível de violentas nostalgias. Gosto de falar da vacina obrigatória, do naufrágio da Barca Sétima e do assassinato de Pinheiro Machado. Sei que essas datas, esses fatos, exalam um cheiro de remédio de barata. Mas ótimo que assim seja. O remédio de barata é justamente o passado, sim, o passado em… Read More »

O único negro do Brasil – Crônica de Nelson Rodrigues

É um túmulo que dorme não sei onde. Talvez na Alema­nha, talvez na Áustria. Mas não importa a terra. O que importa é a solidão da palavra. Lá está escrito: — “Rosa, pura contradi­ção / Volúpia de ser o sono de ninguém / Sob tantas pálpebras”. E o epitáfio que Rainer Maria Rilke teceu para… Read More »

O medo de parecer idiota – Crônica de Nelson Rodrigues

(Ontem, aliás, anteontem, escrevi: — “O povo desconfia do que entende” etc. etc. Pois bem: — e saiu assim: — “O po­vo desconfia do que não entende”. Novamente fui dominado por uma dessas fúrias sagradas e inúteis. A minha vontade foi sair de porta em porta, de errata em punho, aos berros: — “Eu disse… Read More »

Apelo de uma fé perdida – Crônica de Nelson Rodrigues

Imagino a seguinte cena: — d. Hélder chega à janela e olha o céu. No verso do Chico Buarque não há janela intranscendente, e explico: — qualquer janela nos põe em relação direta, fulminante, com o infinito. Assim está certo o poeta popular. É preciso usar as janelas com larga e cálida abundância. Mas volto… Read More »

O septuagenário nato – Crônica de Nelson Rodrigues

Não sei se falei aqui do personagem de Gogol. Era um sujeito fabuloso. Basta dizer: — nasceu de sapatos, guarda-chuva e já funcionário. A parteira, gorda e cheia de varizes como uma viúva machadiana, caiu para trás, com ataque. O próprio recém-nascido é que a acudiu e lhe deu, em ambas as faces, dois ou… Read More »

Banho de noiva – Conto de Nelson Rodrigues

Vinte e quatro horas antes do casamento, Detinha suspira: — Meu filho, posso te fazer uma pergunta? Peçanha (Antônio Peçanha), que estava limando as unhas com um pau de fósforo, boceja: — “Mete lá”. E ela: — Quantos banhos tu tomas? Admirou-se: — Por quê? E ela: — Responde. Quantos banhos tu tomas por dia?… Read More »