Tag Archives: Crônica de Nelson Rodrigues

O septuagenário nato – Crônica de Nelson Rodrigues

Não sei se falei aqui do personagem de Gogol. Era um sujeito fabuloso. Basta dizer: — nasceu de sapatos, guarda-chuva e já funcionário. A parteira, gorda e cheia de varizes como uma viúva machadiana, caiu para trás, com ataque. O próprio recém-nascido é que a acudiu e lhe deu, em ambas as faces, dois ou… Read More »

Banho de noiva – Conto de Nelson Rodrigues

Vinte e quatro horas antes do casamento, Detinha suspira: — Meu filho, posso te fazer uma pergunta? Peçanha (Antônio Peçanha), que estava limando as unhas com um pau de fósforo, boceja: — “Mete lá”. E ela: — Quantos banhos tu tomas? Admirou-se: — Por quê? E ela: — Responde. Quantos banhos tu tomas por dia?… Read More »

Um menino de paixões de ópera – Crônica de Nelson Rodrigues

Bem me lembro dos meus cinco, seis anos. O vizinho era, então, todo o meu horizonte humano. Ainda vejo as pessoas que moravam ao nosso lado, ou em frente, ou na esquina. Os sujeitos se cumprimentavam assim: — “Bom dia, vizinho. Co­mo vai, vizinho?”. E a simples palavra tinha uma tensão, um frêmito, uma magia.… Read More »

Era bonito ser histérica – Conto de Nelson Rodrigues

“Beijarei o punhal que matar Pinheiro Machado” — soluçou o orador. E, realmente, enfiou a mão no colete, ou cinto, e de lá arrancou, com ágil ferocidade, o punhal homicida. Logo, à vista de todos, beijou, chorando, o punhal. As lágrimas deslizavam pela face cava. E o orador, prolongando o efeito cênico, ainda ficou, por… Read More »

Feia demais – Conto de Nelson Rodrigues

Quando chegou em casa, as irmãs o esperavam com a pergunta sôfrega: — Você está namorando aquela pequena? — Estou. Houve um espanto indignado: — Não é possível, não pode ser! — Por quê? E todas, num coro feroz: — Porque é um bucho horroroso! Arranja uma pequena melhor, mais interessante, bonitinha! O rapaz empalideceu,… Read More »

Uma senhora honesta – Conto de Nelson Rodrigues

Era muito virtuosa e, mais do que isso, tinha orgulho, tinha vaidade dessa virtude. Casada há seis meses com Valverde (Márcio Valverde), ouvia muita novela de rádio. E se, por coincidência, a heroína da novela prevaricava, ela não podia conter sua indignação. Dizia logo: — Esse negócio de trair o marido não é comigo! Fazia… Read More »

O escravo etíope – Conto de Nelson Rodrigues

Saiu do colégio com quinze anos e trouxe para o mundo a sua inocência maravilhada. Ninguém mais sensível e exclamativa. De uma fragilidade física impressionante, qualquer esforço dava-lhe palpitações, falta de ar; uma simples aragem a resfriava. O médico da família, que a examinou várias vezes, repetia: — Tem uma saúde muito delicada. É preciso… Read More »

A esbofeteada – Conto de Nelson Rodrigues

Virou-se para as coleguinhas: — Como meu namorado, eu confesso francamente: nunca vi! Tem um gênio! Que gênio! Indagaram: — Feroz? E Ismênia: — Se é feroz? Puxa! Precisa uns dez para segurar! — Olha para os lados e baixa a voz: — Vocês sabem o que é que ele fez comigo? Não sabem? —… Read More »

Ciumento demais – Conto de Nelson Rodrigues

Levou o marido até a porta. Ainda esperou que ele, num adeus de dedos, dobrasse a esquina. E então, no seu quimono rosa, entrou no gabinete, trancou-se e ligou o telefone. Do outro lado, atende uma voz masculina. Lúcia ri, muito doce: — Sou eu. E a voz: — Tu? Começou assim o diálogo amorosíssimo.… Read More »

As chagas do mendigo – Conto de Nelson Rodrigues

A coleguinha barrou-lhe a passagem: — Vem cá um instantinho, Marlúcia. Levou-a para um canto. Lá, pigarreou e fez a pergunta: — É verdade que estás namorando aquele rapaz? — Qual deles? E a amiga: — O do Buick. É verdade? Marlúcia titubeou: — Bem. Não é propriamente namoro. Flerte. Por enquanto é flerte. A… Read More »