Tag Archives: Crônica de Paulo Mendes Campos

Os anjos contam histórias – Crônica de Paulo Mendes Campos

O chefe da família na máquina de trabalhar. A mulher na enceradeira. A cozinheira no fogão. O passarinho na gaiola. Os peixes no mar. A gaivota pescando. A menina rolando no chão. O menino, doente, na cama. Todos nós somos deste mundo, menos as crianças. E o menino, perseguido de visões febris, vai falando sem… Read More »

Encontro de dois mentirosos – Crônica de Paulo Mendes Campos

— Oba, como é que é, rapaz, há quanto tempo… — Tudo azul. Você é que anda sumido. — Dando o meu duro. E você? — Duro, graças a Deus, eu não dou mais. — Ficou rico? — Talvez eu não possa dizer tanto; mas tenho ganhado meudinheirinho… bastante dinheiro… muito dinheiro… — Brasília? —… Read More »

A puberdade abstrata – Crônica de Paulo Mendes Campos

Sempre me encantou a liberdade dos cegos correndo para a morte. Música de redenção cobria-me de emoções praieiras. Flores altas, espontâneas, desmentiam a vida. Ondas que o mar brincava nas rochas informavam o sagrado, aventuras que se desatam de santa rebeldia. Galhos espiralados contra o céu, sabor de terra no meu sangue, tudo subornava em… Read More »

O homem que calculava – Crônica de Paulo Mendes Campos

Tenho uma casa a meio duma encosta de Petrópolis, perto de Araras. João Saldanha, dado a literaturas russas, diz que se trata duma dacha, o que nos romantiza, mas no fundo é mesmo um barraco bem bolado por Zanine. Entre águas e tons vegetais que vão passando, passo os fins de semana. Numa esperança aquecida,… Read More »

O cafajeste e o transcendente – Crônica de Paulo Mendes Campos

O diálogo perene entre o classicismo e o romantismo é substituído na vida literária atual do Brasil pelo desprezo que se votam o cafajeste e o transcendente. Na futura história literária de nossa época, naturalmente, será esquecida a grita que ambos levantam, que foi sempre a história um reduzir de gritos e vaidades à sua… Read More »

Definição do rapaz – Crônica de Paulo Mendes Campos

Em 1946, Rubem Braga e eu, então moradores de uma casa à rua Júlio de Castilhos, resolvemos estudar inglês. Um anúncio de jornal nos fez decidir sobre o professor. Nós lhe telefonamos, ele veio, combinou-se o preço, aulas três vezes por semana. Tratava-se de um inglês alto, de testa estreita, cinquentão. As aulas, às oito… Read More »

Réquiem para os bares mortos – Crônica de Paulo Mendes Campos

Me perdia muito pelas grutas sombrias dos bares. À noite, conchas iluminadas, a ressoar em profundezas submarinas. Hoje sou um homem derramado. Fugindo à tempestade, entrei uma vez no Nacional, e lá se erguia – portentosa figura – um velho, alto e cavo, a recitar os sonetos de Mallarmé. Foi uma visão dura, hermética, definitiva.… Read More »

A aurora – Crônica de Paulo Mendes Campos

A aurora chegou vestida de cor-de-rosa, passou pela vidraça, passou através de minhas pálpebras, acordou meus olhos. Mas não me acordou a alma, que ficou dorme-dormindo, boba e semi-iluminada. Depois ela, a aurora, foi esvoaçar sobre os telhados, e era como se aquilo estivesse acontecendo no passado. Meus olhos ficaram expiando aquela aurora doida que… Read More »