Tarzan e Beijinho – Conto de Nélida Piñon

Conheci Tarzan e Beijinho em Malibu, antes de se transferirem para o Leblon, uma praia que havia tragado o coração de muitos almirantes batavos e sereias litorâneas. Viviam em Malibu como se ainda pisassem as areias de Cabo Frio. Para tanto recorrendo a símbolos nacionais, desde o azeite-de-dendê, a bandeira verde-amarela, até à flâmula rubro-negra. E quando uma pergunta lhes soava particularmente delicada, respondiam em português, teimando em apelidar de João a Mr. Blackmur. A nostalgia do exílio, longe de debilitá- los, poupava-os de qualquer desgosto. Assim, sempre que lhes falavam de Copacabana, como um sonho distante no horizonte, Beijinho dizia, para eu traduzir:

– Ah, a invernada de Olaria.

Eu não sabia explicar a frase a Mr. Blackmur. Havia um país a preservar. E nós éramos o país deixado atrás à altura do Rio de Janeiro. TVatava-se sim de uma festa móvel, celebrada em qualquer estação do ano, e para a qual a população era convocada. Todo o morro descia para o espetáculo. Cabia ao destino indicar os protagonistas de um festejo a que jamais faltavam bebidas, sangue e alegria.

– E quem separa a alegria da tristeza! disse Tarzan, para queo aplaudíssemos. Beijinho prontamente condenou-lhe a antinomia em desuso, criada com intenção de ferir a uma das raças mais nobres do hemisfério.

– E a que raça ofendo sem querer?

– Os ciganos. Eles choram privados de qualquer critério. Nunca sabem se é de alegria ou de tristeza. Por favor, Tarzan, não me venha mais com metáforas. Como pode ser um homem do mundo se ainda recorre às heranças deixadas no chão e pisoteadas por todos.

Induzido por Beijinho, que recém-tingira o cabelo de louro, Tarzan compreendeu que deviam regressar à pátria. Mais econômico seria fingir no Rio que estavam em Malibu. O cargueiro holandês cuidou em trazê-los junto à coleção de conchas, búzios, cavalos-marinhos, o pinguim empalhado, toda a imensa concentração de salitre e mineral que Tarzan e Beijinho haviam recolhido do fundo do mar.

Certa vez, eles me confessaram, no fundo do mar encontram- se nossos corações, é preciso ir bem fundo para ouvir-lhes as pulsações. Teria sido um convite para eu fugir deles, me censurariam o modo de olhá-los? Ou simplesmente suplicavam que fosse visitá-los com o aqualung até o fundo do mar. Sobretudo Beijinho retraía-se sempre que tocada. Mesmo diante do gesto que tivesse como desfecho abrir-lhe o zíper do collant vermelho. O seu pudor obrigava- me a pedir-lhe desculpas pelas uvas roubadas do seu prato em nome da minha fome. Sua vingança nestes casos era corrigir-me, dizia meu nome duas vezes, sabendo que a força dele estava em pronunciá-lo de um só fôlego. Sempre me esvaí quando o repetiam com ociosidade.

Tarzan não respondia pelas desavenças da mulher. Defendia a tese de que ambos haviam chegado ao mundo separados. Cada qual lutava a seu modo. E sem temer que o chamássemos de covarde.

Acaso havíamos esquecido que podia ao mesmo tempo assaltar ondas e montanhas acima de mil metros, e ainda assassinar tubarões? Tinha pelas montanhas, porém, especial desprezo, inconformado com uma monumentalidade estática, de evolução imperceptível.

– De nada serve que se transformem em milênios. Não estarei vivo para lamber-lhes as tetas.

Apesar do cenário modesto da sua luta, sempre de duração efêmera, sua campanha contra os códigos e a geologia comovia-me. Bebia Coca-Cola com champanha, sem hesitar em eleger o brut mais caro. Ajustava a língua ao paladar e pedia a Beijinho que o auxiliasse a melhor apreciar uma mistura nascida do engenho e da arte.

– Não me amole com a sua vulgaridade — ela dizia.

Tarzan deixava o chalé de Malibu com a roupa do corpo, tomava o Greyhound na esquina, pronto para uma viagem sem volta. Sempre saltou no posto de gasolina, a um quilômetro da casa. Vinha arrastando-se após vencer o deserto e a fúria dos nômades. Beijinho reconhecia-lhe o esforço. Recebia-o como se tivesse apontado no quadro-negro da cozinha os dias de sua ausência a giz, faltando-lhe forças agora para dar- lhe as boas-vindas. Tarzan voltava à Coca-Cola e ao champanha proclamando: ganhei desta vez. Ela retrucava: você é um urso polar perdido entre ondas e caranguejos disformes. Acu- sava-o de pré-histórico, decretando-lhe o fim através dos símbolos insurgentes.

– Um dia, Beijinho, não volto mais. Ou melhor, terei evoluído tanto que você, para mim, passará a ser uma sereia Mermaid, ouviu? Então não sabe, sempre que uma criatura evolui em excesso, a outra fica atrás, com garras, casca e algas coladas ao rabo? Beijinho recorria ao espelho: ainda estou bela, Tarzan, apesar de você correr pelo tempo com o seu carro Fórmula I. No tribunal instalado na sala, serviam apenas as acusações de origem noticiosa. Ambos tinham formação visual, com rápidas incursões pelos jornais.

– O que se passa no Brasil, além de Pelé e Emerson?

Descrever um país a que se deu as costas não era fácil. Ponderei-lhes que havia o empenho de apagar vestígios de nossa origem, para isto queimavam em praça pública até mesmo preciosos pergaminhos. Os únicos depoimentos com que contávamos para provar que havíamos vivido. Tais atos no entanto considerados necessários a um povo em ascensão peculiar. Bastou que eu dissesse, para Tarzan exigir que lhe descrevesse a Zona Sul, a única geografia nacional por onde havia circulado. Para ele, o Brasil era uma metáfora que não merecia texto.

– Veja você, só São Paulo é um episódio dramático. Quem agüenta a narrativa de um Estado que altera a própria história a cada cinco minutos? E a pretexto único de estar além de onde realmente se encontra.

Tarzan orgulhava-se de sua filiação ao futuro, capaz, ele sim, de a tudo julgar com acerto. Condenava meu nacionalismo exagerado, assim como a melancolia que me via nos olhos. Dizia f-u-t-u-r-o num urro fino que vinha do extremo do istmo até o arquipélago. Eu era o arquipélago.

– Você fala tanto de futuro, mas onde estarão seus músculos quando ele aparecer com cara de bisão — disse Beijinho.

– Bisão não é futuro. É um animal do passado, cm extinção. Como o condor americano.

– Exatamente, seu bobo. E de que modo define-se o futuro cm que não estaremos senão provando a sua extinção. Tarzan beijou Beijinho. Ela aceitou as manifestações da vitória. O navio atracou ao meio-dia na Praça Mauá. Tarzan chorava abraçado aos estivadores. Ainda temos direito ao Brasil? pedia-lhes socorro. O apartamento estava limpo, a mãe de Beijinho varrera, junto à poeira, os objetos pessoais de Tarzan. Sob seus amargos protestos: como dilapidam meu patrimônio deste jeito?

Fez-lhe ver Beijinho que não podiam confiar em sua memória quanto a bens, riqueza, futuro, se não distinguia uma terça-feira de uma quinta do mês de agosto. Ele aceitou que Beijinho o trouxesse à realidade. Ela jamais mutilara sua carne ao traçar-lhe um roteiro sobre o qual caminhar com conforto. Não eram afinal objetos preciosos, simples recortes de jornal, garrafas vazias, anzóis enferrujados.

– Ao menos os discos com defeito teriam servido de cinzeiro — disse ele.

– Só porque foi moda há dez anos? Moda é como serpente, a cada bote traga várias vítimas.

Tarzan percorria o corpo de Beijinho como um território em chamas, buscava ali rios e lagoas. E quando ela voava tão alto que ele, afeito ao mar, não a podia alcançar, pedia-lhe por favor que traduzisse a vida difícil.

Ela se entediava, ora, Tarzan, não sabe que nós, mulheres, fomos derrotadas no paraíso?

Horas depois, Tarzan trouxe novidades. Descobrira o país embriagado de cerveja, seus vapores cm todas as esquinas. Era este então o retrato do Brasil que você esqueceu de desenhar lá cm Malibu? Não c para menos que se urina tanto.

– Queríamos visitar a cidade pelo prazer de adotar passaporte estrangeiro na pátria c soletrar sílabas como se mastigássemos cacos de vidro. E por onde se começa, para deixar de ser brasileiro?

– E lá sei, levo o disfarce por tantos anos — disse eu.

Beijinho trilhava a emoção outra vez. Defendia que abandonássemos o berço mediante a composição caricatural, que talvez fosse a nossa única máscara real. Não havia outra salvação. Enfeitada então de pedras semipreciosas, chapéu-chile, saia vermelha, blusa de nylon, que foi difícil encontrar, e óculos brancos, queria a custo parecer turista rica e sem gosto.

– O requinte é a perdição de quem viaja pela terra.

Tarzan pedia-lhe referências, queria estar de acordo com ela.

– Não quero ninguém parecido comigo. Se eu própria jamais me repito, como ousa colar-se à minha cauda de noiva. Odeio fotografias.

Tarzan apresentou-se de terno brilhante, sapato de bico, gravata de nó apertado, uma pérola próxima ao pomo-de-adão. O canino revestido de folha de ouro realçava-lhe o sorriso. Até de minha flor de maracujá chamou Beijinho.

Vestida de mim mesma, sem precisar do espelho a corrigir-me, cu destoava deles. Por onde Tarzan e Beijinho seguiam, eu procurava as marcas visíveis de sua passagem.

Cruzamos o Baixo Leblon. Obrigados a arrastar pelo Luna, Alvaro’s, Degrau, Antonio’s, uma cara de espanto que surpreendesse os curiosos. Mal nos viam, os habitantes do Leblon refugiavam-se na própria nau. Invadir terra alheia naqueles tempos era transgressão simples.

– Estou cheia, Tarzan. Vamos dar o fora deste poster  grudado nas paredes de Inhaúma. Busquei a compreensão dc Beijinho, cia traiu-me com a insistência de que continuaríamos até o total consumo do uniforme. Passamos pelo Pizzaiolo, Acapulco, a Galeria Alasca. Tarzan pediu licença para descansar no carro.

Beijinho colhia favores e amoras. Marcava encontros, trocava bilhetes, para o mesmo dia, hora e local. Assim não esqueci. Tarzan cedce-lhe mais lápis c papel. O lápis logo perdeu a ponta c Beijinho o arrebato. Pela manhã, cm casa, tiramos as manchas da boca e do corpo com Bom-Bril e Odd sabor limão. E admitimos, antes Malibu fingindo estarmos em Cabo Frio.

Pela primeira vez pensei, por que grudo minha vida a Tarzan e Beijinho e nos estamos tornando um a sombra do outro? Sempre me faltara a coragem de propor-lhes tal questão, insinuar uma transcendência que condenavam na vida de praia que ambos haviam adotado. Ou dizer-lhes: por algum tempo seguirei caminho contrário ao de vocês. Precisava descobrir o mundo sem o socorro deles. Haviam-me transferido sinais de vida que me alimentariam por longos meses, o tempo de equilibrar-me sobre modesto decálogo, e com o qual respirar, criar hábitos.

– E não é verdade que sou agora criatura de hábitos? — queria Tarzan confirmando meu grau de adaptação. Ele julgava porém segundo as informações passadas pela mídia naquela semana. Admitia-se, orgulhoso, produto da televisão. Não fora a televisão aliás e eu nem teria nascido, confessou-nos uma noite. Chovia e o vento açoitava a janela até que a trancou com martelo e prego.

Sozinha, arrumei a mala, cingida ao essencial. Sem abandonar certo ritual que Tarzan e Beijinho não conseguiram extirpar de mim. E por que ficar. Afinal, não vivíamos em comunidade, nem dividíamos cama comum, como talvez suspeitassem os vizinhos por conta da nossa assiduidade. E quando Tarzan e Beijinho se beijavam era sempre um beijo cálido, jamais se transformou em paixão à minha frente. Nunca surpreendi em seus rostos a breve contração de quem pena o desejo e o transfere para as sombras da noite. Aquele amor realizava-se com ciência que eu não saberia descrever.

Através de Rawett, tomei um quarto no Hotel Paissandu. Durante uma semana passeei pelo Catete, comia bife com fritas no Lamas. Mas imaginava Tarzan saudando o futuro pelas manhãs, ao fazer ginástica. Um hábito seguido de iogurte e queijo-de-minas.

Para que Beijinho com mão formosa o trouxesse até o presente. Ele então cedia-lhe o futuro mediante a felicidade que via em seus olhos. Não se dando conta da pressa de Beijinho em logo consumir o presente.

Já sem roupa com que vestir-me, voltei a casa. A chave quase não coube na fechadura pela ferrugem. O regresso parecia assinalado pela marca do abandono. Debaixo da porta, os bilhetes de Tarzan e Beijinho: por favor, por que a violência, quando há outros modos mais delicados de matar; não podemos mais viver sem você; já não somos Tarzan e Beijinho, somos você quando está perto; o que quer que sejamos, para lhe agradar?

Cada bilhete apertado contra o peito prometia terra nova, sempre a figura da âncora esboçada no papel. Eu me comovi. A vida sem Tarzan e Beijinho era triste, trevas eu mastigava pela manhã, o café sem gosto de açúcar, ia o fel cobrindo-me a cara.

Ao menos uma vez preciso sorrir, pensei com volúpia. Fui ao encontro de Tarzan e Beijinho. Guardava um lenço no bolso, para quando nos abraçássemos. Se um lenço não era a manifestação do futuro, era no entanto a varanda em que nos abrigaríamos por toda a tarde, até o escurecer. Eles não estavam. Regressariam no dia seguinte, garantia o porteiro. Havia indícios de viagem, os vasos de flores do lado de fora, para que uma alma os banhasse de água e ternura.

Deixe-lhes mensagem de amor e fidelidade, não voltaria a fazer restrições à nossa vida em comum. Única e com sol. Quem era eu para corrigir os desvios da própria paixão. Ou deixar de exaltar os pródigos empenhados em dilatarem os minutos, os centímetros, os dias da existência humana. Esperei com o coração repousado na mesa, lembrava que me haviam um dia confessado:

– Nossos corações encontram-se no fundo do mar.

Mas, que mar, meu Deus, para eu precisar mergulhar tão fundo, ou viajar tão longe? Já não mais seria Malibu, quem sabe algum oceano novo, recém-descoberto em cartografia inovadora. Não vieram naquele dia. Sofri a espera com café e biscoito creme-craquer. Ainda um outro dia, para sorvê-lo com gosto de derrota. A cada noite amontoavam-se lixo, desesperança, bagaço de laranja e cigarro. Onde haviam ido Tarzan e Beijinho que me fazem sofrer a dor para a qual não me prepararam, não tinha condições de suportar com meu único corpo, minha única alma, com o que eu era. Ser, aprendi naquela semana, tornava-se alguma coisa inatingível.

No sábado, eles vieram sem me abraçar. — Aprendeu agora? disse Tarzan, com rosto sofrido. Eu lhe escavara algumas rugas e ele se deixou apreciar. Beijinho bem quieta não tecia as imagens com que inundava o cotidiano e nos amávamos.

Durante horas evitamos qualquer olhar. Fora uma ausência tão difícil. Colidíramos contra navios, as extremidades feridas, e capengávamos. Ainda não sabíamos em que nos convertêramos. A responsabilidade do tiro talvez mortal partira de mim, e eu tremera. Saímos passeando pela praia, havia cheiro de sal e gasolina de octanagem baixa. Tentei sorrir e eles me corrigiram. Quietos, de mãos dadas, agora parecíamos turistas descobrindo a cidade, a nós mesmos.

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