Um barão perseguido pelo diabo – Gilberto Freyre

De um barão pernambucano, muito conhecido do Recife do século passado, ainda que suas terras fossem distantes da cidade e terras de boi e de plantas de espinho e não de massapê e de cana-de-açúcar — pois não era homem de se contentar com a rotina dos avós — se conta que viveu grande parte da vida perseguido pelo diabo. Diz-se que fizera um pacto com o Cornudo pensando em desembaraçar-se do chamado Príncipe das Trevas com a facilidade com que se desembaraçara de outros entes incômodos. Pois era brasileiro valente e montava a cavalo como um são Jorge. Aliás a história que se conta desse barão, conta-se também um tanto modificada de outro, este morador no Recife e visconde.

Todo o esforço do barão — ou do visconde — para libertar-se do demo foi inútil. Vinha o barão ao Recife e aqui vivia como qualquer outro lorde pernambucano da época, vida alegre e descuidada. Jantava no Torres. Divertia-se no teatro vendo as cômicas. Ia afofado em carro de luxo às corridas do Piranga. Mas de repente recebia um sinal misterioso: era do Chifrudo para ir encontrá-lo sozinho nas brenhas, tarde da noite — noite sem lua; e como que refrescar a assinatura no trato que levianamente fizera com o Príncipe Negro. Simples barão, tinha que obedecer ao Príncipe. Era então visto a galope pelos ermos, montado num cavalo que ninguém sabia se era deste mundo, se do outro. Cavalo levado do diabo. E quando voltava do encontro com o Maldito, durante horas parecia o barão ia botar a alma pela boca, de tão mortalmente fatigado. A alma e o sangue, pois seu rosto era então o de um cadáver e suas mãos, também, as de um defunto. Rosto pálido, mãos esverdeadas, olhos que pareciam ir saltar do rosto e cair no chão, horrorizados do que tinham visto. Ou envergonhados do que tinham sido obrigados a ver.

Os parentes e os amigos procuravam adoçar-lhe o terror, pois era homem respeitado e estimado pelos seus. Davam-lhe água benta para banhar os olhos terrivelmente secos. Uma mucama esfregava-lhe alecrim pelo corpo lasso: corpo de branco que tivesse apanhado de estranho chicote que não ferisse mas doesse até à alma: dor seca e terrível. Que tivesse apanhado mais que todos os negros de seu eito. E, aos poucos, o barão voltava a si para novamente ser chamado, daí a meses, à presença do seu terrível senhor. Entretanto não era homem de quem se dissesse:

Quem rouba pouco é ladrão
Quem rouba muito é barão.

Seu pacto com o diabo era um mistério.

Ninguém explicava o caso pois havia entre os lordes da época quem mais do que o barão X amasse o dinheiro ou fosse doente pelo ouro, ganho ou aumentado de qualquer modo: mesmo com a ajuda do diabo. Havia até quem, tendo título de nobre ou nome ilustre, fosse acusado de ter enriquecido fabricando cédula ou moeda em casa, sabendo-se de uma guitarra de gente de prol que rangera o seu ranger criminoso no fundo de uma doce capela de engenho, assombrando a gente simples: aquilo era alma fazendo mingau! O mingau que é crença entre a gente simples do Recife passarem as almas durante a noite pelos olhos dos meninos.

De ricos e avarentos há muita história de sociedade com o demônio. Em seu excelente estudo, há anos publicado, Os filhos do medo, a sra. Ruth Guimarães lembra que são várias no Brasil as variantes do velho adágio português: “Na arca do avarento, o diabo jaz dentro.”

Não parece que fosse o caso do barão pernambucano de quem as más- línguas do Recife durante anos espalharam que era uma vez por outra “levado pelo diabo”. Forçado pelo diabo a encontrá-lo nas brenhas como que para prestar contas de sua vida ao Canhoto, muito mais seu senhor que Pedro II.

Do visconde diz-se que quando morreu o diabo ficou não só com sua alma como com seu corpo. E que para fingir enterrá-lo em Santo Amaro, a família tivera que encher o caixão de pedra.

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