Um chefe de família – Conto de Nelson Rodrigues

By | 20/07/2021

Foi um amigo que chamou sua atenção:

— Fulana te dá cada bola tremenda!

— Mentira!

E o outro veemente:

— Palavra de honra! Não tira os olhos de ti!

Mas como o amigo fosse quase um débil mental, tido como irresponsável,

Anacleto duvidou, ainda:

— Estás querendo me pôr máscara!

Passou-se, Mas no dia seguinte, coincidiu que ele e a garota fossem no mesmo bonde para a cidade. Então Anacleto instalou-se no banco dos sem-vergonha, de frente para todo mundo, inclusive para a pequena. Fez seus planos: “Vou tirar isso a limpo!”. E, com efeito, não fez outra coisa, durante a viagem, senão tomar conta de Netinha. A princípio, olhava com certa discrição e, por fim, com o maior descaro. Num instante, os outros passageiros acompanharam, interessados, o flerte escandaloso. Desde o primeiro instante, qualquer dúvida era impraticável: “Está me dando bola!”, pensava o rapaz. Envaidecido da conquista, que já reputava consumada, exagerava para si mesmo:

“Notabilíssima!”. Na cidade, telefonou para o amigo:

— Teu palpite foi batata!

O outro exultou:

— Estava na cara!

Anacleto baixou a voz:

— Vou entrar de sola!

NAMORO

Netinha podia não ser um deslumbramento. Mas era jeitosa de corpo e de rosto. Anacleto, que, na ocasião, dizia-se “vago”, viu naquele namoro um passatempo dos mais estimáveis. Ao primeiro ensejo, saiu atrás da pequena. Fez a pergunta melíflua:

— Posso acompanhá-la?

Sorriu:

— Não vale a pena.

Mas o simples fato da resposta implicava uma aquiescência. Anacleto instalou-se, a seu lado, no bonde. Quando veio o condutor, ele anunciou, alto, dando uma nota de dez cruzeiros:

— Duas.

Num instante, segundo sua expressão textual, “o negócio pegou fogo”. Foi um interesse súbito, recíproco e feroz. Suspirando, dizia ela: “Sou muito romântica”. Ele não ficava atrás: “Eu, idem”. E ela:

— Ah, que bom!

Esse romantismo conjunto parecia assegurar um romance em grande estilo, uma novela de primeira ordem. Cada vez mais interessado, mais conquistado, foi avisando:

— Quero te ver todo santo dia!

— Todo dia?

— Natural!

E ela:

— Todo dia, não, meu filho! Não pode!

— Por quê?

— Papai não quer, não deixa.

Na sua decepção, Anacleto esbugalhou os olhos: “Essa é a maior!”. Então, Netinha explicou, com muito tato e doçura, que o pai era um caso sério, enérgico que Deus te livre. Antes de se despedir, ela combinou, de pedra e cal:

— Tu vais me ver às terças, quintas e sábados. OK?

Bufou:

— OK.

SOGROS

Mas foi-se embora descontente. Desabafou com os amigos: “Não devia existir sogro. Nem sogra. São os maiores empatas do mundo”. No dia seguinte, porém, experimenta uma nova e amarga decepção. Planejara ir com Netinha ao cinema, à Quinta da Boa Vista, ao Pão de Açúcar. Netinha, porém, o dissuadiu: “Nem brinca!”. O pai era contra namoro em portão, esquina. Vivia dizendo: “Nada de rua. Quero namoro em casa, na sala!”. Nessa altura dos acontecimentos, Anacleto gostava demais. E foi na base da paixão que aceitou o romance na própria residência de Netinha. Foi apresentado ao sogro, que era a antipatia personificada; à sogra, que costurava em casa; às cunhadas, que eram duma clamorosa falta de graça. Às sete horas da noite, batia ele na residência da garota. A sogra, que estava costurando na sala, levantava-se:

— Esteja à vontade! Com licença!

Justiça se faça àquela família, inclusive ao próprio sogro. A despeito de seus escrúpulos severos, nem ele, nem a sogra, nem as cunhadas apareciam. Ficavam os dois em plena, total liberdade. De vez em quando, ocorria uma dúvida a Anacleto:

— Imagina tu se teu pai me entra aqui de repente! É capaz de dar tiros!

Foi taxativa: “Vai por mim que não há perigo!”. Passavam três, quatro horas naquela sala, sem que ninguém os incomodasse. Ele fazia justiça: “Teu pessoal é muito camarada! Muito liga!”. Mas um dia a própria sogra o chamou: “Sabe como é, não sabe? Vocês ocupam a sala e eu não posso trabalhar…”. Custou a compreender que devia indenizar o espaço e o tempo. Acabou estabelecendo uma contribuição mensal de quinhentos cruzeiros. Continuava, porém, contrariadíssimo. Raro era o dia em que não abrisse o coração para a pequena:

— Esse negócio de só te ver às terças, quintas e sábados ainda não me entrou!

Por que três vezes por semana e não todos os dias? Por quê?

Coçando a cabeça com o grampo, ela repetia:

— Costume da casa! Papai não gosta! Papai não quer!

A DENÚNCIA

Uma terça-feira, estava passando goma no cabelo, para ver a pequena, quando aparece o amigo, o mesmo de sempre. O fulano vê uma cadeira vaga, senta-se. E, mascando um palito de fósforo, começou:

— Olha, Anacleto, tu sabes que eu sou um sujeito discreto.

— Mais ou menos.

O outro pigarreou:

— E, além disso, não gosto de dar palpites na vida de ninguém.

Anacleto foi sumário:

— Desembucha!

Já de pé, com as duas mãos nos bolsos, o amigo disse o resto: “Queres saber por que só te deixam ver a pequena às terças, quintas e sábados?”. Anacleto virou-se:

“Fala”. O outro baixou a voz:

— Pelo seguinte: porque, às segundas, quartas e sextas, vai outro em teu lugar.

Percebeste o golpe? A marmelada? Sujeira e das grossas!

Durante uns trinta segundos, reinou um silêncio compacto no quarto. Anacleto foi incapaz de um gesto, de uma palavra, de uma idéia. Súbito, arremessou-se contra o outro aos berros: “Seu isso! Seu aquilo!”. Agarrou-o, pela gola do casaco; com as duas mãos, sacudia-o, frenético: “Mentiroso!”. O delator, lívido, asfixiado, mal podia dizer:

“Eu vi! Eu vi!”. Anacleto perguntou: “Quando?”. E o pobre-diabo: “Ontem. A vizinhança sabe, comenta. Palavra de honra!”. Anacleto exigia:

— Jura pela honra da tua mãe como viste. Jura!

— Juro… pela honra de minha mãe!

Então, já abalado, Anacleto andava de um lado para outro no quarto. Dava murros na própria cabeça. “Não é possível! Não pode ser!” Estrebuchava ainda: “Eu admito que Netinha seja isso e aquilo… Em matéria de mulher, só acredito na minha mãe… Mas o meu futuro sogro!”. Via no velho um padrão de intransigência. “Ele não toparia essa pouca-vergonha! É um sujeito batata, cem por cento!” Mas o amigo, que tinha uma vocação nata e irresistível para a delação, forneceu maiores detalhes: “O tal cara é despachante, tem automóvel, o diabo!”. No meio do quarto, Anacleto decidiu, patético:

— Vamos tirar isso a limpo! Amanhã é o dia do outro, não é? Pois estaremos lá, na hora, espiando. Mas toma nota: se for mentira, te arrebento essa cara!

TRAGÉDIA

No dia seguinte, com efeito, debaixo de uma árvore próxima, os dois espionavam a casa. Súbito, encosta um carro que Anacleto, mentalmente, classificou como “big automóvel”. Desceu um camarada, de meia-idade e barrigudo, de charuto entre os dedos, um ar de prosperidade quase ultrajante. O amigo o cutucou: “Viste?”. Roendo as unhas, rosnando nomes feios, Anacleto esperou quatro horas. Espiando o próprio relógio, à luz de um fósforo, gemia: “Demora mais que eu!”. Por fim, na altura de meianoite, saía o outro, obeso e feliz, num terno branco acintoso. A própria Netinha veio trazê-lo. E, do portão, deu adeusinho quando o carro dobrou a esquina. Para Anacleto era demais. Arremessou-se como um alucinado e invadiu a casa, aos gritos: “Sim senhora! Que papelão!”. Mas a pequena o enfrentou, viril: “E não grita comigo que eu não admito!”. Do fundo da casa veio o sogro. Interpelou-o: “Está pensando que isso é a casa da mãe Joana? Em absoluto!” Face a face com o velho, Anacleto esbravejava:

— Não me admira a sua filha! Mas o senhor; hein? O senhor!

— É isso mesmo!

E Anacleto: “Como é que o senhor admite que, na sua casa… Isso é papel, é? Um dia eu, outro dia aquele palhaço, nas suas barbas!”. O velho foi esplêndido. Dedo em riste, arrasou-o:

— Você fala de barriga cheia! Pois fique sabendo que ele dava muito mais que você! O triplo, ouviu? O triplo! — E berrou a importância: — Mil e quinhentos cruzeiros, todo mês! Você nunca passou dos quinhentos! Suma-se da minha vista! Suma-se!

Foi corrido daquela casa aos berros de “Pão-duro! Unha-de-fome! Mendigo!”.

Muito tempo depois, em casa, em meio à solidariedade da mulher e das filhas, aquele chefe de família, ainda excitado, ainda heróico, resmungava:

— Desaforo!…

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