Um dia na vida do cartão inteligente – Crônica de Moacyr Scliar

“Preço menor viabiliza cartão inteligente.”
Dinheiro, 26 ago. 1999

Não eram ainda dez horas quando ele recebeu, pelo correio especial, o seu novo cartão inteligente. Foi com emoção que ele abriu o envelope – não tinha a menor ideia de como seria esse novo cartão, que, dizia a publicidade, inovava tudo o que se conhecia em matéria de cartões de crédito.

E era diferente mesmo. Não apenas pelo formato – um pouco maior do que os cartões comuns – como também pelo mostrador, semelhante ao das calculadoras. Havia ali uma mensagem: “Bom dia. Sou o seu cartão inteligente. Aqui estou para lhe prestar todos os serviços de que necessite”.

Entusiasmado, ele resolveu ir às compras. Foi ao shopping, passou por diversas lojas. De repente, avistou um belo paletó, um paletó importado, elegantíssimo. Entrou, experimentou. Caiu-lhe muito bem. Sacou do bolso o cartão inteligente e já ia entregá-lo ao vendedor, quando no mostrador apareceu uma mensagem: “Não compre esse paletó. Você não precisa dele. Você já tem muitos paletós e, além disso, o preço está exagerado. Não compre”.

Perturbado, guardou o cartão no bolso, deu uma desculpa qualquer ao intrigado vendedor e bateu em retirada.

Foi para o escritório, trabalhou um pouco – mas não podia deixar de pensar no que tinha acontecido. Teria mesmo o cartão lhe dado um conselho?

Decidiu tentar novamente. Saiu, entrou numa livraria, apanhou um livro de economia. Foi ao caixa, com o cartão na mão – mas, de novo, ali estava um aviso: “Não compre esse livro. As ideias do autor estão completamente superadas. As revistas norte-americanas há muito o esqueceram”. Deixou o livro sobre o balcão e saiu correndo.

Passou a tarde em casa, com dor de cabeça. E sabia por quê. Tinha um encontro marcado com uma moça que conhecera numa convenção de negócios. Sentira-se muito atraído por ela; convidara-a para jantar, naquela mesma noite. Seria, esperava, o início de uma bela ligação. Mas – e aí vinha a atroz dúvida – o que diria o cartão, na hora em que fosse pagar a conta do jantar? O que faria se aparecesse no mostrador algo como: “Não pague a conta para essa mulher, ela não é para você”?

Telefonou para a moça, cancelando o encontro. E aí, com dor de cabeça, foi para a cama. Mas não podia dormir – sobretudo porque não podia sonhar. O que diria o cartão inteligente de seus sonhos, absurdos como todos os sonhos?

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