Uma água-marinha para Bárbara – Crônica de Rubem Braga

By | 22/06/2022

Já trabalhei com jóias. Não quero contar vantagem; minhas jóias não eram das mais preciosas, nem eu extraí do olho de um ídolo hindu a esmeralda sagrada, nem mesmo fui assassinado no Araguaia por causa de um diamante azul. Minha aventura foi bem mais modesta e, para começar, só lidei com pedras semipreciosas.

Acontece que eu estava mal de dinheiro, como tem sucedido em outras fases de minha vida — e na vida de outras pessoas também. Escrever em jornal, coisa que sempre fiz mais ou menos, estava difícil, pois o Brasil vivia sob uma de suas ditaduras (a de Vargas) e eu estava colocado pelo DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) sob censura prévia; é uma colocação desagradável, inclusive porque dá raiva, e a gente só tem vontade de escrever coisas censuráveis. Acabei parando de escrever, ou só fazendo uns tópicos anônimos para um jornal qualquer; além disto redigia anúncios para a agência de um amigo meu — a Inter-Americana, do Armando D’Almeida, para ser exato.

Redigia mal; jamais consegui ser um publicitário razoável, embora tenha perdido muitas noites tentando criar algo de fremente e original sobre as virtudes da lâmina Gillette Azul e as volúpias do sofá-cama Drago.

Foi então que me encontrei com um velho amigo mineiro, o Otávio Xavier Ferreira.

Otávio tinha me iniciado no jornalismo, pois era secretário da redação do Diário da Tarde de Belo Horizonte, primeiro jornal diário em que trabalhei — isto foi há 50 anos, se vocês fazem questão de saber. Depois de me jogar cá dentro da profissão, ele, espertamente, saltou fora — e naquele tempo era dono de uma lapidação e de duas joalherias.

Encontramo-nos no Rio; subi com ele a um apartamento do Hotel Itajubá, cujo bar era o “quartel-general” dos vendedores de pedras. Mostrou-me topázios, águas-marinhas, ametistas, muitas outras pedras; ensinou-me coisas, a avaliar o preço pela cor, a distinguir lapidações, os “pontos” e outros defeitos; preveniu- me contra os truques mais vulgares, feitos a fogo e fumo para alterar a cor das pedras; deu-me um livro; deixou-me várias coleções em uma caixa e em pacotes de papel branco que aprendi a fazer e desfazer; nomeou-me seu representante no Rio, arrumou a mala, pagou-me três uísques no bar do hotel e embarcou de volta para Minas.

Funcionei nessa coisa vários meses, talvez um ano — e, se não ganhei muito, graças a Deus não dei prejuízo ao Otávio. Até hoje ainda me sucede ser cumprimentado na rua por algum sujeito louro de cabelo meio crespo que só depois de ir longe eu me lembro que é algum holandês a quem outrora vendi pedras…

Mas foi muitos anos depois dessa medíocre aventura comercial clandestina (não, nunca paguei impostos) que descobri sua utilidade. Eu vinha dos Estados Unidos, trazia algum dinheiro e um pouco de saudade de uma americana de dois metros de altura que o Carlos Niemeyer me arranjara lá — doce Bárbara de olhos verdes, anjo do Greenwich Village. Fui a uma luxuosa loja da esquina de Gonçalves Dias e Ouvidor comprar uma lembrança para ela — toda gente sabe que americana adora água-marinha e não faz muita questão de qualidade.

Escolhi uma pedrinha clara, mas o vendedor me propôs outra: — Se é presente, por que não leva esta?

Sopesei a pedra um instante, disse distraído: — Deve ter uns 22 quilates…

Fortaleza? Não, quero coisa mais barata…

O homem disse que aquela não estava cara, mostrou-me o preço. Para mim, podia fazer uma redução. Eu virava a pedra; murmurei que ela tinha um ponto, mas a lapidação era realmente muito boa; tinha muita vida, até parecia Itaguaçu, mas era Fortaleza, não era?

– O senhor trabalha no ramo?

– Não, há muito tempo que não mexo com isso…

Pois levei a pedra boa pelo preço que estava marcado para a outra; uma redução espontânea de mais de 40 por cento para o “colega”. Um colega que não aprendeu a vender, mas de certo modo aprendeu a comprar. Escrevi uma carta caprichosa em inglês barbaresco, liquidando o meu romance com Bárbara, e mandei-lhe a pedra por um amigo, o Armando Nogueira, que embarcava para Nova Iorque.

Ela me respondeu que jamais ousara acreditar na minha promessa de a mandar vir para o Brasil, nem de vivermos juntos em Nova Iorque; que a pedra era linda, e eu era uma flor; que chorava muito, mas compreendia. Que aquele amor ficaria em sua vida como algo… bem, ainda tenho a carta guardada, mas a modéstia me impede de publicá-la. Na ocasião em que a li senti um pouco de vaidade, um certo aperto na garganta e uma confusa saudade sentimental e principalmente física de minha Bárbara, minha grande Bárbara, my big big big Barbara.

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