Vinte penosos anos depois – Crônica de Fernando Sabino

By | 11/04/2022

Uma tarde de maio de 1944 um jovem de vinte anos aguardava sua noiva numa confeitaria da moda na Cinelândia. Ela telefonara para o seu novo emprego, marcando um encontro por motivo da maior importância, que lhe diria pessoalmente.

Que poderia ser? Ele fazia mil conjecturas enquanto esperava, desistindo do sorvete que preferiria tomar, em favor de um vermute, que lhe daria um ar mais adulto, como certamente a ocasião exigia.

– Uma audiência com o presidente – ela foi informando logo. – Para agradecer a nomeação.

Ir ao presidente agradecer algo que não lhe pedira significava para ele uma abdicação. A nomeação para o rendoso cargo surgira como uma injunção do casamento – por isso havia concordado. Mas agradecer ao ditador, que ele repudiava? (Além do mais o cargo nem tão rendoso era assim, como já tivera ocasião de verificar.) Nem por isso seus ideais democráticos de estudante haviam morrido, continuava a ter lá as suas convicções.

Ele seguia de cara amarrada no carro oficial, ao lado da moça: ela o havia vencido, mas não o convencera. Ganharam a rua Paissandu em direção ao Palácio Guanabara, residência presidencial naquele tempo. De súbito ele se inclinou para a frente e ordenou ao motorista que parasse:

– Você vai sozinha – disse, já abrindo a porta. – Te espero na praia.

Estavam quase transpondo os portões do palácio quando ele saltou e se afastou rapidamente sem olhar para trás. Ouviu o carro dando partida e foi caminhando em direção à praia. Mal vencera a segunda quadra, o carro voltava, detendo-se a seu lado:

– Mandaram buscar o senhor – e o motorista já saltava para abrir-lhe a porta.

Apanhado de surpresa, deu consigo já dentro do carro, que seguia de volta ao palácio. Na portaria um oficial de gabinete à sua espera o introduziu numa saleta onde a noiva o aguardava.

– Que aconteceu? – perguntou, intrigado.

– O presidente mandou te buscar. Ele te viu da janela.

A primeira vez que vi Getúlio Vargas de perto (em Belo Horizonte, 1943) eu usava uma farda de gala (emprestada) de oficial do Exército. A indumentária se impusera por duas razões: queria não deixar dúvidas de que havia terminado meu curso no CPOR, e não tinha casaca, que a ocasião exigia: tratava-se de casamento de uma contraparente, da qual o presidente era padrinho.

– Pronto para a guerra, tenente? – disse ele com um sorriso, quando lhe fui apresentado.

O sorriso me pareceu estereotipado como o de uma máscara. Este mesmo sorriso surpreendo agora em várias sequências de um filme sobre a sua vida, atualmente em exibição. Trata-se de um documentário com precioso material de pesquisa e cheio de interesse – mas nem por isso saio do cinema menos acabrunhado. A direção, embora revelando competência e sensibilidade, pareceu-me ter cometido, com a melhor das intenções, a falta de Jorge Ileli noutro excelente filme sobre o mesmo assunto que vi há tempos numa exibição particular. Ambos praticamente esqueceram a ditadura de Vargas e passaram como gato sobre brasas pelas verdadeiras razões de seu suicídio. Com isso contribuem para perpetuar um mito em que eles próprios parecem acreditar.

E saio acabrunhado do cinema porque o que eu pude ver foi a evocação de uma triste fase de nossa História: a vaidade, a ambição, o cinismo paternalista, o culto à personalidade, as presepadas cívicas, as fanfarrices do Poder, as diversões mundanas do mundo oficial – todo esse caldo de cultura que nos restou de uma época inspirada no homem cuja única preocupação foi sempre a de perpetuar-se no Poder.

Depois de uma das noites mais agitadas de nossa História, a manhã se firmou sobre a cidade, mas o silêncio continuou nos salões do Palácio do Catete. De repente se ouviu um tiro, vindo dos aposentos presidenciais. Eram exatamente 8 horas e 35 minutos do dia 24 de agosto de 1954.

Durante dez anos acreditei que esse disparo marcasse realmente um momento de grandeza na vida pública do homem que sempre ignorou as torpezas praticadas à sua sombra: as da ditadura que brutalizou o país de 1937 a 1945 e as que o levaram à morte em 1954. Hoje acredito que ele estava apenas saindo da vida para entrar na História, como disse em sua famosa carta-testamento. A ser ela autêntica – do que, aliás, nunca me convenci – ele buscou deixar atrás de si um legado de desentendimento e desordem que confundisse a nação e engrandecesse a sua memória: après moi, le déluge.

Recentemente, vinte penosos anos depois, os jornais se encheram de depoimentos daqueles que viveram ao seu redor – todos repassados de um respeito que ia da simpatia ao fervor. Mas nenhum me impressionou tanto como o que me deu um dia Juarez Távora: contou-me que durante seus despachos com o presidente, ficava estupefato com a quantidade de papéis que ele assinava. Getúlio chamara a si a tarefa de sacramentar com a sua assinatura todos os atos oficiais praticados, até mesmo os da mais simples rotina, como a nomeação ou dispensa de um servente. Parecia ter prazer em ver seu próprio nome brotar caprichosamente da pena, como autoridade suprema da Nação. E entrava pela madrugada adentro, às vezes a cabecear de sono, assinando, assinando…

O jovem casal continuava aguardando na antessala do palácio, silencioso e contrito como numa sacristia à espera do padre para a confissão. Certamente alguém viria buscá-los para a audiência presidencial, em algum imenso salão no recesso do palácio. Era o que ele pensava, procurando relaxar o corpo na poltrona e tentando organizar mentalmente o que diria.

Decidiu não dizer nada, ela que falasse por ambos. Mais aliviado, pôs-se a observar o pequeno gabinete em que se achavam. Poltronas de couro marrom, uma pesada mesa de madeira trabalhada, um tinteiro de prata, um mata-borrão. Ao fundo, uma cortina de veludo cor de vinho, de enfeites dourados, cobrindo a parede do teto ao chão, como a de um palco. Súbito percebeu que ela se agitava, abrindo-se no meio, arrepanhada por uma mão branca e delicada. De uma porta entreaberta – era na realidade um reposteiro – surgiu o presidente. Vestia um terno branco de trespasse um tanto apertado, o que o fazia mais obeso, e trazia um charuto na mão. A pele do rosto bem barbeado era fina e rosada, como sob uma maquilagem de teatro. A sua entrada em cena, a sua postura, o charuto erguido no ar, o sorriso fixo, a cabeça levemente inclinada para um lado – todo ele parecia uma figura de teatro – como a daqueles cômicos de revista na praça Tiradentes que o imitavam: era a caricatura de si mesmo. Cumprimentaram-se, e a moça foi direta ao assunto, agradecendo a nomeação. O presidente voltou-se para ele:

– Estimo que estejas satisfeito. Já tomaste posse?

– Já – e, irresistível, só lhe vinha como resposta a lembrança de uma das anedotas a ele atribuídas. – Mas ainda não recebi os atrasados.

O presidente meneava a cabeça, ar complacente, como quem concorda sem prestar atenção. Mais algumas palavras de cortesia trocadas com a moça e se despediu, desaparecendo atrás da cortina. O rapaz estava perplexo: a audiência não durara três minutos. Desde então, nunca mais o viu.

E até hoje não entendeu por que ele fez questão de mandar buscá-lo.

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