Visita de amigo moribundo – Gilberto Freyre

Quem conta é o sociólogo Renato Campos. O professor Renato Campos é diretor — repita-se — da divisão de sociologia do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais. Um dos mais notáveis sociólogos brasileiros dentre os mais jovens.

O fato por ele narrado, colheu-o de fonte idônea e de pessoa antiga. É o seguinte, tanto quanto possível, nas palavras do narrador:

Dois rapazes, estudantes no Recife, moravam juntos, em Olinda. Chamemos a um Antônio, a outro, José. Havia entre eles a combinação de que, o que chegasse muito tarde, saltasse para dentro do quarto, por uma janela entreaberta, a fim do já ferrado no sono não ter que levantar-se para abrir a porta. Segredo conhecido de outros colegas seus.

Certa noite, Antônio, já deitado, viu José saltar pela janela e passar por debaixo de sua rede. Não se preocupou com o fato: era com certeza José. Rotina. Pura rotina.

Apenas não era José. José apareceu no dia seguinte. Explicou ao companheiro que na noite anterior fora a uma dança no Recife, ficara dançando até quase de manhã e dormira no Recife, na casa de um amigo.
Antônio assombrou-se. Se não fora José, que vulto fora o que ele vira saltar pela janela e passar debaixo de sua rede? Mistério.

Mistério que no mesmo dia se explicaria. Explicação estranha, porém. A Antônio chegou um apelo de um dos seus melhores amigos para que o fosse ver no Hospital Pedro II: estava à morte.
O estudante apressou-se em ir ver o colega querido. Estava realmente nas últimas. Moribundo no velho hospital do Recife.

Ao ver Antônio, animou-se, para surpresa de todos, tal a prostração em que se achava desde o dia anterior: já muito mais morto do que vivo. “Você, Antônio? Que alegria você me dá! Ontem fui à noite a Olinda despedir-me de você!”

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