Eca! – Crônica de Luis Fernando Veríssimo

By | 24/04/2014

Um hipotético visitante extraterreno teria dificuldade em acompanhar uma refeição da nossa espécie sem ter ânsias de vômito. Sendo um ser hipoteticamente perfeito, que só se alimenta de um límpido líquido azul, nosso visitante não entenderia como os alemães conseguem comer repolhos azedos com tanta alegria e por que os americanos chamam o pepino estragado de “pickle” e o comem com tudo e os franceses esperam o peixe apodrecer antes de comê-lo, enquanto os japoneses nem esperam ele morrer. E todos se entusiasmam com um fungo de má aparência chamado “champignon” e entram em êxtase com outro ainda mais feio chamado “trufa”, que é encontrado embaixo da terra por porcas no cio. Aliás, nosso ET se engasgaria só de pensar em tudo que fazemos com os porcos, inclusive comê-los.

Mas o que certamente faria nosso visitante correr para o banheiro seria descobrir que os terrenos espremem um líquido branco e gorduroso das glândulas mamárias de um animal chamado “vaca” – e o bebem! Depois de reanimado, o extraterreno talvez gostasse de ouvir, já que se espanta tanto com os nossos hábitos exóticos, que a vaca é um animal sagrado, e, portanto, intocável, na Índia, um país em que se morre de fome. E que não apenas a vaca é sagrada, na Índia, como suas pegadas são sagradas e, de acordo com a teologia hindu, 330 milhões de deuses vivem dentro de cada animal, e que, portanto, matar uma vaca significaria um verdadeiro teocídio. Mas que nada disto é tão estranho quanto parece: numa terra superpopulosa como a Índia, a criação de gado para corte e consumo humano é indefensável. Quando se come animais que são alimentados com grãos, nove de dez calorias e quatro de cinco gramas de proteínas são perdidas. O animal usa a maior parte dos nutrientes que poderiam ser destinados ao homem. No caso, um mito religioso está a serviço de uma racionalidade camuflada.

Convencido de que somos uma raça, no mínimo, contraditória, o ET ainda terá algumas experiências nojentas pela frente. Verá pessoas destrinchando pequenos pássaros fritos com os dentes, pessoas comendo pernas de sapos e – o que contará com mais horror quando voltar para casa – pessoas usando alfinetes para catar o repugnante recheio de lesmas e levá-lo à boca. Lesmas!

Esclarecimento. O Estadão publicou uma declaração minha sobre o Gabriel García Márquez que terminou com uma frase, “Meu pai, Erico Verissimo, foi uma influência”. Assim, resumida, a frase pede um esclarecimento. O Doc Comparato me disse que entrevistou o García Márquez e este lhe contou que tinha lido o primeiro volume de O Tempo e o Vento e sido influenciado pela leitura. Até que ponto, não sei.

Via Estadão

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