Excesso de trabalho – Conto de Nelson Rodrigues

Era um pai muito escrupuloso. Sabendo que a filha estava com um romance, não perdeu tempo: — tratou de saber, direitinho, quem era o namorado. Durante quatro ou cinco dias, andou de baixo para cima, de cima para baixo, fazendo sindicâncias. Aconteceu, sistematicamente, o seguinte: — as pessoas interrogadas sobre os predicados do rapaz diziam… Read More »

Flor de laranjeira – Conto de Nelson Rodrigues

Baixou a voz: — Sabe qual é o golpe? — Qual? E ele, com a boca encostada no seu ouvido: — Você mata o serviço hoje e vamos ao cinema. Topas? Hesitou, numa tentação deliciosa. Antes de capitular, porém, bateu na mesma tecla: — Então jura que não és casado, jura. Recuou, quase ofendido: “Mas… Read More »

O fim de Arsênio Godard – Conto de João do Rio

Do diário íntimo de um revoltoso A Goulart de Andrade. Estava tudo combinado. Era impossível falhar. Quando a lancha partiu, sem rumor, explorando a treva do oceano encapelado, ficamos entretanto nervosos. Seriam muitos? Seria um só? Ah! Se os bandidos fossem apanhados! Os nossos nervos, excedidos já por aqueles três meses de enjaulamento na baía,… Read More »

Um homem feio demais – Crônica de Léo Montenegro

Foi no trem. Um garotinho olhou para o Austrepézio, que segurava o ferro, e comentou com a mãe, em voz alta: – lh, mãe! Espia só como aquele camarada ali é feio pra canudo! Parece até o bicho-papão! Levou o maior cascudo da santa senhora: – Isso é coisa que se diga em voz alta,… Read More »

Nos primeiros começos de Brasília – Crônica de Clarice Lispector

Brasília é construída na linha do horizonte. – Brasília é artificial. Tão artificial como devia ter sido o mundo quando foi criado. Quando o mundo foi criado, foi preciso criar um homem especialmente para aquele mundo. Nós somos todos deformados pela adaptação à liberdade de Deus. Não sabemos como seríamos se tivéssemos sido criados em… Read More »

Taquicardia a dois – Crônica de Clarice Lispector

Estava minha amiga falando comigo ao telefone. Eis senão quando entra-lhe pela sala adentro um passarinho. Minha amiga reconheceu: era um sabiá. A empregada se assustou, minha amiga ficou surpresa. Era preciso que ele achasse o caminho da janela para ir embora e escapar da prisão da sala. Depois de esvoaçar muito, pousou num quadro… Read More »

Dívida extinta – Conto de Machado de Assis

IQue ele era um dos primeiros gamenhos de seu bairro e outros bairros adjacentes, é coisa que não sofre nem sofreu nunca a menor contestação. Podia ter competidores; teve-os; não lhe faltaram invejosos; mas a verdade, como o sol, acabou dissipando as nuvens e mostrando a face rutilante e divina, ou divinamente rutilante, como lhes… Read More »

Um chefe de família – Conto de Nelson Rodrigues

Foi um amigo que chamou sua atenção: — Fulana te dá cada bola tremenda! — Mentira! E o outro veemente: — Palavra de honra! Não tira os olhos de ti! Mas como o amigo fosse quase um débil mental, tido como irresponsável, Anacleto duvidou, ainda: — Estás querendo me pôr máscara! Passou-se, Mas no dia… Read More »

Sórdido – Conto de Nelson Rodrigues

Começa perguntando: — Topas uma farrinha hoje? Do outro lado, Camarinha boceja: — Hoje não posso. Outro dia. E o Nonato: — Escuta, seu zebu. Tem que ser hoje. Vamos hoje. Escuta, Camarinha. Eu acabo de ler o Corção. Deixa eu falar. E quando leio o Corção tenho vontade de fazer bacanais horrendas, bacanais de… Read More »