Pode Acontecer – Luis Fernando Veríssimo

Pode acontecer o seguinte. As revelações sobre o envolvimento de figuras do governo passado em crimes e escândalos chegam a ponto crítico. Civis e militares de graduação inimaginável vêem-se na iminência não de ir para a cadeia, o que contraria os hábitos brasileiros, mas de serem expostos como corruptos, torturadores, etc. O que, sei lá, … Ler mais

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A puberdade abstrata – Crônica de Paulo Mendes Campos

Sempre me encantou a liberdade dos cegos correndo para a morte. Música de redenção cobria-me de emoções praieiras. Flores altas, espontâneas, desmentiam a vida. Ondas que o mar brincava nas rochas informavam o sagrado, aventuras que se desatam de santa rebeldia. Galhos espiralados contra o céu, sabor de terra no meu sangue, tudo subornava em … Ler mais

Ao professor, com pêsames – Crônica de Ivan Lessa

Todos os professores que eu tive desejavam a minha morte. As lembranças que tenho do jardim de infância são vagas: restou apenas uma sensação de ameaça, de medo. Esta, continua nos dois anos seguintes do primário, só que mais nítida. “Eles” já tinham me sacado, haviam percebido o perigo que eu representava, vigiavam-me, apenas não … Ler mais

O homem que calculava – Crônica de Paulo Mendes Campos

Tenho uma casa a meio duma encosta de Petrópolis, perto de Araras. João Saldanha, dado a literaturas russas, diz que se trata duma dacha, o que nos romantiza, mas no fundo é mesmo um barraco bem bolado por Zanine. Entre águas e tons vegetais que vão passando, passo os fins de semana. Numa esperança aquecida, … Ler mais

Você é um número – Crônica de Clarice Lispector

Se você não tomar cuidado vira número até para si mesmo. Porque a partir do instante em que você nasce classificam-no com um número. Sua identidade no Félix Pacheco é um número. O registro civil é um número. Seu título de eleitor é um número. Profissionalmente falando você também é. Para ser motorista, tem carteira … Ler mais

Temas que morrem – Crônica de Clarice Lispector

Sinto em mim que há tantas coisas sobre o que escrever. Por que não? O que me impede? A exiguidade do tema, talvez, que faria com que este se esgotasse em uma palavra, em uma linha. Às vezes é o horror de tocar numa palavra que desencadeia milhares de outras, não desejadas, estas. No entanto, … Ler mais

O gato sou eu – Crônica de Fernando Sabino

Estou falando na individualidade do ser, que se projeta em símbolos oníricos. Dos quais o gato do seu sonho é um perfeito exemplo. E o papel que você atribui ao gato, de fiscalizá-lo o tempo todo, sem tirar os olhos de você, é o mesmo que atribui a mim. Por isso é que eu digo que o gato sou eu.

As outras sepulturas – crônica de Luiz Fernando Veríssimo

Sempre é bom começar citando Hegel. Porque dá uma certa classe ao texto e porque, a partir de Hegel, você pode ir para qualquer lado, para a esquerda e ou para direita. Marx afiou suas teses criticando e às vezes assimilando Hegel, e Hegel, ao mesmo tempo em que sacudia o pensamento conservador europeu, era … Ler mais

O carro, a jardineira, a calçada – Crônica de Carlos Drummond de Andrade

No momento, a situação nas calçadas de Copacabana está mais ou menos refletida neste diálogo de mil vozes: — Ei, tira essa jardineira daí. — Pra botar cano no lugar dela? — Tira também o carro, ué. — Pra botar aonde? Noutra calçada? — Melhor deixar a jardineira e o carro, cada um na sua … Ler mais

Grande Edgar – Crônica de Luis Fernando Verissimo

Já deve ter acontecido com você. — Não está se lembrando de mim? Você não está se lembrando dele. Procura, freneticamente, em todas as fichas armazenadas na memória o rosto dele e o nome correspondente, e não encontra. E não há tempo para procurar no arquivo desativado. Ele esta ali, na sua frente, sorrindo, os … Ler mais

Clic – Crônica de Luis Fernando Verissimo

Cidadão se descuidou e roubaram seu celular. Como era um executivo e não sabia mais viver sem celular, ficou furioso. Deu parte do roubo, depois teve uma idéia. Ligou para o número do telefone. Atendeu uma mulher. — Aloa. — Quem fala? — Com quem quer falar? — O dono desse telefone. — Ele não … Ler mais