Foram proibidas as baianas – Crônica de Paulo Mendes Campos

Foram proibidas as baianas. Certas autoridades parecem estar decididas a tornar esta cidade bela e de vida difícil em uma cidade chata e sem caráter. Uma dessas iniciativas evidentes é a proibição das baianas. Ora, eu não creio que as autoridades sejam propriamente imaginativas. Com a pouca imaginação que Deus me deu, quero dar, portanto, … Ler mais

Deu-se que na semana anterior… – Crônica de Paulo Mendes Campos

Deu-se que na semana anterior eu havia entrado naquele pequeno boteco da estrada de Correias e comprado um pacote de cigarros. Dez carteiras. Comprei, paguei, saí. Não cheguei a notar nem de leve que o meu gesto me fizera conhecido. Dias depois, volto ao botequim. A mocinha, provavelmente filha do vendeiro, e na qual eu … Ler mais

Alice no Rio – Crônica de Paulo Mendes Campos

Um dia, se o coração não espocar antes do tempo, escreverei uma história para crianças: “Alice no País dos Cariocas”. Alice chegará por via aérea e, naturalmente, ficará encantada com a exuberância da paisagem e com os aviões que vão passar tirando finos em seu quadrimotor. No Galeão, será recebida por um representante do Departamento … Ler mais

Guerreiros ilustres – Crônica de Paulo Mendes Campos

Na Academia Brasileira de Letras há um marco. Neste marco, uma inscrição. Nesta inscrição, um verso de Castro Alves, apontado como o mais belo da poesia brasileira. É aquele célebre “Auriverde pendão de minha terra”. Com todas as honras e celebridades, entretanto, é forçoso negar ao decassílabo do poeta baiano estas excelências superlativas. O verso … Ler mais

O pombo enigmático – Paulo Mendes Campos

Na inelutável necessidade do amor (era quase primavera) pombo e pomba marcaram um encontro galante quando voavam e revoavam no azul do Rio de Janeiro. Era bem de manhãzinha. – Às quatro em ponto me casarei contigo no mais alto beiral – disse o pombo. – Candelária? – perguntou a noiva. – Do lado norte … Ler mais

A Cesta – Crônica de Paulo Mendes Campos

Quando a cesta chegou, o dono não estava. Embevecida, a mulher recebeu o presente. Procurou logo o cartão, leu a dedicatória destinada ao marido, uma frase ao mesmo tempo amável e respeitosa. Quem seria? Que amigo seria aquele que estimava tanto o marido dela? Aquele cesta, sem dúvida nenhuma, mesmo a uma olhada de relance, … Ler mais

Descanso de futebol – Crônica de Paulo Mendes Campos

Eu devia ou pelo menos merecia estar aposentado. Mas a ideia sombria da invalidez, e não do ócio com vivacidade, orientou os criadores do instituto de aposentadoria. Deu-se que um dia, há uns três anos, vislumbrei de súbito que uma aposentadoria especial estava ao alcance de minha mão. Foi uma coisa drástica mas lúcida: exonerei-me … Ler mais

Os bares morrem numa quarta feira – Crônica de Paulo Mendes Campos

Um amigo de Kafka conta que este arquitetava o seguinte: um homem desejando criar uma reunião em que as pessoas aparecessem sem ser convidadas. As pessoas poderiam se ver ou conversar sem se conhecerem. Cada uma faria o que lhe aprouvesse sem chatear o próximo. Ninguém se oporia à entrada ou à saída de ninguém. … Ler mais

O Cego de Ipanema- Crônica de Paulo Mendes Campos

Há bastante tempo que não o vejo e me pergunto se terá morrido ou adoecido. É um homem moço e branco. Caminha depressa e ritmado, a cabeça balançando no ato, como um instrumento, a captar os ruídos, os perigos, as ameaças da Terra. Os cegos, habitantes do mundo esquemático, sabem aonde ir, desconhecendo nossas incertezas … Ler mais