Category Archives: Paulo Mendes Campos

Descanso de futebol – Crônica de Paulo Mendes Campos

Eu devia ou pelo menos merecia estar aposentado. Mas a ideia sombria da invalidez, e não do ócio com vivacidade, orientou os criadores do instituto de aposentadoria. Deu-se que um dia, há uns três anos, vislumbrei de súbito que uma aposentadoria especial estava ao alcance de minha mão. Foi uma coisa drástica mas lúcida: exonerei-me… Read More »

Os bares morrem numa quarta feira – Crônica de Paulo Mendes Campos

Um amigo de Kafka conta que este arquitetava o seguinte: um homem desejando criar uma reunião em que as pessoas aparecessem sem ser convidadas. As pessoas poderiam se ver ou conversar sem se conhecerem. Cada uma faria o que lhe aprouvesse sem chatear o próximo. Ninguém se oporia à entrada ou à saída de ninguém.… Read More »

O Cego de Ipanema- Crônica de Paulo Mendes Campos

Há bastante tempo que não o vejo e me pergunto se terá morrido ou adoecido. É um homem moço e branco. Caminha depressa e ritmado, a cabeça balançando no ato, como um instrumento, a captar os ruídos, os perigos, as ameaças da Terra. Os cegos, habitantes do mundo esquemático, sabem aonde ir, desconhecendo nossas incertezas… Read More »

Gente boa e gente inútil – Crônica de Paulo Mendes Campos

Conheci um rapaz que, há uns vinte anos, ganhou uma bolsa para estudar anatomia patológica nos EUA, e nunca mais voltou. Americanizou-se? Encantou-se? Ficou rico? Não, nada disso, mora numa cidadezinha gelada quase na fronteira do Canadá, tem um ordenado que lhe basta apenas para as despesas fundamentais, não se diverte, gasta os dias e boas horas da noite metido num laboratório. Foi incorporado aos pesquisadores de câncer. Notaram-lhe o talento, pediram-lhe que ficasse, ele ficou.

Encontro de dois mentirosos – Crônica de Paulo Mendes Campos

— Oba, como é que é, rapaz, há quanto tempo… — Tudo azul. Você é que anda sumido. — Dando o meu duro. E você? — Duro, graças a Deus, eu não dou mais. — Ficou rico? — Talvez eu não possa dizer tanto; mas tenho ganhado meudinheirinho… bastante dinheiro… muito dinheiro… — Brasília? —… Read More »

A puberdade abstrata – Crônica de Paulo Mendes Campos

Sempre me encantou a liberdade dos cegos correndo para a morte. Música de redenção cobria-me de emoções praieiras. Flores altas, espontâneas, desmentiam a vida. Ondas que o mar brincava nas rochas informavam o sagrado, aventuras que se desatam de santa rebeldia. Galhos espiralados contra o céu, sabor de terra no meu sangue, tudo subornava em… Read More »

O cafajeste e o transcendente – Crônica de Paulo Mendes Campos

O diálogo perene entre o classicismo e o romantismo é substituído na vida literária atual do Brasil pelo desprezo que se votam o cafajeste e o transcendente. Na futura história literária de nossa época, naturalmente, será esquecida a grita que ambos levantam, que foi sempre a história um reduzir de gritos e vaidades à sua… Read More »