Category Archives: Paulo Mendes Campos

Gente boa e gente inútil – Crônica de Paulo Mendes Campos

Conheci um rapaz que, há uns vinte anos, ganhou uma bolsa para estudar anatomia patológica nos EUA, e nunca mais voltou. Americanizou-se? Encantou-se? Ficou rico? Não, nada disso, mora numa cidadezinha gelada quase na fronteira do Canadá, tem um ordenado que lhe basta apenas para as despesas fundamentais, não se diverte, gasta os dias e boas horas da noite metido num laboratório. Foi incorporado aos pesquisadores de câncer. Notaram-lhe o talento, pediram-lhe que ficasse, ele ficou.

Encontro de dois mentirosos – Crônica de Paulo Mendes Campos

— Oba, como é que é, rapaz, há quanto tempo… — Tudo azul. Você é que anda sumido. — Dando o meu duro. E você? — Duro, graças a Deus, eu não dou mais. — Ficou rico? — Talvez eu não possa dizer tanto; mas tenho ganhado meudinheirinho… bastante dinheiro… muito dinheiro… — Brasília? —… Read More »

A puberdade abstrata – Crônica de Paulo Mendes Campos

Sempre me encantou a liberdade dos cegos correndo para a morte. Música de redenção cobria-me de emoções praieiras. Flores altas, espontâneas, desmentiam a vida. Ondas que o mar brincava nas rochas informavam o sagrado, aventuras que se desatam de santa rebeldia. Galhos espiralados contra o céu, sabor de terra no meu sangue, tudo subornava em… Read More »

O cafajeste e o transcendente – Crônica de Paulo Mendes Campos

O diálogo perene entre o classicismo e o romantismo é substituído na vida literária atual do Brasil pelo desprezo que se votam o cafajeste e o transcendente. Na futura história literária de nossa época, naturalmente, será esquecida a grita que ambos levantam, que foi sempre a história um reduzir de gritos e vaidades à sua… Read More »

Definição do rapaz – Crônica de Paulo Mendes Campos

Em 1946, Rubem Braga e eu, então moradores de uma casa à rua Júlio de Castilhos, resolvemos estudar inglês. Um anúncio de jornal nos fez decidir sobre o professor. Nós lhe telefonamos, ele veio, combinou-se o preço, aulas três vezes por semana. Tratava-se de um inglês alto, de testa estreita, cinquentão. As aulas, às oito… Read More »

Réquiem para os bares mortos – Crônica de Paulo Mendes Campos

Me perdia muito pelas grutas sombrias dos bares. À noite, conchas iluminadas, a ressoar em profundezas submarinas. Hoje sou um homem derramado. Fugindo à tempestade, entrei uma vez no Nacional, e lá se erguia – portentosa figura – um velho, alto e cavo, a recitar os sonetos de Mallarmé. Foi uma visão dura, hermética, definitiva.… Read More »

A aurora – Crônica de Paulo Mendes Campos

A aurora chegou vestida de cor-de-rosa, passou pela vidraça, passou através de minhas pálpebras, acordou meus olhos. Mas não me acordou a alma, que ficou dorme-dormindo, boba e semi-iluminada. Depois ela, a aurora, foi esvoaçar sobre os telhados, e era como se aquilo estivesse acontecendo no passado. Meus olhos ficaram expiando aquela aurora doida que… Read More »