Viúva Loura – Carlos Drummond de Andrade

By | 09/12/2014

– “Viúva, 21 anos…”

– Tadinha. A vida é isso.

– “Loura…”

– Melhorou.

– “Fazendeira, rica…”

– Epa, muda completamente de figura.

– “Pertencente a tradicional família mineira…”

– Corta essa!

– “Recém-chegada do interior…”

– Então, não custa sondar a barra.

– “Procura companhia masculina…”

– Ainda bem que é masculina. Tou às ordens.

– “Que seja jovem…”

– Você acha que 38 anos está na pauta?

– “Bem intencionado…”

– Nunca fui outra coisa na vida.

– “De fino trato…”

– Não é por me gabar, mas…

– “Conhecedor dos pontos pitorescos do Rio…”

– Que é que ela entende por pontos pitorescos? Eu prefiro pontos estratégicos.

– “Para passeios e …”

– Etc., lógico.

– “Futuro compromisso matrimonial…”

– Corta! Corta!

– É mesmo.

– Aliás, eu não tenho mais de 38. Tinha, semana passada.

– E rica… Rica de que? Talvez de predicados apenas.

– Poxa, até parece que você está querendo a viúva pro seu bico. Pera aí, mau- caráter.

– Eu? Vê lá se eu vou nessa onda de anúncio. Tou prevenindo pra você não se grilar. Viúva, mineira, loura… Se é mineira, não deve ser loura. Se é loura. É artificial. Se é artificial…

– Deixa a viuvinha ser loura e mineira, deixa.

– Olha, eu conheci uma loura que, além de outros negativos, era careca.

– Ora, peruca resolve.

– Sei não, mas tudo isso junto- mineira, viúva, loura, 21 anos, rica…

– Que é que tem?

– É exagero. Não precisava Ter tantas qualidades.

– Foi uma graça de Deus.

– Você não merece tanto.

– Será outra graça de Deus.

– Deus não deve ser assim tão desperdiçado com suas graças.

– Lá vem você querendo dar instruções ao Altíssimo. Perde essa mania.

– Bom, mas você não sabe que mineiro esconde milho até de monjolo?

– Continua.

– “Cartas com sigilo absoluto…”

– Evidente.

– “Indicações pessoais…”

– Minha ficha é mais limpa do que caixa d’água de edifício quanto o síndico vai ao terraço.

– “E fotos…”

– Arrgh! Só tenho 3×4, muito fajuta. Mas tiro de calção, frente, perfil e fundos.

– “Para a portaria desse jornal, sob n° 019 834.”

– Pera aí. Tou anotando. 019?

– 834.

– Legal. 834 é o número de meu edifício, 19 é pavão, que tem a perna dourada. Lê mais.

– Já li tudo, ué.

– Lê outra vez. Repete.

– Vai decorar?

– Vou gravar melhor na nuca, vou raciocinar em bloco, vou…

– Se habilitar, né?

– Correto.

– Calma, rapaz. Sabe lá que espécie de viúva é essa?

– Vou ver pra conferir.

– Pode nem ser viúva.

– E daí?

– Diz que tem 21 anos, mas quem garante que não é modéstia? Às vezes tem três vezes 21.

– Então você admite que ela é mineira.

– E que cria galinha sem ração, na base da parapsicologia?

– Também sou mineiro, uai.

– E nunca me confessou. Eu jurava que você fosse capixaba.

– Fui. Questão de limites, minha terra passou pra banda de cá. Não espalha, sim?

– Me tapeou esse tempo todo.

– Esquece.

– Vai ser dura a parada: mineira loura versus mineiro mascarado.

– Fica em família, né?

– A tradicional?

– As duas. Eu na minha, ela na dela.

– Agora sou eu que digo: tadinha.

– Por quê? Se ela botou anúncio, quer transar. Eu transo. No figurino.

– É verdade que tem muito carioca por aí, muito paulista, muito nortista, espiando maré. Talvez você chegue tarde.

– Duvido. Você sabe que nessas coisas sou meio Fittipaldi. Comigo é Fórmula-1.

– Mineiro contando prosa? Nunca vi isso.

– Bem, mineiro é capaz de contar prosa só pra esconder que é mineiro…

– Chega, amizade, você já ganhou a viuvinha com fazenda e tudo, podes crer!

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