Mefistófeles – Conto de Eça de Queiroz

No Fausto de Charles Gounod a figura dramática e sintética é Mefistófeles. Em volta dele, Fausto canta artificialmente como um lírico histrião de óperas; Margarida sente as primeiras rebeliões nervosas do desejo; Siebel estremece com a nascente seiva do amor, como o antigo Querubim; os batalhões góticos têm instrumentações triunfantes; a alma legendária do rei … Ler mais

Onfália Benoiton – Conto de Eça de Queiroz

Quem se lembra hoje da história de Onfália Benoiton, uma mulher nervosa, e de Estevão Basco, um homem vencido e esquecido, e que todavia foi um homem? As canas que contam essa história de martírios reais e de falsas glorificações, tenho eu a alegria mefistofélica e bárbara de as copiar aqui. A primeira carta assinada … Ler mais

O Miantonomah – Conto de Eça de Queiroz

Há duzentos anos uns poucos de calvinistas exilados fretaram um barco na Holanda úmida e úbere, e sob o equinócio e os grandes ventos, miseráveis, austeros, levando uma Bíblia, partiram para as bandas da América. Duzentos anos depois, estes homens que tinham ido solitários, num barco apodrecido das maresias, derramaram uma esquadra épica pelo mediterrâneo, … Ler mais

Misticismo humorístico – Conto de Eça de Queiroz

Voltei. É agora que as toutinegras emigram. Andei pelos campos neste ar desfalecido do Inverno outonal. Agora o azul está indolentemente belo. Tem quase uma irônica serenidade. E o azul intenso, frio, triunfante. Tem a luz, a beleza, a força, a inefabilidade. Agora a luz enternecida dos campos arrasta-se pelas grandes águas quietas e pálidas, … Ler mais

A Ladainha da dor – Conto de Eça de Queiroz

(Ao Sr. A. A. Teixeira de Vasconcelos) O músico Berlioz ao voltar das bandas moles da Itália e das ilhas da Grécia de lívidos escarpamentos sem serenidades idílicas e sem mirtos — recebeu nas ruínas das Sorveiras, junto de Nizza, onde trabalhava na sua sinfonia de “Harold” toda cheia de mar, esta carta vinda de … Ler mais

O Tesouro – Eça de Queirós

I Os três irmãos de Medranhos, Rui, Guanes e Rostabal, eram então, em todo o Reino das Astúrias, os fidalgos mais famintos e os mais remendados. Nos Paços de Medranhos, a que o vento da serra levara vidraça e telha, passavam eles as tardes desse Inverno, engelhados nos seus pelotes de camelão, batendo as solas … Ler mais

Um poeta lírico – Eça de Queiróz

Aqui está, simplesmente, sem frases e sem ornatos, a história triste do poeta Korriscosso. De todos os poetas líricos de que tenho notícia, é este, certamente, o mais infeliz. Conheci-o em Londres, no hotel de Charing Cross, uma madrugada regelada de Dezembro. Tinha eu chegado do continente, prostrado por duas horas de canal da Mancha…. … Ler mais

O Senhor Diabo – Conto de Eça de Queirós

Como está provado que sou redondamente inapto para escrever Revistas, dizer finamente das Modas, e falar da literatura contemporânea herdeira honesta do defunto sr. Prudhomme, é justo, ao menos, que de vez em quando conte uma história amorosa, uma daquelas historias femininas e macias, que nos serões de Trieste faziam adormecer nas suas cadeiras douradas … Ler mais

A multa municipal para o lirismo sentimental – Eça de Queirós

No folhetim do Diário Popular de 24 de Junho lêem-se notáveis considerações de ordem moral. São em verso. O poeta dirige-se, na sua declamação solitária, a uma mulher. Numa prosa anterior (prelúdio) escreve que a missão da arte é ensinar a amar (!) — e que na arte não entra realidade, justiça ou moral pública … Ler mais

Singularidades de uma rapariga loura – Conto de Eça de Queirós

Devo contar que conheci este homem numa estalagem do Minho. Era alto e grosso: tinha uma calva larga, luzidia e lisa, com repas brancas que se lhe eriçavam em redor: e os seus olhos pretos, com a pele em roda engelhada e amarelada, e olheiras papudas, tinham uma singular clareza e rectidão — por trás dos seus óculos redondos com aros de tartaruga. Tinha a barba rapada, o queixo saliente e resoluto.

Memórias de uma Forca – Conto de Eça de Queirós

Foi por um modo sobrenatural que eu tive conhecimento deste papel, onde uma pobre forca apodrecida e negra dizia alguma coisa da sua história. Esta forca intentava escrever as suas trágicas Memórias. Deviam ser profundos documentos sobre a vida. Árvore, ninguém sabia tão bem o mistério da natureza; forca, ninguém conhecia melhor o homem. Nenhum … Ler mais