Gestalt – Conto de Hilda Hilst

Absorto, centrado no nó das trigonometrias, meditando múltiplos quadriláteros, centrado ele mesmo no quadrado do quarto, as superfícies de cal, os triângulos de acrílico, suspensos no espaço por uns fios finos os polígonos, Isaiah o matemático, sobrolho peluginoso, inquietou-se quando descobriu o porco. Escuro, mole, seu liso, nas coxas diminutos enrugados, existindo aos roncos, e … Ler mais

Poemas aos Homens do nosso tempo – Hilda Hilst

Amada vida, minha morte demora. Dizer que coisa ao homem, Propor que viagem? Reis, ministros E todos vós, políticos, Que palavra além de ouro e treva Fica em vossos ouvidos? Além de vossa RAPACIDADE O que sabeis Da alma dos homens? Ouro, conquista, lucro, logro E os nossos ossos E o sangue das gentes E … Ler mais

Prelúdios-intensos para os desmemoriados do amor – Poema de Hilda Hilst

I Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca Austera. Toma-me AGORA, ANTES Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes Da morte, amor, da minha morte, toma-me Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute Em cadência minha escura agonia. Tempo do corpo este tempo, da fome Do de dentro. Corpo … Ler mais

Drida, a maga perversa e fria – Poema de Hilda Hilst

Pairava sobre as casas Defecava ratas Andava pelas vias Espalhando baratas Assim era Drida A maga perversa e fria. Rabiscava a cada dia o seu diário. Eis que na primeira página se lia: Enforquei com a minha trança O velho Jeremias. E enforcado e de mastruço duro Fiz com que a velha Inácia Sentasse o … Ler mais

Delicatessen – Hilda Hilst

Você nunca conhece realmente as pessoas. O ser humano é mesmo o mais imprevisível dos animais. Das criaturas. Vá lá. Gosto de voltar a este tema. Outro dia apareceu uma moça aqui. Esguia, graciosa, pedindo que eu autografasse meu livro de poesia, “tá quentinho, comprei agora”. Conversamos uns quinze minutos, era a hora do almoço, … Ler mais

Ária amaríssima de um instante – Hilda Hilst

Ária Amaríssima de um instante SOBRE mim o sudário das coisas. Brandura extensa Camada-transparência sobre as gentes. Vê só: Eu não te olho com o teu olho que sabe Que quase tudo em ti é transitório. Meu olho-liquidez Descobre uma tarde esvaída, tarde-madrugada Tempo alongado onde te fizeste em viuvez. Não perdeste a mulher ou … Ler mais

Poema V – Hilda Hilst

A Federico García Lorca Companheiro, morto desassombrado, rosácea ensolarada quem senão eu, te cantará primeiro. Quem senão eu pontilhada de chagas, eu que tanto te amei, eu que bebi na tua boca a fúria de umas águas eu, que mastiguei tuas conquistas e que depois chorei porque dizias: “amor de mis entrañas, viva muerte”. Ah! … Ler mais

Venho de Tempos Antigos – Poema de Hilda Hilst

Deus pode ser a grande noite escura E de sobremesa O flambante sorvete de cereja. Deus: Uma superfície de gelo ancorada no riso. Venho de tempos antigos. Nomes extensos: Vaz Cardoso, Almeida Prado Dubayelle Hilst… eventos. Venho de tuas raízes, sopros de ti. E amo-te lassa agora, sangue, vinho Taças irreais corroídas de tempo. Amo-te … Ler mais

A rainha careca – Hilda Hilst

De cabeleira farta de rígidas ombreiras de elegante beca Ula era casta Porque de passarinha Era careca. À noite alisava O monte lisinho Co’a lupa procurava Um tênue fiozinho Que há tempos avistara. Ó céus! Exclamava. Por que me fizeram Tão farta de cabelos Tão careca nos meios? E chorava. Um dia… Passou pelo reino … Ler mais