Incorpóreo – Conto de Rubem Fonseca

By | 10/11/2021

Ser milionário tem as suas vantagens. A principal é poder satisfazer seus desejos, suas aspirações, suas vontades. Sou um milionário, não pertenço à petite bourgeoisie, classe social que, segundo Karl Marx e os teóricos marxistas, incluía comerciantes e profissionais liberais. A pequena burguesia é diferente da classe capitalista. E a classe capitalista tem vários níveis. Pertenço ao nível mais elevado da classe capitalista, tenho tudo, posso comprar tudo.

Eu estava pensando nessa minha capacidade quando o doutor Everaldo apareceu. Como sempre ele tinha aquilo em volta do pescoço — nunca me lembro do nome dessa coisa.

“Tudo bem?”, ele perguntou.

“Tudo bem”, respondi. “Estou pensando em comprar uma pirâmide.” “Pirâmide?”

“Sim, uma pirâmide. Daquelas que tem no Egito. Um daqueles monumentos de alvenaria, com uma base quadrada e quatro faces retangulares que convergem para um vértice.”

“Interessante”, disse o doutor Everaldo.

“Algumas pirâmides têm os vértices forjados em ouro.” “Interessante”, disse o doutor Everaldo.

“Devido ao alto grau de complexidade arquitetônica, aos esforços empregados em suas construções, e a sua notável beleza, as pirâmides são culturalmente associadas ao misticismo, sendo a fonte de muitas hipóteses e lendas acerca dos mistérios de sua construção e sua finalidade.”

“Interessante”, disse o doutor Everaldo.

“As pirâmides têm uma estrutura subterrânea complexa, composta de corredores e salas. A sala funerária é escavada no solo. Depois da vigésima dinastia, as pirâmides entraram na sua fase clássica com a construção da ampla necrópole de Gizé. Primeiramente, os egípcios escavavam um enorme complexo subterrâneo e depois construíam a gigante estrutura exterior da pirâmide. Li isso num livro sobre o Egito e decorei. Tenho uma memória muito boa.”

“Interessante”, disse o doutor Everaldo.

“A pirâmide que eu vou comprar é essa de Gizé.” “Interessante”, disse o doutor Everaldo.

“A palavra ‘pirâmide’ não vem da língua egípcia. Formou-se a partir do grego: pyra, que quer dizer fogo, luz, símbolo, e midos, que significa medidas.”

“Interessante”, disse o doutor Everaldo. “Eu tenho esta foto da pirâmide de Gizé.” “Interessante”, disse o doutor Everaldo.

“Para os egípcios, a pirâmide representava os raios do Sol, brilhando em direção à Terra. Todas as pirâmides do Egito foram construídas na margem oeste do Nilo, na direção do sol poente. Os egípcios acreditavam que, enterrando seu rei numa pirâmide, ele se elevaria e se juntaria ao Sol, tomando o seu lugar de direito com os deuses.”

“Interessante”, disse o doutor Everaldo. “As pirâmides…”

“Depois o senhor pode me dar mais informações sobre as pirâmides. Agora está na hora do seu tratamento. Quero lhe dizer uma coisa: eu gostaria de ter uma memória boa como a sua. Está na hora do senhor tomar os seus remédios.”

O doutor Everaldo sempre me dava remédios, lembro de alguns nomes, Haldol, Rohypnol, Prometazina… Eu gostava desses remédios.

Depois, o doutor Everaldo me colocou numa cama, mediu minha pressão cardíaca, me anestesiou com Brevital. Em seguida colocou uns fios e uma chapa na minha cabeça e enfiou na minha boca um pequeno rolo de plástico para eu morder na hora do choque. Então iniciou o estímulo elétrico. Eu fazia isso duas vezes por mês.

Depois eu me sentia muito bem, como se tivesse tomado sorvete de manga. Eu adoro sorvete de manga.

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