No “mafuá” dos padres – Crônica de Lima Barreto

By | 28/04/2021

O meu amigo doutor João Ribeiro ainda não me pôde explicar o que quer dizer “mafuá”. Apesar disso, eu, pela boca do povo, sei que, mais ou menos, tal termo exprime uma barafunda de homens e mulheres de todas as condições.

Não quero contribuir para o dicionário de brasileirismos da Academia; mas o que aprendo ensino.

Ouvi esse termo de “mafuá” no Engenho de Dentro, para designar umas barraquinhas que os padres tinham lá feitas. Era, como lá diziam, o “mafuá” dos padres. Eles fazem um leilão de prendas, por intermédio de moças mais ou menos decotadas.

Aprecio o aspecto e, domingo último, com o meu amigo Modestino Canto, escultor e laureado, fomos até lá. Havia, como já disse, um leilão de prendas e numa das barracas estava em leilão um carneiro.

Surgiram logo como disputantes o Oscar Saião, soldado de linha de tiro, e o João do Norte, alferes de polícia. Ambos queriam dar o carneiro à crioula Candinha, que não se importava com nenhum deles, mas tinha um grande interesse pelo carneiro.

Saião grita:

– Dou mil e quinhentos.

Logo João do Norte berra:

– Ofereço mil e setecentos.

A disputa ia assim, quando aparece o Raul Soares, reservista naval, e dá um lance maior:

– Levo por dois mil-réis.

Todos ficaram atônitos, inclusive a Candinha, que logo se embeiçou pelo reservista, vendo a sua liberalidade. Entretanto, estava ela enganada, porquanto, dentro em pouco, chegava o voluntário de manobras Kalógeras e cobria o preço do reservista naval Raul Soares:

– O carneiro me fica por dois mil e quinhentos.

Foi o diabo por aí, porquanto Candinha ficou logo apaixonada pelo voluntário de manobras.

O fato é que se engalfinharam e foi preciso a presença do almirante Epitácio, sendo os feridos pensados anteriormente pelo doutor Ângelo Tavares, clínico muito conhecido no Méier.

O delegado não prendeu Candinha; mas examinou o carneiro. Era falso e só dizia – “mé” – porque tinha uma gaita no bucho.

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