O Piano no Porão – Crônica de Fernando Sabino

By | 18/04/2022

Eu era menino ainda quando o piano velho foi removido para o porão, cedendo lugar ao novo que meu pai comprara para minha irmã Luisa, excelente pianista. Por que não venderam o outro logo, não sei dizer; minha mãe talvez se impressionasse com a leitura de um conto de Aníbal Machado, uma de suas histórias prediletas, que narra as agruras de uma família tentando desfazer-se de um piano velho como o nosso.

E no porão ele ficou, para tornar-se minha exclusiva propriedade: esgotado o repertório de brincadeiras no fundo do quintal, ou por esquivança à companhia de outros meninos, ia sentar-me diante de suas teclas e ficava brincando sozinho de fazer ruído com notas desafinadas.

Tanto bastou para que suspeitassem em mim uma vocação musical. Suspeita bastante equívoca, de resto; poderiam ter suspeitado igual vocação para a brincadeira, para o ruído ou para a solidão. Então me fizeram aluno de dona Abília, professora de piano. Ao fim de uma semana fugi para sempre ao suplício das aulas, depois de corresponder em precocidade ao que ela esperava de mim: aprendi a tocar “Linda borboleta” com as duas mãos e mais de uma vez beijei a netinha dela num canto escuro da varanda.

Um dia o piano velho desapareceu do porão, e me tornei homem, deixando para trás minhas secretas aptidões musicais.

Mas a ideia de aprender a tocar sempre me acompanhou. E se tornou mesmo uma constante de minha prosápia, quando o assunto era abordado numa roda de amigos e eu declarava, como que casualmente, que “sempre tive certo jeito”, era uma pena que não me houvesse dedicado.

“Pois então que se dedique!” – era o que parecia dizer o olhar de minha filha, anos mais tarde, estendendo-me a chave amarrada com um lacinho de fita – chave de um piano autêntico, embora usado, que me aguardava na outra sala, e que me haviam comprado para uma comovente surpresa de aniversário.

Quando, tempos depois, tive de desfazer-me dele, não me restou sequer o consolo de ter desvendado o mais elementar de seus segredos, qual fosse o misterioso caminho que meus dedos deveriam percorrer em suas teclas para delas extrair ao menos as notas de “Linda borboleta”, para sempre esquecida.

Minha pretensa vocação musical, trazida da infância como um complexo, com o tempo já se achava um pouco comprometida pela confirmação melancólica de que papagaio velho não aprende a falar, que dirá tocar piano. Ainda assim, acabei um dia esvaziando o pé-de-meia e comprando outro, insuflado pelo ensinamento de Platão, que adaptei às exigências de minha duvidosa inclinação musical: só se aprende a tocar, tocando. E me entreguei à competência de um professor que resolvi contratar.

Fui, todavia, levado a suspender as aulas, ao saber que a intenção do eficiente mestre era a de me fazer ao fim de um ano estar tocando Mendelssohn. Ora, jamais na minha vida pretendi tocar Mendelssohn, mas somente arranhar uma musiquinha de jazz tradicional, para deleite apenas de meus ouvidos e a tolerância masoquista dos vizinhos. E como mesmo tão modesta pretensão faz com que o piano continue sorrindo com todas as teclas ao atropelo simiesco de meus dedos, resolvo abandoná-lo e me recolher à insignificância das minhas desafinadas horas de lazer.

Até que um dia, à falta de melhor proveito, antes que o atirem ao mar como o de Aníbal Machado, o piano seja recolhido a um porão, para que os dedos de um menino possam descobrir nas suas velhas teclas uma vocação de pianista capaz de redimir esta frustração do pai.

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