Atenção à espionagem – Artigo de João Ubaldo Ribeiro

By | September 29, 2013

Fonte: Estadão

Enganam-se os que acham que, assim como nos faltam natais nevados, ondas havaianas, uma língua mais moderna e tantas outras benesses que a Natureza e a História nos negaram, também somos pobres em episódios de espionagem. Manda a honestidade reconhecer que não temos nenhum James Bond, embora advirta a verdade, irmã da honestidade, que os ingleses também não, ainda mais com aquela estampa de Sean Connery e saindo do mar numa roupa de mergulho que, despida, revela por baixo um smoking impecável. É, não temos, do mesmo jeito que não temos filmes com Jeffrey Hunter, em que ele, armado apenas de um fuzil-metralhadora (que só tinha a vantagem de nunca precisar ser recarregado), tomava sozinho uma ilha do Pacífico, mais cheia de japoneses que a fila do Louvre. Ou Audie Murphy, encarapitado na torre de um tanque Sherman, destroçando oito divisões Panzer da Wehrmacht e tomando de volta a Ucrânia, ou a Polônia, ou ambas, bons tempos.

Mas, perdão, digressiono, são coisas de velho, é a nostalgia. Referia-me à espionagem, que agora tanta discussão provoca e fez com que a presidente da República cancelasse uma visita oficial ao presidente do país espião. Eu não sabia que esse problema da espionagem, suscitado pela revelação (recuso-me a usar a palavra “descoberta”, neste caso) de que agências americanas nos espionam, era tão importante para o destino brasileiro, a ponto de receber atenção prioritária. Pensei que outras coisas eram bem mais relevantes, como o abandono de obras públicas que todo dia é noticiado, os leilões e licitações fracassados ou semifracassados, o descalabro da infraestrutura, a violência, a corrupção, a ineficiência – enfim, a problemática toda que está aí, até hoje à espera de solucionática e não de propagandática.

Não posso crer que essa atenção toda à espionagem se deva, como já vi sugerido por maldosos, a um esforço para desviar a atenção da mencionada problemática. Governo não é Estado, nem Estado é Governo e, como sabemos, tanto o povo quanto o próprio governo agem de acordo com esta sagrada e fundamental distinção. Deve ser alguma coisa mais funda, a requerer uma abordagem histórica, com toques antropológicos e sociológicos. Pode ser ainda alguma coisa relacionada com o nosso inconsciente coletivo, que, num desses mistérios só acessíveis aos cientistas da mente, lembra a ocorrência de certos eventos cruciais, mas reprime essa lembrança sabe-se lá por quê.

A verdade é que, na época da Segunda Guerra, pelo menos, a espionagem comeu solta no Brasil. Suspeito eu que envolveu tanta gente que é por isso que o inconsciente coletivo não quer saber dela, embora não lhe seja indiferente. Os mais velhos falavam sempre em Salustiano, que teve de se foragir de Itaparica devido a um episódio de espionagem, sucedido quando morava na ilha um casal muito louro e branco, desses que parecem ter sido vítimas de descascamento. Depois se descobriu que não era um casal de alemães, mas de um tipo de gringo que só se parecia com eles pelo descascamento e pela fala, que dava a entender que estavam sempre com vontade de cuspir. Mas, na ocasião, por falta de nacionalidade mais conhecida, eles viraram alemães.

Eram gente boa e dona Alemoa, como ela ficou conhecida, vivia sorridentezinha, tinha as carninhas rechonchudinhas, as maçãzinhas do rostinho rosadinhas, as pernoquinhas bem torneadinhas e o traseirinho ajeitadinho, o que todo mundo notava, mas ninguém comentava, por uma questão de respeito. Nunca deixava a ilha, o que apenas o marido fazia, mais ou menos a cada duas semanas, para pegar correspondência, cuidar dos negócios e recarregar as baterias que alimentavam o rádio em que escutava notícias da terra dele.

A perdição foi justamente esse rádio. O Brasil tinha entrado na guerra e, em Salvador, a coisa estava séria, faziam-se blecautes e mantinha-se a guarda contra o inimigo teutão. Todo mundo na ilha sabia que seu Alemão e dona Alemoa não eram alemães de verdade, mas gringo é gringo e branco descascado é branco descascado, de forma que aquele aparelho radiofônico bem que podia ser espionagem, se bem que o alemão e a alemoa sempre convidassem a todos para ouvir também, só que ninguém ia, porque não se entendia a língua. Coincidiu isso com o grande patriotismo que surgiu no peito de Salustiano, quando ele ouviu essa história, uma coisa bonita de se ver mesmo. Ele resolveu se sacrificar pela pátria e espionar o espião. E, dito e feito, era o alemão viajar, era Salustiano ir para a casa dele, ver se a alemoa não estava espionando. Virou costume, Salustiano sempre foi muito aplicado e estava mesmo muito patriótico. E a alemoa todo mundo sabia que era uma pessoa hospitaleira.

Ia a coisa nesse pé, com Salustiano, sempre que o alemão viajava, se sacrificando pela pátria e praticando a contraespionagem com a alemoa toda noite, até que, certa feita, o alemão chegou no meio da noite e o que se ouviu dentro da casa dele foi um barulhão, uma gritaria e Salustiano, arrepanhando as fraldas da camisa e segurando o suspensório com o queixo, pulou o murinho do jardim e gritou: “É o espião! Peguei ele espionando! Segura o espião!” .

Nessa hora, alguns seguraram por levarem em conta que se tratava de um compatriota contra um estrangeiro, naqueles tempos duros de guerra, outros não entenderam direito e seguraram por via das dúvidas. No final, Salustiano, que muitos anos depois, cinicamente, admitiu que a única coisa que o alemão espionou foi aquele flagra, conseguiu escapar da ira marital para foragir-se com uns parentes em Alagoinhas. Por aí vocês veem como a espionagem pode render, e tem rendido, graves problemas em nossa história. Vamos torcer para que nosso governo continue a agir com firmeza, ponha o governo americano contra a parede e o obrigue a ter transparência na atividade de espionagem.

 



 

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