Festa de cabeças cortadas – Crônica de Nelson Rodrigues

Graças ao Dumas pai, eu e o José Lino Grünewald somos íntimos da Revolução Francesa. Falo da primeira, da autêntica e não da atual. A atual tem um defeito indesculpável: — falta-lhe sangue e, repito, o sangue não jorra como a água dos tritões de chafariz. E, como não há marias antonietas, nem cabeças cortadas, … Ler mais

Aos beijos e soluços – Crônica de Nelson Rodrigues

Aqui mesmo, se não me engano, escrevi sobre a religiosidade profunda do Brasil. Examinem todos e cada um. O brasileiro, inclusive o nosso ateu, é um homem de fé. Conheço vários marxistas que são, ao mesmo tempo, macumbeiros. E um povo que pode conciliar Marx e Exu está salvo e, repito, automaticamente salvo. Imaginem vocês … Ler mais

O cachorro atropelado – Crônica de Nelson Rodrigues

Lembro-me de uma crônica que li não sei onde, nem sei quando. Escapa-me também o nome do autor. Se não me engano, era brasileiro. Não, não era brasileiro. E o assunto era a influência da distância nas leis da emoção. Vejamos o que dizia o cronista. Dizia que um atropelamento de cachorro na nossa porta, … Ler mais

Assassinar o gesto de amor – Crônica de Nelson Rodrigues

Sou um homem que não dorme sentado. Quando viajo de noite para São Paulo, todos os outros passageiros dormem, menos eu e o chofer. E, se a viagem para São Paulo (que é, realmente, a viagem para a solidão) durar as Mil e Uma Noites, eu não dormirei um minuto. Dirão vocês que a Cometa … Ler mais

Os Dráculas – Crônica de Nelson Rodrigues

Quero crer que certas épocas são doentes mentais. Por exemplo: — a nossa. Ainda anteontem, falei da ideia inusitada de d. Hélder. O nosso querido arcebispo propõe uma missa cômica (se duvidarem, leiam a última edição dominical de O Jornal). Por trás de suas palavras, sentimos o tédio cruel de uma missa que se repete, … Ler mais

O menino Kennedy – Crônica de Nelson Rodrigues

Vocês devem estar lembrados. Era um dia como outro qualquer, ou por outra, não era um dia como outro qualquer. E repito: — era um dia dramatizado pela greve do rádio e da televisão. Dirá alguém que os jornais circulavam. Mas o tempo da imprensa é um e outro o das câmeras e microfones. Em … Ler mais

A fotografia do ódio – Crônica de Nelson Rodrigues

É uma fotografia de Manchete, e com a agravante: — colorida. Lá está o sangue coagulado. O olho enorme, que ninguém fechou; e os intestinos escorrendo, no seu puro escarlate; e as mãos entrevadas pela morte. Morreu, não há dúvida, morreu. E odeia. Morreu com esgar de ódio, com a boca aberta em grito. Nem … Ler mais

Terreno baldio – Crônica de Nelson Rodrigues

Ah, como é falsa a entrevista verdadeira! Não sei se me entendem. Eis o que eu queria dizer: — trabalho em jornal desde os treze anos e tenho 55 anos. Façam as contas. São 42 anos. Depois de 42 anos de redação, o sujeito acumulou uma experiência em nada inferior às obras completas de William … Ler mais

Os idiotas da objetividade – Crônica de Nelson Rodrigues

Sou da imprensa anterior ao copy desk. Tinha treze anos quando me iniciei no jornal, como repórter de polícia. Na redação não havia nada da aridez atual e pelo contrário: — era uma cova de delícias. O sujeito ganhava mal ou simplesmente não ganhava. Para comer, dependia de um vale utópico de cinco ou dez … Ler mais

Velhos espartilhos – Crônica de Nelson Rodrigues

Cada época se assoa de uma certa maneira. (Não falo da grã-fina atual, que não se assoa, nem usa lenço. Na belle époque, porém, a mulher não tinha esse pudor nasal. Por exemplo: — numa frisa de ópera, uma bela senhora puxava o lenço e, diante da platéia interessada, assoava-se com um som de trombeta. … Ler mais

O aniversariante nato – Crônica de Nelson Rodrigues

O brasileiro é o aniversariante nato. Nenhum outro povo faz anos com tão larga e cálida efusão. Bem me lembro da minha iniciação jornalística. Bela época em que o dono de jornal era doutor, para todos os efeitos. (Hoje, o último “doutor” da imprensa é o Britto, do Jornal do Brasil). Depois de 30, fui … Ler mais

A doença infantil do palavrão – Crônica de Nelson Rodrigues

Que estaria fazendo eu, ontem, às três da madrugada? Sei que isso é intranscendente, irrelevante, mas vamos lá. Simplesmente, eu estava adulando minha úlcera com leite gelado. (Minha úlcera lambe leite como uma gata). Pacificada a dor, vim para a janela espiar a noite. E comecei a pensar no teatro brasileiro. (É triste ser inteligente … Ler mais