Em Londres, como os ingleses – Crônica de Fernando Sabino

By | 04/10/2021

QUANDO cheguei a Londres, fui acolhido pelo frio mais miserável. Andava pelas ruas debaixo de um grosso sobretudo, mas um vento gelado penetrava pelas mangas e corria-me pelo corpo. Dentro de casa, pouco adiantavam os recursos mecânicos com que se tenta contrariar a natureza: o sistema de aquecimento, quando funcionava, funcionava demais, esquentando como um forno, e eu ficava vermelho de calor como um peru, olhos irritados pela fumaça do cigarro. Era só botar o pé na rua, lá estava o vento à minha espera. Traiçoeiro, violento como um insulto. Me atravessava de lado a lado, fazendo gelar as minhas melhores disposições. Mas logo comecei a notar que se me queixava da inclemência do tempo, os ingleses sorriam: o último inverno, aquele sim, realmente frio, mas agora? A primavera estava chegando…

Primavera! Subitamente ela chegou. O telefone do hotel me acordou às 7 horas da manhã como num alarme de incêndio. Atendi, estremunhado, uma voz entusiasmada aos meus ouvidos:

– Good morning, sir! It is a gorgeous day, just have a look at it.

Nunca me detive para verificar a significação exata de gorgeous, ou pelo menos a palavra correspondente em português. Prefiro continuar imaginando que se refira a algo de alegre, esfuziante, colorido como um anúncio de Coca-Cola, vagamente relacionado a gorjeios de passarinhos. Mas por que diabo o porteiro do hotel me acordava para admirar a beleza do dia? Saltei da cama e fui até a janela. Pude perceber entre as nuvens uma claridade baça, um sol pálido e frio como um prato de louça. Era a primavera.

E, pelas ruas, e expressão de todos, banhada por minguados raios de sol, era a da mais pura felicidade. Que belo dia! — diziam uns aos outros. Ao que eu confirmava, sacudindo a cabeça:

– Realmente, it is a gorgeous day.

E travava então com o primeiro inglês no meu caminho o clássico diálogo:

– Lindo dia, o senhor não acha?

– Isto mesmo: um dos mais lindos dos últimos tempos.

– Espero que continue assim.

– Eu também. Não creio que tenhamos chuva.

– Nem eu. É realmente um lindo dia.

E assim por diante. Entre dois transeuntes, dois passageiros de ônibus, o leiteiro e a dona-de-casa, o caixeiro e o freguês, o porteiro e o hóspede, o patrão e o empregado, o passageiro e o motorista — em toda parte da Inglaterra. Uma espécie de senha britânica para o exercício cortês da convivência, para a prática do respeito mútuo nas relações humanas, para o cerimonial de um generoso entendimento entre os homens. Nunca tantos elogiaram tanto a natureza por tão pouco.

E de súbito, de tanto se falar no tempo, o próprio tempo parece reagir. O sol acaba mesmo surgindo das nuvens, como numa paisagem de folhinha — é o sonhado gorgeous day que o inglês persegue através de previsões de tempo, pesquisas climáticas, sondagens atmosféricas, análises cartográficas, com obstinação de maníaco. Por toda parte a natureza finalmente corresponde aos vaticínios. Londres em flor! E eu que me acostumei a imaginar Londres cinzenta e opaca o ano inteiro. Influência talvez da literatura, especialmente policial. Londres para mim sempre foi aquela cidade que jamais pôde ser vista: com fog não se vê nada, sem fog não é Londres.

Pois agora vou caminhando entre flores. Saio da estação subterrânea e o vendedor, em vez de me oferecer jornais do dia, oferece um punhado de cravos. Logo adiante uma vitrine exibe tulipas tão belas que parecem de matéria plástica. Nos parques e jardins, quase a cada esquina, as cores se multiplicam em milhares de flores de toda espécie, espalhando excitação. Agora sim, é a primavera, vamos tomar um pouco de sol! E o inglês, de paletó e gravata, às vezes até de sobretudo, se estende ali mesmo, na grama do parque, braços abertos como um urubu, para gozar um pouco da cálida alegria de viver, tão geladamente conquistada.

Suportei em Londres dois tenebrosos invernos, ali vivi quase três anos. O suficiente para saber que em Londres acontecem coisas.

Que espécie de coisas?

Naquela época uma revista americana lançou sobre Londres uma reportagem que logo se alastrou pelas demais revistas do mundo como imposição da moda, afirmando que ali grandes coisas estavam acontecendo. O próprio londrino passou a interrogar-se, estupefato: que coisas eram essas? O que Londres tem é pudor de ver denunciadas, assim de público, as coisas que ali sempre aconteceram. Coisas às quais nunca deu a menor importância. Em verdade, Londres não é de dar importância a ninguém. Nada mais londrino que aquela confissão de Caio de Freitas no seu livro sobre a Inglaterra “Um Canal Separa o Mundo”: olhando a cidade de outro lado do Tâmisa, ele foi levado a reconhecer que sua raiva era apenas uma paixão não correspondida. Londres é aquela mulher solitária no fundo do salão, ignorada pelos que se deslumbram com outras de encantos mais fáceis. Até que de súbito ela se impõe como a mais bela e desejada, justamente no momento em que resolve sair, sem aceitar a companhia de ninguém, indiferente à perturbação que deixa atrás de si. Os que então passam a despreza-la, em favor das outras, não fazem senão repetir o eterno apaixonado, que chama de ordinária e de mulher de vida fácil o objeto de sua paixão. Em suma: Londres sempre foi verde como os frutos da fábula. E os interesses da moda a estavam colocando ao alcance de todos, madura e desfrutável, isso o londrino não pode perdoar.

Mas Londres se esquiva, escondendo seus encantos, como uma solteirona do interior. Para surpreendê-los é preciso ver além das aparências. Londres não é a cidade dos rapazes cabeludos de Piccadilly Circus ou Trafalgar Square, nem a das roupas exóticas de Carnaby Street ou King’s Road. Uma caminhada ao longo de Bond Street, por exemplo, à primeira vista, parecerá simples passagem por uma rua comercial qualquer. Distraídos com as vitrines, não chegaremos talvez a perceber que acabamos de cruzar com um célebre pintor, um campeão de boxe, uma famosa bailarina, um costureiro, um escroque internacional, um sultão das Arábias, um caçador africano, um cassado brasileiro, um espião russo, um almirante bátavo.

Não é apenas a clássica mistura de raças, tipos ou categorias sociais: é o ajuntamento de indivíduos cujo modo de vida nada tem a ver com as normas tradicionais. E se espiarmos além da fachada dos edifícios, começaremos a descobrir os recantos secretos onde Londres se oculta. Os becos georgianos, os pubs vitorianos, os mercados de antiguidades ou de hortaliças, as cavalariças de outrora transformadas em apartamentos de luxo, os parques em cuja grama os namorados se estendem abraçados. E os clubes atrás de velhas paredes, com seus imensos salões, suas paredes de madeira antiga, seus garçons de libré, suas mesas de jogo por onde correm milhares de libras.

Mas Londres entrou na moda. Esgotando Paris, Roma, Nova York ou as praias da Riviera como atração turística, o interesse publicitário das grandes revistas tentou apresentá-la como a cidade do momento. E sua atração se concentrou nos jovens londrinos que estavam revolucionando os costumes e desafiando as convenções, com seus cabelos compridos e suas roupas extravagantes. Lisonjeados, os jovens londrinos se organizaram em torno desta nova convenção, passaram mesmo a revolucionar os costumes e desafiar as convenções. Com isso procuravam corresponder ao que os fotógrafos estrangeiros esperavam deles. E King’s Road se tornou para Londres o que foi no passado Montmartre para Paris, a Broadway para Nova York, a Via Veneto para Roma.

Enquanto isso, a velha Londres esperava indiferente. Quando passasse a nova onda da pop art e do iê-iê-iê, como passou a do iô-iô e a do bilboquê, continuaria a mesma cidade antiga, a defender encantos milenares que deslumbraram Dickens ou Johnson, resistindo aos ataques dos novos conquistadores como resistiu às bombas de Hitler, para, ao final dos tempos, morrer majestosamente, como uma velha rainha.

Numa cidade com mais de oito milhões de habitantes há de tudo que se pode imaginar. Aos poucos, fui fazendo minhas descobertas.

Descobri, por exemplo, uma lavanderia que lava e passa um terno em minutos, enquanto o freguês espera em cuecas, lendo jornal. Sei onde alugar um esqueleto a preço tentador. E sei de um alfaiate especializado em confeccionar coletes a prova de balas. Por outro lado, sei onde adquirir um “boomerang”, fabricado pelos aborígines australianos.

Há mais: há uma loja cujas caixas de rapé, de todos os tipos, são famosas desde o século XII. Outra vende exclusivamente peças de xadrez. E sei também onde comprar guarda-chuva com espada dentro, ou daqueles grandes, usados pelos chefes das tribos africanas. Posso, se quiser, alugar uma réplica das jóias da Coroa, ou um uniforme com- pleto de polícia londrina, desde que não tenha a intenção de ridicularizar a corporação. Compro um avião pelo telefone e arranjo uma noiva no Bureau de Casamentos, desde que sejam boas as minhas intenções. Obtenho, também pelo telefone, o escore atual de uma partida de críquete que se esteja realizando no momento. E fico sabendo de todos os acontecimentos públicos das próximas 24 horas, em inglês, alemão, francês e espanhol. A hora certa, a previsão do tempo e a condição das estradas me serão dadas com precisão, se eu discar determinado número. Posso também usar pelo telefone o serviço receptor de recados. E se ligar o número equivalente às letras w-h-i-s-k-e-y, estarei falando com o representante de um dos melhores uísques escoceses, que imediatamente fará chegar à minha casa uma garrafa, a qualquer hora do dia (ou da noite).

Posso alugar por um dia um escritório com mesa, cadeira, máquina de escrever, telefone e secretária particular, na melhor zona comercial de Londres. Posso obter uma acompanhante para as compras, para o teatro ou mesmo para o jantar numa boate, em bases estritamente profissionais, e nem por isso menos atraentes (aos olhos dos demais). Alugo um policial no aeroporto para tomar conta de mim e uma escolta até à cidade, se quiser fazer uma entrada triunfal. Sei de um barbeiro especialista em barbear defuntos, e se a vovozinha de um amigo está para chegar à estação de Victoria, sei como mandar alguém atencioso e amável esperá-la e despachá-la a seu destino. Alugo um Rolls-Royce, com chofer de luvas e boné, e chego à recepção no meu fraque também alugado, como se fosse um membro da Família Real. Posso encomendar pelo telefone um jantar até de 100 talheres, e darei em minha casa, com louça, cristais, pratarias e garçons, um banquete digno de um primeiro-ministro.

Sei como encontrar um arrombador de cadeados ou de cofres a qualquer hora do dia ou da noite. Onde obter informações sobre a autoria de qualquer verso da língua inglesa que acaso me venha à cabeça. Onde reparar uma dentadura na hora, inclusive nos domingos e feriados. E onde empalhar aves ou animais, de um rouxinol a um elefante. Onde consertar em minutos uma raquete de tênis. Onde alugar um vestido de noiva (para qualquer tamanho). Onde encontrar um alfaiate com 48 anos de prática em alterar o tamanho do terno, se o defunto era maior. E, se perder um botão, será impossível não achar outro igual, numa loja que se orgulha de ter a maior e mais variada coleção do mundo.

Se estiver pensando em me suicidar, devo antes discar determinado número ao telefone, e imediatamente surgirá alguém para me dissuadir do tresloucado gesto. Posso instalar em menos de 24 horas uma piscina no meu quintal. Sei onde comprar taças e troféus, caso deseje patrocinar algum campeonato esportivo. Consigo a preço módico um parceiro para o bilhar, para o pingue-pongue ou mesmo para a conversa fiada, quando quiser com isso matar o tédio das tardes de domingo — ou companhia mais interessante. E consigo, absolutamente gratuito, o parecer de um advogado sobre questões legais, como: pode o senhorio me proibir de ter companhias mais interessantes?

E assim por diante. Posso comprar a bandeira de qualquer país do mundo — só não posso hasteá-la em minha casa, sem consultar antes o tal advogado. Consigo um traje completo de cosmonauta ou de pescador submarino, em coisa de poucos minutos, e máscara de oxigênio, se me der mal. Disfarço-me com toda espécie de barbas postiças ou de fantasias, pois sei onde encontrá-las.

Sei onde encontrar também o melhor coçador manual de costas que jamais foi fabricado. Outra loja me venderá quase toda espécie de bicho existente, incluindo macacos, abelhas, jacarés, pererecas, cobras e lagartos. Ou um cisne branco, quando bem entender. Ou uma cegonha, para quando chegar a hora. E em matéria de peixes…

Chega. Tudo isso se pode fazer ou adquirir em Londres, havendo dinheiro. Não me perguntem como fiquei sabendo: sei como ficar sabendo. Há, é verdade, certas coisas que o dinheiro não compra. (Mas sempre ajuda.)

Gente esquisita para morar, esses ingleses. Na sua grande maioria, cada casa ou maisonette, embora não tendo mais que uns quatro metros de frente, é composta de quatro ou cinco andares. No porão, a cozinha e a sala de jantar. No primeiro andar, ao nível da rua: a porta de entrada, um corredor, a escada, um living com janelinhas para fora. No segundo, o banheiro. No terceiro, um ou dois quartos de dormir. No quarto andar, outro banheiro. No quinto, outra sala… A impressão que se tem é que os moradores passam o dia inteiro subindo e descendo quatro andares de escada. Puro engano: a disposição das dependências em sentido vertical obedece a uma lógica inflexível, pela qual se pauta a vida dos que nelas vivem. Assim, a cozinheira tem de subir só um lance de escada para abrir a porta ao visitante, e dois para servir as re- feições. O visitante, por sua vez, terá de subir apenas dois para chegar ao living, e descer um, se for convidado para jantar. Os moradores descerão apenas um, do quarto ao living, para fazer as honras da casa, e dois, se quiserem comer. Dividindo a sua atividade doméstica em estágios, correspondentes aos pavimentes de sua moradia, o inglês se encontra dentro de casa sempre eqüidistante dos extremos, — ideal de virtude aristotélica que o conduz vida afora, em todas as atividades, como característica do temperamento britânico. Subindo ou descendo a escada, ele se faz adepto da filosofia daquele ascensorista, quando lhe perguntei como ia passando:

– Como o senhor vê: às vezes em cima, às vezes embaixo.

Ele não tem pressa. A paciência é a virtude capital. A sua impassibilidade diante do tempo chega a dar a impressão de que somos eternos.

Recebi em Londres muito convite para jantar com um, dois meses de antecedência. A cadernetinha de bolso de cada inglês é um rosário de encontros, visitas, jantares, viagens, planos para o ano inteiro e às vezes para o ano seguinte. Um brasileiro já iniciado me preveniu quando cheguei:

– Eles marcam na cadernetinha com antecedência de dois meses até para dormir com a mulher. E assim mesmo, quando for a própria. Sendo outra, no mínimo seis meses.

Não creio que cheguem a tanto (eu diria no máximo quinze dias). Mas aquilo me perturbava: até lá estarei vivo? acaso serei o mesmo? E, tomando nota na minha própria cadernetinha, percebia estar lavrando a minha sentença. Como um condenado, via à minha frente uma série de convites aceitos por distração ou de encontros que por delicadeza eu próprio havia sugerido. Pessoas que mal conhecia atendiam logo à sugestão de nos vermos qualquer dia desses — e puxavam lápis e cadernetinha para anotar a data, hora e local. Foi assim que me vi tomando uma cerveja com o mensa- geiro da Western, foi assim que recebi em minha casa para um drinque o agente de automóveis que me vendeu um carro. Eu não podia conceder um gesto, uma palavra de delicadeza, e logo um inglês me pegava ao pé da letra numa delicadeza igual. Não podia morrer, nem ao menos adoecer, nem sequer me distrair pelo caminho: na esquina de cada dia, de cada semana, de cada mês, havia sempre um atencioso inglês à minha espera, relógio na mão, contando os minutos.

Não foi fácil me acostumar à troca de rapapés e salamaleques a que o inglês nos submete:

– Bom dia, senhor. Belo dia de sol, não acha?

– Bom dia. É verdade, um belo dia.

– Pena que o inverno venha aí. Posso lhe ser útil em alguma coisa?

– Sim, por favor: gostaria que o senhor tivesse a bondade de me vender uma caixa de fósforos.

– Pois não, com muito prazer. Aqui está, e muito obrigado.

– O senhor pode me informar quanto é, por obséquio?

– São dois pence, senhor.

– Obrigado. Aqui estão.

– Muito obrigado.

– Eu é que agradeço. Até logo.

– Até logo. Passe bem e muito obrigado.

A tradução de certos diálogos é mesmo difícil. Por isso os romances traduzidos parecem tão convencionais. Como é possível passar para a nossa língua tanta delicadeza? Daí aqueles diálogos do método Berlitz, aparentemente tão idiotas.

O cavalheirismo deles não é idiotice: é arte de conviver. Arte que não se aprende apenas dizendo please, sorry e thank you. Ser inglês não é somente usar bigode, chapéu- coco, cachimbo, guarda-chuva, colete, ceroulas. Há certo imponderável que subverte o convencional, tornando-o surpreendente. O inglês não é apenas um homem de meia- idade que gosta de críquete, joga golfe aos domingos, come torta de rim e bebe cerveja quente. É também aquele lorde de fraque e cartola, que surpreendi a caminho de uma recepção no Palácio de Buckingham, pedalando na sua bicicleta.

Ele se espanta com tudo, mas não se espanta com coisa alguma. Nem mesmo com aqueles dois brasileiros, já completamente bêbados, que olhavam fascinados seus imensos bigodes de guia, enquanto ele tomava sua cerveja em silêncio junto ao balcão do pub.

– Vou puxar aquele bigode, já não agüento mais — disse um deles.

– Não faça isso! — disse o outro. — Vai dar briga na certa.

Mas, antes que o outro o contivesse, foi lá, puxou o bigode. O inglês se voltou, estupefato:

– I beg you pardon, sir?

Inglês é também aquele que me disse, depois de me dar a informação que lhe pedi sobre determinada rua:

– Vou ficar aqui esperando. Se não encontrar, volte, que assumo toda a responsabilidade.

Monstros de delicadeza! Mas de ironia também. Dá para desconfiar: essa gente está me gozando. Logo nos convencemos de que o inglês leva tudo a sério, a fleuma britânica! Não é de gozar ninguém. Pois então, cuidado! Deve haver algum engano. Estão me confundindo com algum general. Mas ao fim de alguns meses de polida convivência, rasgos de elegância e gestos fidalgos, eis a suspeita, tão ofensiva quanto improcedente: essa gente é meio boba. Que excelente povo para se passar a perna! Que facilidade para cair numa conversa! Que paraíso para um vigarista!

Já acostumados, passamos a admirar o óbvio — que vem a ser a sabedoria de viver de um povo civilizado. E que verdadeiros bugres somos nós, brasileiros! Que gente mais subdesenvolvida! Quanta grosseria! Que falta de civilidade! Que espantosa avacalhação! Até que um dia o ciclo se completa, e um incidente qualquer nos atira diante daquilo que originalmente pensávamos: além das fronteiras da boa educação, para lá do senso ético nas relações, por detrás da finura no trato e da polidez de conduta, onde a vista já não alcança — no fundo, bem no fundo da alma inglesa, reina a mais gloriosa das gozações.

Resta saber a quem o inglês está gozando — já que nos sentimos imunes, como estrangeiros: se um ao outro, se a si mesmo. E tudo passa a ser bem gozado.

Abre-se a porta do pub e vejo entrar um inglês. A figura que vejo entrar simplesmente não existe. É a quinta-essência da excentricidade britânica. E não tem nem chapéu-coco, nem guarda-chuva, nem cachimbo, nem bigodão. Mas tem um monóculo. E chapéu-panamá desabado. E cabelos compridos na nuca. E paletozinho abotoado, apertado, curtíssimo, dando quase pela cintura. E calça xadrez. É um autêntico dandy, saído de um figurino de moda masculina do princípio do século. O bar está cheio a esta hora, mas o recém-chegado, avançando até o balcão num passinho de Monsieur Hulot em férias, não chama a atenção de ninguém além de mim. Todos permanecem sérios, compenetrados, diante de seus copos de cerveja. De súbito, o freguês a meu lado dá uma estranha ordem ao garçom:

– Diga ali ao cavalheiro que acaba de entrar que a bebida é por minha conta.

Ao notar que eu ouvi, dá uma piscadinha para mim. Só então reparo que o bar inteiro aguarda, fingindo não ver, em silenciosa cumplicidade, como na iminência de uma cena cômica. O recém-chegado se volta de longe para o autor da gentileza, retira o chapéu, faz uma mesura exagerada de fidalgo e põe-se a beber a cerveja que lhe foi oferecida. Ao terminar, outra mesura, e parte como chegou. Somente então o bar inteiro estoura numa só gargalhada.

Resta saber quem foi mais inglês: o que pagou a despesa ou o que bebeu de graça.

Quem, afinal, é inglês? Churchill? Sherlock Holmes? James Bond? John Lennon?

Lord Byron? Talvez aquele meu vizinho que, ao saber-me brasileiro, exclamou:

– What a most extraordinary thing! Inglês é um cidadão que vive contando os mi- nutos, que marca encontros para daí a dois meses às sete horas menos dez. Ou o professor de Oxford que me convidou para tomar um drinque e até hoje está pedindo desculpa porque foi servido primeiro. Ou aquela jovem psicodélica que me perguntou com olhos deslumbrados se era verdade que no Brasil costumávamos andar completamente nus. Um ser excêntrico, exótico, estrambótico, para quem o respeito à integridade do indivíduo se faz medida-padrão de todas as coisas.

Ser inglês é mais do que ter nascido numa ilha cercada de fog por todos os lados: é uma arte, é uma longa paciência; é um estado de espírito, a meio caminho do oriental; é o requinte de uma civilização já extinta; é a maneira ideal de viver num mundo que infelizmente ainda não existe.

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