O estribo de prata – Conto de Graciliano Ramos

By | 10/06/2022

– Este caso se deu, começou Alexandre, um dia em que fui visitar meu sogro, na fazenda dele, três léguas distantes da nossa. Já contei aos senhores que os arreios do meu cavalo eram de prata.

– De ouro, gritou Cesária.

– Estou falando nos de prata, Cesária, respondeu Alexandre. Havia os de ouro, é certo, mas estes só serviam nas festas. Ordinariamente eu montava numa sela com embutidos de prata. As esporas, as argolas da cabeçada e as fivelas dos loros eram também de prata. E os estribos, areados, faiscavam como espelhos. Pois sim senhores, eu tinha ido visitar meu sogro, o que fazia uma ou duas vezes por mês. Almocei com ele e passamos o dia conversando em política e negócios. Foi aí que ficou resolvida a minha primeira viagem ao sul, onde me tornei conhecido e ganhei dinheiro. Acho que me referi a uma delas. Adquiri um papagaio…

– Por quinhentos e tantos mil-réis, disse mestre Gaudêncio. Já sabemos. Um papagaio que morreu de fome.

– Isso mesmo, seu Gaudêncio, prosseguiu o narrador, o senhor tem boa memória. Muito bem. Passei o dia com meu sogro, à tarde montamos a cavalo, percorremos a vazante, as plantações e os currais. Justei e comprei cem bois de era, despedi-me do velho e tomei o caminho de casa. Ia principiando a escurecer, mas não escureceu. Enquanto o sol se punha, a lua cheia aparecia, uma lua enorme e vermelha, de cara ruim, dessas que anunciam infelicidade. Um cachorro na beira do caminho uivou desesperado, o focinho para cima, farejando miséria. — “Cala a boca, diabo.” Bati nele com o bico da bota, esporeei o cavalo e tudo ficou em silêncio. Depois de um galope curto, ouvi de novo os uivos do animal, uns uivos compridos e agoureiros. Não sou homem que trema à toa, mas aquilo me arrepiou e deu-me um batecum forte no coração. Havia no campo uma tristeza de morte. A lua crescia muito limpa, tinha lambido todas as nuvens, estava com intenção de ocupar metade do céu. E cá embaixo era um sossego que a gemedeira do cachorro tornava medonho. Benzi-me, rezei baixinho uma oração de sustância e disse comigo: — “Está-se preparando uma desgraça neste mundo, minha Nossa Senhora.” Afastei-me dali, os gritos de agouro sumiram-se, avizinhei-me da casa pensando em desastres e olhando aquela claridade que tingia os xiquexiques e os mandacarus. De repente, quando mal me precatava, senti uma pancada no pé direito. Puxei a rédea, parei, ouvi um barulho de guizo, virei-me para saber de que se tratava e avistei uma cascavel assanhada, enorme, com dois metros de comprimento.

– Dois metros, seu Alexandre? inquiriu o cego preto Firmino. Talvez seja muito.

– Espere, seu Firmino, bradou Alexandre zangado. Quem viu a cobra foi o senhor ou fui eu?

– Foi o senhor, confessou o negro.

– Então escute. O senhor, que não vê, quer enxergar mais que os que têm vista. Assim é difícil a gente se entender, seu Firmino. Ouça calado, pelo amor de Deus. Se achar falha na história, fale depois e me xingue de potoqueiro.

– Perdoe, rosnou o preto. É que eu gosto de saber as coisas por miúdo.

– Saberá, seu Firmino, berrou Alexandre. Quem disse que o senhor não saberá? Saberá. Mas não me interrompa, com os diabos. Ora muito bem. A cascavel mexia-se com raiva chocalhando e preparando-se para armar novo bote. Tinha dado o primeiro, de que falei, uma pancada aqui no pé direito. — “Os dentes não me alcançaram porque estou bem calçado”, foi o que eu presumi. Saltei no chão e levantei o chicote, pois ali perto não havia pau nem pedra. A miserável enrolava-se, os olhos redondos pregados em mim e a língua fora da boca. Zás! Desmanchei-lhe a rodilha com uma chicotada. Tentou endireitar-se, estraguei-lhe os planos com o chicote e fui batendo, batendo, até que, desanimada, ela meteu o rabo entre as pernas e botou-se devagarinho para um monte de garranchos de coivara.

– Como é isso, seu Alexandre? perguntou o cego. A cascavel meteu o rabo entre as pernas? Cascavel não tem pernas.

– Está claro que não tem, respondeu Alexandre. Quando a gente diz que uma criatura mete o rabo entre as pernas, quer dizer que ela se encolhe, capionga, percebe? Foi o que se deu. Não é preciso um bicho ter pernas para meter o rabo entre as pernas. Seu Firmino é pessoa de entendimento curto e não compreende isto. A cascavel, que não tinha pernas, meteu o rabo entre as pernas e esgueirou- se para os garranchos e folhas secas que havia junto da estrada. Corri atrás dela e obriguei-a a voltar. Amiudei os golpes, a desgraçada bambeou e nem pediu fogo para o cachimbo. Machuquei-lhe a cabeça com o salto da bota. Estrebuchou, fez o que pôde para arrumar-se em novelo, depois se aquietou e ficou estirada na poeira. Baixei-me e medi o corpo mole: nove palmos e meio espichados. Isto é com o senhor, seu Firmino. Nove palmos e meio, entendeu? Mais de dois metros, penso eu. Que diz?
– Deve ser isso mesmo, resmungou o negro. Não sei não. Estou escutando.

Sempre me dou mal quando faço perguntas. O senhor é quem sabe.

– Perfeitamente, concluiu Alexandre. A cobra tinha mais de dois metros. Tirei a vagem da cauda e contei nela dezessete anéis, o que significa dezessete anos, como ninguém ignora. Vejam vossemecês: dezessete anos. Era uma cobra muito velha e muito prática. Se eu não estivesse com os pés bem protegidos, não teria escapado, os senhores não ouviriam este caso. Ó Cesária, veja se arranja dois dedos de cachimbo lá dentro. Eu preciso molhar a palavra. E os nossos amigos estão com o ouvido seco. Vá buscar o cachimbo, Cesária. E procure o chocalho da cascavel, que você guardou.

Cesária levantou-se da esteira e desapareceu. Alexandre enxugou na manga da camisa o rosto suado. Mestre Gaudêncio curandeiro, seu Libório cantador e Das Dores comentaram baixinho o tamanho e a idade da cobra. Passados alguns minutos, Cesária voltou com uma garrafa e uma xícara.

– Preparei o cachimbo. Aguardente não falta, e as abelhas trabalham de graça. Mas o chocalho sumiu-se. Estava no jirau, misturado com balaios e combucos: provavelmente anda escondido num buraco de ratos.

– Faz pena, rosnou Alexandre. Eu queria encostá-lo nas unhas de seu Firmino. É o diabo. Acabou-se. Bote o cachimbo na xícara, Cesária.

A garrafa se esvaziou, os amigos elogiaram a bebida. Alexandre temperou a goela e reatou a história:

– Montei-me novamente. E aí findou o desespero que o choro brabo do cachorro me tinha dado. A luz vermelha diminuiu e a noite se tornou uma noite de lua cheia igual às outras noites de lua cheia. — “Toda aquela armação de infelicidade foi para mim”, assuntei cá por dentro. Mas agora não havia perigo, porque a oração que eu tinha rezado era poderosa e o couro da bota era duro. Entrei em casa sem nuvens.

– Com o chocalho da cobra no bolso, murmurou o cego.

– Naturalmente, com o chocalho da cobra no bolso. Cesária se espantou: dezessete anos para uma cascavel é muito ano. Fui dormir, e no dia seguinte ninguém se lembrava disso. Entreguei-me de corpo e alma aos arranjos necessários à viagem para o sul. Gastei o tempo todo separando o gado, contratando arrieiros e arrumando cargas. Um mês depois, exatamente um mês depois, tudo pronto, as reses do curral, os tangerinos amolando o ferro da aguilhada, mandei selar o cavalo e resolvi despedir-me de meu pai, meu sogro e alguns amigos da vizinhança. Vesti a roupa de casimira, calcei as botas, amarrei no pescoço colarinho e gravata, tomei café e dirigi-me ao copiar, onde encontrei o cavalo sem arreios. Gritei para o interior da casa, aborrecido com aquela demora, e um moleque apareceu atrapalhado, cinzento de medo, e falou assim: — “Não posso trazer a sela não, seu major. Rebentou o torno da parede e está caída, pesada que não me ajudo com ela. Faz meia hora que procuro carregá-la.” Pensei que o diabo do sujeito estivesse com embromações e fui ver a coisa de perto.

Achei realmente o torno quebrado e a sela no chão. Tentei suspendê-la, resistiu. O loro esquerdo levantou-se, mas o direito parecia plantado na terra. Acocorei- me para examinar aquele negócio e tomei um susto dos demônios: o estribo estava grande que era um despotismo, sim senhores. Mal pude movê-lo. Desatei-o, chamei dois homens e conseguimos arrastá-lo até o copiar. Foi um assombro, toda a gente arregalou os olhos, sem adivinhar o motivo do crescimento. Vieram pessoas de longe, a casa se encheu, fervilharam perguntas — “como foi, onde foi, por que vira, por que mexe” — e ninguém entendia nada. Eu coçava a cabeça e puxava pelos miolos. Fiquei três dias matutando. Afinal, depois de muito pensar, compreendi tudo e dei a Cesária as explicações que agora vou dar aos senhores. Acho que hão de concordar comigo. Naquela noite de lua cheia supus que a cascavel me tivesse mordido o couro da bota. Convenci-me, porém, de que os dentes da bicha tinham ferido o estribo e deixado lá o veneno que existia no corpo dela. Um mês depois, com a força da lua, o estribo inchava, como incham todas as mordeduras de cobras. Era por isso que ele estava tão crescido e tão pesado. Mandei chamar um mestre na rua e, com martelo e escopro, retiramos do estribo cinco arrobas de prata, antes que o metal desinchasse. Isto se repetiu durante alguns anos: todos os meses o estribo inchava, inchava, e, conforme a força da lua, eu tirava dele três, quatro, cinco arrobas de prata.

Seu Libório cantador, mestre Gaudêncio curandeiro, o cego preto Firmino e Das Dores levantaram-se admirados.

– O senhor deve ter ganho uma fortuna, seu Alexandre, exclamou o cantador.

– Um pouco, seu Libório, sempre arranjei algum dinheiro, graças a Deus.

– E o estribo, seu Alexandre? O senhor ainda tem esse estribo? perguntou o cego.

– Não senhor, seu Firmino, respondeu o dono da casa. Com o tempo ele deixou de inchar e tornou-se um estribo comum. Julgo que o veneno perdeu a valia. Natural, não é verdade?


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Histórias de Alexandre

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