O marquesão de jaqueira – Conto de Graciliano Ramos

By | 10/06/2022

Espiando a lua que branqueava o pátio, seu Libório pinicava a prima da viola, gemendo baixinho uns versos de embolada. Alexandre, com ar de entendido, aprovava a cantoria. Mestre Gaudêncio curandeiro gingava, como se quisesse dançar. Os bilros da almofada de Cesária tocavam castanholas na esteira. Um cajado bateu no copiar:

– Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

O cego preto Firmino entrou e, tateando, ladeando a parede, foi acocorar-se.

Os bilros emudeceram e a voz de Cesária ergueu-se lenta:

– Conte a história do marquesão, Alexandre.

– É o que eu estava com vontade de pedir, meu padrinho, o marquesão, gritou Das Dores.

– Bobagem, resmungou Alexandre enrugando a cara. Seu Libório está desovando uma cantiga bonita, e seu Libório é o cantador mais famoso desta ribeira. Quando seu Libório abre o bico, até os passarinhos do mato se escondem.

O violeiro, modesto, interrompeu o canto e abafou com as mãos o rumor das cordas.

– Não senhor. Isso é bondade. Estava aqui dizendo umas besteiras, para matar tempo. Agora se seu Alexandre tem um marquesão na cabeça, eu me calo. Quando seu Alexandre move um dedo, quem se atreve a piar? Hem? Puxe o marquesão, seu Alexandre.

– Não senhor, não puxo, resistiu o dono da casa. Faço lá semelhante desfeita a uma criatura do seu tope? Continue, seu Libório.

– Continuo não. Quem sou eu? Vim escutar. Fale seu Alexandre, que é homem de merecimento.

Passaram quinze minutos nesse jogo, cada um tentando encolher-se e elevar o outro. Enfim Alexandre se deu por vencido:

– Vossemecês mandam. Eu estava quieto, mas seu Libório decide, e não tenho remédio senão obedecer. A culpada foi Cesária, que atirou em cima da gente um marquesão da jaqueira, um traste velho sem importância. Não valia a pena tocar nele. Para quê? Cesária tem cada lembrança! Eu começo, meus amigos. Não sou de gabolices. Reconheço que possuo algumas habilidades: enxergo no escuro, aguento-me numa sela e atiro regularmente. Mas em muitos casos espichados aqui para os senhores não mostrei valor. Comprei um papagaio que tinha astúcias de cristão e vi uma guariba diferente das outras. Qualquer um podia comprar o papagaio e ver a guariba, não é verdade? Na história de hoje também não pratiquei ação: recebi foi um susto dos demônios. Bem, vou principiar do princípio. Quando meu pai entregou a alma a Deus, deixou tantos possuídos que os oficiais de justiça arregalaram o olho: terra, muito patacão de ouro, um despotismo de gado. Meu irmão mais novo queria correr mundo e no inventário recebeu o quinhão dele em dinheiro; eu aceitei a fazenda, os animais e uma casa na rua, uma tapera que mandei reformar, caiar, pintar e enfeitar. Encomendei para ela móveis caros de lorde: mesas com embutidos, cadeiras fofas, camas de molas, armários, trocinhos miúdos sem nome e sem préstimo, cortinas, penduricalhos, um marquesão de jaqueira, enorme, coberto de couro lavrado, uma peça que me saiu por seiscentos e vinte mil-réis. Pronta a casa, vivemos nela uns dias, na grandeza, recebendo visitas do prefeito, do juiz, do vigário, do chefe político, de todas as autoridades do lugar. Voltamos para a fazenda, mas aí Cesária apanhou um resfriado, cuspiu sangue, esteve uns meses bamba, entre a vida e a morte. Quando pisou no chão, só tinha osso, coitada. Magra como um cassaco, amarela como gema de ovo. Deixei a nossa terra e andei tempo sem fim para cima e para baixo, procurando um doutor que botasse a mulher nos trilhos. Depois de muito xarope e muita garrafada, ela endureceu o espinhaço, tomou carne e endireitou a figura. Mas eu tinha gasto uma fortuna, tinha esbagaçado a herança quase toda em médico e botica para remendar o interior da patroa. Dinheiro nenhum, os bois desaparecendo, a miunça acabando na morrinha.

– Exatamente, Alexandre, murmurou Cesária triste, o cachimbo apagado, o olho distante, o cotovelo pregado na almofada. Aquela macacoa estragou o nosso cabedal. É verdade que me aprumei, mas ficamos na tira e você precisou começar a vida de novo.

Alexandre amarrou a conversa na palavra da companheira:

– Isso, começar a vida de novo, deitar os bofes pela boca varando caminho, num desespero, do sertão para a mata e da mata para o sertão, comprando e vendendo. Felizmente eu dispunha de consideração, graças a Deus não me faltava crédito. Consegui levantar-me: os currais encheram-se, a cabroeira valente espalhou-se nos arredores, contando lambança, e rolos de notas graúdas forraram os fundos das arcas. Mas tive um trabalhão infeliz, espremendo os miolos e consumindo o corpo. Um dia Cesária chegou junto de mim e saiu-se com esta proposta: — “Xandu, vamos passar na rua a festa da Senhora Sant’Ana?” Não respondi que sim nem que não, e Cesária, renitente, pegou a amolar-me: — “Vamos, Xandu. Você, numa labuta dos diabos, se esquece do mundo. Faz um bando de anos que não saímos deste buraco, nem para ouvir missa. Vivemos em pecado, isto aqui fede a heresia, Xandu. E aquela casa fechada está se desgraçando com certeza no cupim e na goteira. Vamos passar na rua a festa da Senhora Sant’Ana.” Foram as suas palavras, Cesária.

– Foram as minhas palavras, Alexandre. Você tem memória.

– Tenho, prosseguiu o narrador. Fizemos os preparativos e no dia da Santa lá nos largamos para a cidade, eu no cavalo esquipador arreado com arreios de prata, Cesária vistosa na saia de montaria, composta no silhão, de banda, que naquele tempo havia decência e mulher não se escanchava em sela, como hoje. Entrando na rua, dei de cara com o Silva, homem de leitura, sabido como um tabelião. Nunca vi ninguém que soubesse tanto. Esse moço tinha andado nos estudos, defendia presos no júri, conhecia todos os livros do mundo e escrevia por baixo da água. — “Como tem passado, major Alexandre?” —“Na graça de Deus, dr. Silva. Como vai a obrigação?” Conversa puxa conversa, estive ali um pedaço de tempo admirando a cadência do Silva. Quando nos despedimos, ele me perguntou: — “O senhor não está sentindo um cheiro esquisito, major Alexandre?” Abri as ventas, funguei e balancei a cabeça espantado: — “Não estou sentindo nada não, dr. Silva. Cheiro de quê?” Silva respondeu com um nome difícil, dos que vêm nos livros; eu fiquei jejuando, pedi que ele trocasse aquilo em miúdo, fui atendido e saí na mesma, um tanto ou quanto encabulado, dizendo cá por dentro que o rapaz tinha inventado uma pilhéria sem graça para me empulhar. Botei o cavalo na pisada baixa. Em frente da igreja, mal acabado o padre-nosso que rezo quando passo diante de imagens sagradas, desejei torcer a rédea, voltar, saber do Silva se ele tinha tido a intenção de mangar de mim. Não admito brincadeiras: comigo tudo é sério, ali no duro. Nesse ponto entrou-me nos gorgomilos um cheirinho adocicado, com jeito de mel de abelha. Ora sim senhores. Estivera a pique de fazer uma asneira, despropositar com o Silva, pessoa direita e entendida. Que faro o dele! Um faro de bicho. Tinha percebido longe, muito longe, o que eu só ali começava a sentir. Bem. Segui o meu caminho. E, enquanto andava, um arzinho açucarado, cada vez mais forte, me escorregava pelo nariz e pelas goelas. Chegamos a casa, desapeamos, meti a chave enferrujada na fechadura perra, que ninguém tinha mexido no correr de muitos anos. Abri a porta com dificuldade, entramos na sala. E vimos uma parte das coisas aproveitadas depois pelo Silva e desenvolvidas num escrito que se vendeu muito nas feiras e agradou. Fiquei de boca aberta, assombrado, Cesária deu um grito e pôs-se a tremer. Vossemecês não adivinham o motivo. Pois explico tudo em duas palhetadas. O marquesão tinha levado sumiço, ou, para melhor dizer, estava transformado completamente. Reparando bem, notei as pernas dele enterradas no chão, cobertas de cascas, tortas e grossas, quatro pés de pau. Sim senhores, quatro jaqueiras carregadas de frutas que se rachavam de tão maduras e cheiravam em demasia. O resto do marquesão tinha-se espatifado, e o couro do assento balançava, pendurado no meio da folhagem. Mandei cortar as plantas e pôr em ordem a sala, que estava num estrago feio, naturalmente, com o tijolo partido e a telha rebentada em vários lugares. Este caso teve numerosas testemunhas, que não me deixam mentir, entre elas Cesária, aqui presente, e o Silva, tipo de muito respeito, sisudo como o diabo. Mas confesso a vossemecês que no folheto dele, publicado em letras de fôrma, há algum exagero. Silva não se refere ao marquesão nem fala em jaqueiras: afirma que toda a mobília tinha criado raízes, que o corredor e as camarinhas se atochavam de laranjeiras e paus-d’arco. Até acrescenta que as gavetas da cômoda tinham virado cortiços de abelhas, coisa que não vi, francamente, não vi. Nem eu nem Cesária. Ficam, portanto, os amigos avisados de que na história do Silva há uns floreios. Acho que ele procedeu com acerto: quando um cidadão escreve, estira o negócio, inventa, precisa encher o papel. Natural. Conversando, como agora, a gente só diz o que aconteceu. É o que eu faço. Na sala havia quatro jaqueiras. Apenas.


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Histórias de Alexandre

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