O Tartamudo do Kurfürstendamm – Crônica de João Ubaldo Ribeiro

By | 10/05/2022

Acredito já ser bem conhecido por estes arredores do Kurfürstendamm (aliás, Ku’damm, que é como nós, berlinenses, tratamos de nossa avenida mais famosa), perto de onde eu moro. Gostaria de dizer que essa notoriedade se deve à camaradagem que estabeleci com vizinhos, funcionários de lojas e supermercados, carteiros, policiais, lixeiros, atendentes de quiosques e outros que por aqui militam. Não me desagradaria tampouco explicar que sou assim tão conhecido devido a meus dotes físicos, que impressionariam moças e senhoras de todas as condições sociais. Também ficaria satisfeito, se pudesse atribuir os olhares de reconhecimento ao orgulho que teriam todos, ao saber que tão renomado escritor reside nas vizinhanças. Enfim, posso pensar talvez numa dezena de razões que me contentariam.

Mas, ai de mim, não é nada disso. Sim, porque — já é tempo de que vocês saibam a verdade — eu sou o Tartamudo do Ku’damm. Sim, sou eu mesmo, talvez vocês já tenham ouvido falar em mim. Sou aquele que acaba de parar na esquina da Westfälische Straβe com um ar aflito maldisfarçado por um sorriso amarelo, olha para um lado, olha para o outro, faz que vai mas não vai, saca um dicionariozinho do bolso que estuda tremulamente e, afinal, num acesso súbito de fraqueza, põe a mão na testa e senta-se num banquinho da Henriettenplatz.

É o Tartamudo reunindo coragem para enfrentar outra de suas aventuras arrepiantes. Ousará, mais uma vez, entrar na papelaria e tentar perguntar se eles têm etiquetas “mit Luftpost”? Não pode esquecer-se do primeiro dia em que tentou e, depois de tantos ensaios, apenas lograva, entre gaguejadas sísmicas, dizer “flugpostiketten”, ao que a não tão gentil senhora do balcão lhe dirigiu palavras que, apesar de para ele serem ininteligíveis, pareciam uma clara alusão à sua dele senhora mãe, que, coitada, não é responsável por ele ainda não ter, em que pesem seus esforços, conquistado a bela, porém notoriamente esquiva, língua alemã.

Sim, não se esquece disso, nem de outros episódios igualmente acabrunhantes. O dia em que, com grande coragem, pediu uma Bratwurst num quiosque da acima mencionada Henriettenplatz e, ao responder “ja” a uma pergunta que não entendeu direito, ouviu presumíveis menções à sua parca inteligência, seguidas de risadinhas e risadonas dos outros clientes do estabelecimento. O dia em que, também depois de ensaios estrênuos, reuniu forças para entrar num ônibus sozinho e recitar o nome do bilhete que havia laboriosamente decorado, somente para cometer o fatal engano de, em vez de depositar as moedas na bandejinha apropriada, tentar entregá-las diretamente ao motorista — e de novo menções óbvias à sua debilidade mental, e de novo risadinhas dos circunstantes. O dia em que, não conhecendo (e não a tendo achado no dicionariozinho) a palavra para designar “sacola”, limitou-se a apontá-la para a caixa do supermercado, a qual ficou imensamente transtornada e começou a discursar, em volume audível de Hallensee a Wannsee:

– Das ist kein dah-dah-dah-dah! Das ist kein buh-buh-buh-buh! Das is eine Tüte! Das ist eine Tüte! Das ist ein Tüüüüte, ja? Ja? Eine Tüüüüte!

É, mas o Tartamudo pelo menos se consola em saber que essa experiência fez com que ele jamais esqueça a importante palavra “Tüte”, agora indelevelmente gravada em sua memória. O suor frio já não lhe escorre tão profusamente da testa, em seu obscuro banquinho da Henriettenplatz. Sim, tudo isso é muito natural, não será isso que o desencorajará, um dia ele finalmente aprenderá a diferença entre welches, welche e welchem, um dia saberá pôr um verbo aqui e outro a duas milhas de distância, para isso vem estudando com afinco. Sim, irá à papelaria, pedirá as etiquetas, depois irá à loja de panelas, como lhe pediu sua mulher, para comprar a frigideira nova de que a casa precisa.

Em frente! — decide-se, com ânimo renovado, e se levanta altaneiro do banco da Henriettenplatz. Mas, mas… Mas que é isto que lhe renova a palidez da fronte e lhe traz de volta suores frios e o faz outra vez cambalear, apalpando nervosamente o dicionário? Sim, panela lembra fogão e fogão lembra o homem do fogão. O homem do fogão, que veio consertar, faz alguns dias, o forno quebrado. Que medo lhe traz a lembrança do homem do fogão, que se recusou a falar devagar e, quanto mais lhe pediam desculpas por não saberem alemão direito, mais berrava “kaputt, kaputt!” e saiu sem consertar forno nenhum, parecendo que ia sacar uma metralhadora da maleta de ferramentas, caso insistissem.

Não, não, o homem do fogão podia ter algum parente na loja de panelas. O Tartamudo não ousou arriscar-se outra vez. Melhor voltar para casa, estudar mais um pouco, quem sabe amanhã decoraria bem “mit Luftpost” e “eine Pfanne, bitte”? Voltou para casa, pegou o livrinho de alemão para estudar e foi interrompido pelo telefonema de um amigo, a quem se queixou de que Berlim não era mais a mesma, parecia que agora tinha raiva de estrangeiros.

– Que nada — disse ele, que é berlinense de nascença. — É raiva de alemão mesmo.

Alemão do outro lado.

– Como, raiva de alemão? E eu por acaso pareço alemão?

– Não, mas pode parecer polonês, romeno, húngaro, iugoslavo… Aqui virou tudo a mesma coisa. Você vai ter que se acostumar com isso, são novos tempos.
O Tartamudo do Ku’damm desligou o telefone com um sorriso maquiavélico nos lábios.

Ah, então era assim, não era? Muito bem, se o consideravam um inimigo, seria um inimigo.

– Mulher — disse ele, entrando na sala onde ela assistia (sem entender nada, mas com dedicação) a um programa da ZDF. — Resolvi assumir. Não é isso o que eles querem? Amanhã mesmo, compro um Trabant e vou à luta.

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