Os abismos do esquecimento – Crônica de Fernando Sabino

A conversa corria amena naquela casa, enquanto os três casais tomavam um aperitivo, aguardando o jantar. Foi quando um dos convidados pediu silêncio e comunicou que iria contar um caso sensacional. Exatamente assim:

— Atenção todo mundo, calem a boca que eu vou contar um caso sensacional.

Todo mundo se calou. Ele começou o seu caso dizendo que havia comprado uma filmadora super-8 marca “Canon”. O outro convidado encaixou logo um comentário:

— Boa câmera. Mas a melhor é aquela francesa, como é mesmo que se chama?

— Eu sei — tornou o primeiro, aborrecido: — Aliás, é a que eu pretendia comprar, só que não encontrei. Chama-se… Espera que eu já te digo.

Ficaram os dois concentrados, à procura do nome esquecido. As mulheres ameaçaram começar uma conversa à parte, mas foram fulminadas pelo olhar de um deles. Resolveram colaborar, prestimosas:

— Estou com o nome aqui na ponta da língua — disse uma.

— Kodak — disse outra.

— Calem a boca — cortou um dos homens, e voltou-se para o dono da casa: — Você também já andou lidando com super-8, deve saber.

— Estou cansado de saber. Uma câmera francesa. Tem super-8 e tem de 16. Se não me engano, tem até de 35. Só que não consigo me lembrar.

E os três em silêncio, revirando a memória pelo avesso, como se o destino de cada um dependesse daquela palavra perdida. Um deles se dirigiu resolutamente ao telefone e ficou tentando em vão localizar algum amigo que os ajudasse a desencalhar a conversa:

— O Marcos Vasconcelos deve saber.

Dali por diante nada mais conversaram, e o jantar transcorreu em silêncio, entrecortado apenas pelo queixume das mulheres:

— Que coisa mais sem graça…

— Por que vocês não desistem?

— Parecem três idiotas.

O dono da casa, boca aberta e olhos cravados no ar, parecia mesmo um débil mental. Acabou deixando escapar, com voz roufenha:

— Parece com o nome de um escritor francês… Começa com B.

— Balzac! — exclamou, triunfante, uma das mulheres. — Os três homens a olharam, intrigados, como se estivessem diante de um estranho animal. Já não comiam: tendo perdido o apetite, imóveis como estátuas em suas cadeiras, cada um em posição mais extravagante que a do outro, pareciam siderados pela angustiosa busca nos abismos do esquecimento. A certa altura um deles levou lentamente as duas mãos à cabeça e saiu caminhando como se carregasse uma abóbora, foi trancar-se no banheiro. Molhou o rosto, e olhou-se ao espelho, enquanto forçava a memória como se quisesse expelir da mente um corpo estranho. Soltou um suspiro de desistência e simultaneamente viu seu rosto iluminar-se num sorriso: acabava de surpreender a palavra passando fugaz pelo fundo da memória, por pouco não a segurou pelo rabo como a uma lagartixa. Só ficou na lembrança uma sílaba:

— Bô… Bô…

Saiu do banheiro às pressas, para comunicar aos outros dois:

— Bô! Bô! Bô! – repetia, a instigá-los, sacudindo os punhos cerrados no ar: — Começa com bô!

— Isto! Isto! — saltou um deles, excitado.

— Boileau? — arriscou-se o outro.

— Quase! Boileau é o escritor francês.

Deixou-se cair na cadeira, exausto. De súbito se abriu num sorriso beatífico e os outros dois viram sair de sua boca, como numa história em quadrinhos, um balãozinho com a palavra procurada, em letras de ar. Saltaram sobre ele:

— Fala! Fala!

Ele pediu calma com as mãos espalmadas para a frente, respirou fundo, limpou a garganta e falou de mansinho:

— Beaulieu…

Sentiu como se tivesse feito um gol, saudado num só grito pelos outros dois.

Serenados os ânimos, pediram ao dono da câmera que contasse enfim o seu caso sensacional. Mas ele confessou que não podia: havia se esquecido.

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