Sob o céu de Saigon – Conto de Caio Fernando Abreu

Para Regina Valladares Ele era um desses rapazes que, aos sábados, com a barba por fazer, sobem ou descem a rua Augusta. Aos sábados quase sempre à tarde, pois pelos óculos muito escuros e o rosto um tanto amassado por baixo da barba crescida, quem olhasse para um deles mais detidamente, mas poucos o fazem, … Ler mais

Os sapatinhos vermelhos – Conto de Caio Fernando Abreu

Para Silvia Simas – Dançarás ― disse o anjo. ― Dançarás com teus sapatos vermelhos. . Dançarás de porta em porta.. Dançarás, dançarás sempre. Andersen, “Os sapatinhos vermelhos” Tinha terminado, então. Porque a gente, alguma coisa dentro da gente, sempre sabe exatamente quando termina – ela repetiu olhando-se bem nos olhos, em frente ao espelho. … Ler mais

O dia que Urano entrou em Escorpião – Conto de Caio Fernando Abreu

(Velha história colorida) Para Zé e Lygia Sávio Teixeira e para Lucrécia (Luc Ziz ou César Esposito) Estavam todos mais ou menos em paz quando o rapaz de blusa vermelha entrou agitado e disse que Urano estava entrando em Escorpião. Os outros três interromperam o que estavam fazendo e ficaram olhando para ele sem dizer … Ler mais

Sargento Garcia – Conto de Caio Fernando Abreu

À memória de Luiza Felpuda 1 – Hermes.. ― O rebenque estalou contra a madeira gasta da mesa. Ele repetiu mais alto, quase gritando, quase com raiva: ― Eu chamei Hermes. Quem é essa lorpa? Avancei do fundo da sala. – Sou eu. – Sou eu, meu sargento. Repita. Os outros olhavam, nus como eu. … Ler mais

O coração de Alzira – Conto de Caio Fernando Abreu

Pois que ele era uma pessoa e ela outra, descobriu de repente, afastando as cortinas. E eu que quis fazer de mim algo tão claro como um rio sem profundidade, disse para si mesma, em distração colocando em movimento os átomos de poeira. Curvou-se até o chão para apanhar um grampo. Quando se curvava assim, … Ler mais

Ao simulacro da Imagerie – Conto de Caio Fernando Abreu

Lo que importa es la no-ilusión. La mañana nace. Frida Kahlo, Diários O céu tão azul lá fora, e aquele mal-estar aqui dentro. Fora: quase novembro, a ventania de primavera levando para longe os últimos maus espíritos do inverno, cheiro de flores em jardins remotos, perfume das primeiras mangas maduras, morangos perdidos entre o monóxido … Ler mais

Aconteceu na Praça XV – Conto de Caio Fernando Abreu

Como uma personagem de Tânia Faillace: os restos da escassa dignidade do dia apodreciam entre o cheiro de pastéis, os encontrões e os ônibus da Praça XV. Não era uma personagem de ninguém, embora às vezes, mais por comodismo ou para não sentir-se desamparado como obra de autor anônimo, quisesse achar que sim. Mas à … Ler mais

Uma história de Borboletas – Conto de Caio Fernando Abreu

André enlouqueceu ontem à tarde. Devo dizer que também acho um pouco arrogante de minha parte dizer isso assim – enlouqueceu -, como se estivesse perfeitamente seguro não só da minha sanidade mas também da capacidade de julgar a sanidade alheia. Como dizer então? Talvez: André começou a comportar-se de maneira estranha, por exemplo? ou … Ler mais

Iniciação – Conto de Caio Fernando Abreu

Foi numa dessas manhãs sem sol que percebi o quanto já estava dentro do que não suspeitava. E a tal ponto que tive a certeza súbita que não conseguiria mais sair. Não sabia até que ponto isso seria bom ou mau — mas de qualquer forma não conseguia definir o que se fez quando comecei … Ler mais

Fragmentos disso que chamamos de “minha vida” – Conto de Caio Fernando Abreu

Há alguns anos. Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro. Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou … Ler mais

Existe sempre uma coisa ausente – Conto de Caio Fernando Abreu

Paris — Toda vez que chego a Paris tenho um ritual particular. Depois de dormir algumas horas, dou uma espanada no rodenirterceiromundista e vou até Notre-Dame. Acendo vela, rezo, fico olhando a catedral imensa no coração do Ocidente. Sempre penso em Joana d’Arc, heroína dos meus remotos 12 anos; no caminho de Santiago de Compostela, … Ler mais

Vagina Dentada – Conto de Caio Fernando Abreu

Rolar de rir ou chorar, eu deveria, mas tinha desaprendido essas coisas. Talvez então pudesse acender uma vela, correr até a igreja da Consolação, rezar um Pai Nosso, uma Ave Maria e uma Glória ao Pai, tudo que eu lembrava, depois enfiar algum trocado, se tivesse, e nos últimos meses nunca, na caixa de metal “Para as Almas do Purgatório”. Agradecer, pedir luz, como nos tempos em que tinha fé.