A rosa desfolhada – Vinícius de Moraes

Tento compor o nosso amor Dentro da tua ausência Toda a loucura, todo o martírio De uma paixão imensa Teu toca-discos, nosso retrato Um tempo descuidado Tudo pisado, tudo partido Tudo no chão jogado E em cada canto Teu desencanto Tua melancolia Teu triste vulto desesperado Ante o que eu te dizia E logo o … Ler mais

A vida vivida – Poema de Vinícius de Moraes

Rio de Janeiro, 1938 Quem sou eu senão um grande sonho obscuro em face do Sonho Senão uma grande angústia obscura em face da Angústia Quem sou eu senão a imponderável árvore dentro da noite imóvel E cujas presas remontam ao mais triste fundo da terra? De que venho senão da eterna caminhada de uma … Ler mais

A Verlaine – Poema de Vinícius de Moraes

Em memória de uma poesia Cuja iluminação maldita Lembra a da estrela que medita Sobre a putrefação do dia: Verlaine, pobre alma sem rumo Louco, sórdido, grande irmão Do sangue do meu coração Que te despreza e te compreende Humildemente se desprende Esta rosa para o teu túmulo. Rio de Janeiro, 1954 1.153 Visualizações

Balada da moça do Miramar – Vinícius de Moraes

Silêncio da madrugada No Edifício Miramar… Sentada em frente à janela Nua, morta, deslumbrada Uma moça mira o mar. Ninguém sabe quem é ela Nem ninguém há de saber Deixou a porta trancada Faz bem uns dois cinco dias Já começa a apodrecer Seus ambos joelhos de âmbar Furam-lhe o branco da pele E a … Ler mais

A você, meu caro Millôr Fernandes – Poema de Vinícius de Moraes

A você, meu caro Millôr Fernandes (Poeta íntimo, homem triste, grande humorista, mais conhecido por Vão Gôgo E às vezes […] ) A você que me pede o poema da minha tão sonhada volta ao Rio Eu direi humildemente: faço. Não é fácil, mas faço. Sem dúvida melhor fora Sair por aí transpirando e sonâmbulo, … Ler mais

O Mosquito – Poema de Vinícius de Moraes

Rio de Janeiro , 1970 O mundo é tão esquisito: Tem mosquito. Por que, mosquito, por que Eu… e você? Você é o inseto Mais indiscreto Da Criação Tocando fino Seu violino Na escuridão. Tudo de mau Você reúne Mosquito pau Que morde e zune. Você gostaria De passar o dia Numa serraria — Gostaria? … Ler mais

A primeira namorada – Vinícius de Moraes

Tu me beijaste, Coisa Triste Justo durante a elevação Depois, impávida, partiste A receber a comunhão. Tinhas apenas seis ou sete E isso ou pouco mais eu tinha E tinha mais: tinhas topete! – Por que partiste, Coisa Minha? Foi numa missa da matriz De Botafogo. Eu disse: “Cruz! Como é que ela vai agora … Ler mais

A hora íntima – Vinícius de Moraes

Quem pagará o enterro e as flores Se eu me morrer de amores? Quem, dentre amigos, tão amigo Para estar no caixão comigo? Quem, em meio ao funeral Dirá de mim: – Nunca fez mal… Quem, bêbedo, chorará em voz alta De não me ter trazido nada? Quem virá despetalar pétalas No meu túmulo de … Ler mais

A rosa de Hiroxima – Vinícius de Moraes

Pensem nas crianças Mudas telepáticas Pensem nas meninas Cegas inexatas Pensem nas mulheres Rotas alteradas Pensem nas feridas Como rosas cálidas Mas oh não se esqueçam Da rosa da rosa Da rosa de Hiroxima A rosa hereditária A rosa radioativa Estúpida e inválida A rosa com cirrose A antirrosa atômica Sem cor sem perfume Sem … Ler mais

A bomba atômica – Vinícius de Moraes

e = mc2 Einstein Deusa, visão dos céus que me domina … tu que és mulher e nada mais! (Deusa, valsa carioca.) Dos céus descendo Meu Deus eu vejo De paraquedas? Uma coisa branca Como uma forma De estatuária Talvez a forma Do homem primitivo A costela branca! Talvez um seio Despregado à lua Talvez … Ler mais

A música das almas – Vinícius de Moraes

Le mal est dans le monde comme un esclave qui monte l’eau. Claudel Na manhã infinita as nuvens surgiram como a loucura numa alma E o vento como o instinto desceu os braços das árvores que estrangularam a terra… Depois veio a claridade, o grande céu, a paz dos campos… Mas nos caminhos todos choravam … Ler mais

A Cidade Antiga – Vinícius de Moraes

Houve tempo em que a cidade tinha pêlo na axila E em que os parques usavam cinto de castidade As gaivotas do Pharoux não contavam em absoluto Com a posterior invenção dos kamikazes De resto, a metrópole era inexpugnável Com Joãozinho da Lapa e Ataliba de Lara. Houve tempo em que se dizia: LU-GO-LI-NA U, … Ler mais