A espantosa ode a São Francisco de Assis – Vinícius de Moraes

1 Meu são Francisco de Assis, Francisco de Assim, poverello, ou como te chame a sabedoria dos povos e dos homens Este é Vinicius de Moraes, de quem se podia dizer – o poeta – se jamais alguém o pudesse ser depois de ti. 2 Este é o impuro, o inconstante, o trágico, o leproso … Ler mais

Invocação à mulher única – Vinícius de Moraes

Tu, pássaro – mulher de leite! Tu que carregas as lívidas glândulas do amor acima do sexo infinito Tu, que perpetuas o desespero humano – alma desolada da noite sobre o frio das águas – tu Tédio escuro, mal da vida – fonte! jamais… jamais… (que o poema receba as minhas lágrimas!…) Dei-te um mistério: … Ler mais

Bilhete a Baudelaire – Vinícius de Moraes

Poeta, um pouco à tua maneira E para distrair o spleen Que estou sentindo vir a mim Em sua ronda costumeira Folheando-te, reencontro a rara Delícia de me deparar Com tua sordidez preclara No velha foto de Carjat Que não revia desde o tempo Em que te lia e te relia A ti, a Verlaine, … Ler mais

Soneto do amor como um rio – Vinícius de Moraes

Este infinito amor de um ano faz Que é maior do que o tempo e do que tudo Este amor que é real, e que, contudo Eu já não cria que existisse mais. Este amor que surgiu insuspeitado E que dentro do drama fez-se em paz Este amor que é o túmulo onde jaz Meu … Ler mais

A brusca poesia da mulher amada – Vinícius de Moraes

Longe dos pescadores os rios infindáveis vão morrendo de sede lentamente… Eles foram vistos caminhando de noite para o amor – oh, a mulher amada é como a fonte! A mulher amada é como o pensamento do filósofo sofrendo A mulher amada é como o lago dormindo no cerro perdido Mas quem é essa misteriosa … Ler mais

Balada das meninas de bicicleta – Vinícius de Moraes

Meninas de bicicleta Que fagueiras pedalais Quero ser vosso poeta! Ó transitórias estátuas Esfuziantes de azul Louras com peles mulatas Princesas da zona sul: As vossas jovens figuras Retesadas nos selins Me prendem, com serem puras Em redondilhas afins. Que lindas são vossas quilhas Quando as praias abordais! E as nervosas panturrilhas Na rotação dos … Ler mais

Balada do mangue – Vinícius de Moraes

Oxford Pobres flores gonocócicas Que à noite despetalais As vossas pétalas tóxicas! Pobre de vós, pensas, murchas Orquídeas do despudor Não sois Lœlia tenebrosa Nem sois Vanda tricolor: Sois frágeis, desmilingüidas Dálias cortadas ao pé Corolas descoloridas Enclausuradas sem fé, Ah, jovens putas das tardes O que vos aconteceu Para assim envenenardes O pólen que … Ler mais

Soneto da rosa – Vinícius de Moraes

Mais um ano na estrada percorrida Vem, como o astro matinal, que a adora Molhar de puras lágrimas de aurora A morna rosa escura e apetecida. E da fragrante tepidez sonora No recesso, como ávida ferida Guardar o plasma múltiplo da vida Que a faz materna e plácida, e agora Rosa geral de sonho e … Ler mais

Canção para a amiga dormindo – Vinícius de Moraes

Dorme, amiga, dorme Teu sono de rosa Uma paz imensa Desceu nesta hora. Cerra bem as pétalas Do teu corpo imóvel E pede ao silêncio Que não vá embora. Dorme, amiga, o sono Teu de menininha Minha vida é a tua Tua morte é a minha. Dorme e me procura Na ausente paisagem… Nela a … Ler mais

Soneto da mulher inútil – Poema de Vinícius de Moraes

De tanta graça e de leveza tanta Que quando sobre mim, como a teu jeito Eu tão de leve sinto-te no peito Que o meu próprio suspiro te levanta. Tu, contra quem me esbato liquefeito Rocha branca! brancura que me espanta Brancos seios azuis, nívea garganta Branco pássaro fiel com que me deito. Mulher inútil, … Ler mais

Balada do enterrado vivo – Vinícius de Moraes

Na mais medonha das trevas Acabei de despertar Soterrado sob um túmulo. De nada chego a lembrar Sinto meu corpo pesar Como se fosse de chumbo. Não posso me levantar Debalde tentei clamar Aos habitantes do mundo. Tenho um minuto de vida Em breve estará perdida Quando eu quiser respirar. Meu caixão me prende os … Ler mais

Soneto de contrição – Vinícius de Moraes

Eu te amo, Maria, eu te amo tanto Que o meu peito me dói como em doença E quanto mais me seja a dor intensa Mais cresce na minha alma teu encanto. Como a criança que vagueia o canto Ante o mistério da amplidão suspensa Meu coração é um vago de acalanto Berçando versos de … Ler mais