Tag Archives: Poesia de Carlos Drummond de Andrade

O que se passa na cama – Poema de Carlos Drummond de Andrade

(O que se passa na camaé segredo de quem ama.)É segredo de quem amanão conhecer pela rama gozo que seja profundo,elaborado na terrae tão fora deste mundoque o corpo, encontrando o corpoe por ele navegando,atinge a paz de outro horto,noutro mundo: paz de morto,nirvana, sono do pênis. Ai, cama canção de cuna,dorme, menina, nanana,dorme onça… Read More »

O Amor antigo – Poema de Carlos Drummond de Andrade

O amor antigo vive de si mesmo,não de cultivo alheio ou de presença.Nada exige, nem pede. Nada espera,mas do destino vão nega a sentença. O amor antigo tem raízes fundas,feitas de sofrimento e de beleza.Por aquelas mergulha no infinito,e por estas suplanta a natureza. Se em toda parte o tempo desmoronaaquilo que foi grande e… Read More »

Necrológio dos desiludidos do amor – Poema de Carlos Drummond de Andrade

Os desiludidos do amorestão desfechando tiros no peito.Do meu quarto ouço a fuzilaria.As amadas torcem-se de gozo.Oh quanta matéria para os jornais. Desiludidos mas fotografados,escreveram cartas explicativas,tomaram todas as providênciaspara o remorso das amadas.Pum pum pum adeus, enjoada.Eu vou, tu ficas, mas nos veremosseja no claro céu ou turvo inferno. Os médicos estão fazendo a… Read More »

Canção da Moça-Fantasma de Belo Horizonte – Poema de Carlos Drummond de Andrade

Eu sou a Moça-Fantasmaque espera na Rua do Chumboo carro da madrugada.Eu sou branca e longa e fria, a minha carne é um suspirona madrugada da serra.Eu sou a Moça-Fantasma. O meu nome era Maria,Maria-Que-Morreu-Antes. Sou a vossa namoradaque morreu de apendicite,no desastre de automóvelou suicidou-se na praiae seus cabelos ficaramlongos na vossa lembrança.Eu nunca… Read More »

A Moça que Mostrava a Coxa – Poema de Carlos Drummond de Andrade

A moça mostrava a coxa, a moça mostrava a nádega, só não mostrava aquilo – concha, berilo, esmeralda – que se entreabre, quatrifólio, e encerrra o gozo mais lauto, aquela zona hiperbórea, misto de mel e de asfalto, porta hermética nos gonzos de zonzos sentidos presos, ara sem sangue de ofícios, a moça não me… Read More »

Brinde no banquete das musas – Poema de Carlos Drummond de Andrade

Poesia, marulho e náusea, poesia, canção suicida, poesia, que recomeças de outro mundo, noutra vida Deixaste-nos mais famintos, poesia, comida estranha, se nenhum pão te equivale: a mosca deglute a aranha. Poesia sobre os princípios e os vagos dons do universo: em teu regaço incestuoso, o belo câncer do verso. Poesia, sobre o telúrio, reintegra… Read More »

Consolo na Praia – Poema de Carlos Drummond de Andrade

Vamos, não chores. A infância está perdida. A mocidade está perdida. Mas a vida não se perdeu. O primeiro amor passou. O segundo amor passou. O terceiro amor passou. Mas o coração continua. Perdeste o melhor amigo. Não tentaste qualquer viagem. Não possuis carro, navio, terra. Mas tens um cão. Algumas palavras duras, em voz… Read More »

Papai Noel às Avessas – Poema de Carlos Drummond de Andrade

Papai Noel entrou pela porta dos fundos (no Brasil as chaminés não são praticáveis), entrou cauteloso que nem marido depois da farra. Tateando na escuridão torceu o comutador e a eletricidade bateu nas coisas resignadas, coisas que continuavam coisas no mistério do Natal. Papai Noel explorou a cozinha com olhos espertos, achou um queijo e… Read More »

Tarde de Maio – Poema de Carlos Drummond de Andrade

Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos, assim te levo comigo, tarde de maio, quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra, outra chama, não perceptível, tão mais devastadora, surdamente lavrava sob meus traços cômicos, e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes e condenadas, no… Read More »