O fim do mundo – Crônica de Cecília Meireles

A primeira vez que ouvi falar no fim do mundo, o mundo para mim não tinha nenhum sentido, ainda; de modo que não me interessava nem o seu começo nem o seu fim. Lembro-me, porém, vagamente, de umas mulheres nervosas que choravam, meio desgrenhadas, e aludiam a um cometa que andava pelo céu, responsável pelo … Ler mais

Professores de inglês – Crônica de Cecília Meireles

Hoje qualquer pessoa pode aprender inglês com a maior facilidade: há institutos e cursos especializados, livros que dispensam professor, aulas pelo rádio e pela televisão, métodos tão modernos que nem me atrevo a descrever, com medo de me sentir inatual. Mas houve um tempo em que não era assim: os professores de inglês eram difíceis … Ler mais

Horóscopo – Cecília Meireles

Deviam ser Venus e Júpiter, sim, que ao menos, ao menos, olhassem por mim, gerando caminhos claros e serenos por onde passar quem vinha nutrida de secretos vinhos, perdida, perdida, de amor e pensar. Saturno, porém, Saturno, o sombrio, se precipitou. Não sabe ninguém que rio, que rio de luto circunda a terra profunda que … Ler mais

Noturno – Cecília Meireles

Volto a cabeça para a montanha e abandono os pés para o mar. — Coitado de quem está sozinho e inventa sonhos com que sonhar! Minhas tranças descem pela casa abaixo, entram nas paredes, vão te procurar. Envolvem teu corpo, beijam-te os ouvidos. — Querido, querido, devias voltar. Meus braços caminham pelas ruas quietas: — … Ler mais

Estrela – Cecília Meireles

Quem viu aquele que se inclinou sôbre palavras trémulas, de relêvo partido e de contôrno perturbado, querendo achar lá dentro o rôsto que dirige os sonhos, para ver si era o seu que lhe tivessem arrancado? Quem foi que o viu passar com sues ímãs insones, buscando o polo que girava sempre no vento? — … Ler mais

Gargalhada – Cecília Meireles

Homem vulgar! Homem de coração mesquinho! eu te quero ensinar a arte sublime de rir. Dobra essa orelha grosseira, e escuta o ritmo e o som da minha gargalhada: Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Não vês? É preciso jogar por escadas de mármore baixelas de ouro. Rebentar colares, partir espêlhos, quebrar cristais, … Ler mais

Conveniência – Cecília Meireles

Convém que o sonho tenha margens de nuvens rápidas e os pássaros não se expliquem, e os velhos andem pelo sol, e os amantes chorem, beijando-se, por algum infanticídio Convém tudo isso, e muito mais, e muito mais… E por êsse motivo aqui vou, como os papéis abertos que caem das janelas dos sobrados, tontamente… … Ler mais

A Última Cantiga – Cecília Meireles

NUM dia que não se adivinha, meus olhos assim estarão: e há de dizer-me: «Era a expressão que ela ùltimamente tinha.» Sem que se mova a minha mão nem se incline a minha cabeça nem a minha bôca estremeça, — toda serei recordação. Meus pensamentos sem tristeza de novo se debruçarão entre o acabado coração … Ler mais