Não há Vagas – Ferreira Gullar

O preço do feijãonão cabe no poema.O preço do arroznão cabe no poema. Não cabemno poema o gása luz o telefonea sonegaçãodo leiteda carnedo açúcardo pão O funcionário públiconão cabe no poemacom seu salário de fomesua vida fechadaem arquivos.Como não cabe no poemao operárioque esmerilaseu dia de açoe carvãonas oficinas escuras — porque o poema,senhores,está … Ler mais

Praia do caju – Ferreira Gullar

Escuta:o que passou passoue não há forçacapaz de mudar isto.Nesta tarde de férias,disponível, podes,se quiseres, relembrar.Mas nada acenderáde novo o lume quena carne das horas se perdeu.Ah, se perdeu!Nas águas da piscinase perdeusob as folhas da tardenas vozesconversando na varandano riso de Maríliano vermelho guarda-solesquecido na calçada.O que passou passoue, muito embora,voltas às velhas ruas … Ler mais

O artista surge não da loucura, mas apesar dela – Ferreira Gullar

O Instituto Junguiano, em homenagem à dra. Nise da Silveira, promoveu uma série de debates, no Rio, sobre a sua obra generosa e inovadora no campo da psiquiatria. Tive nisso uma participação mínima porque o chofer encarregado de levar-me até o local do evento desconhecia as ruas de Botafogo e, por essa razão, rodou comigo … Ler mais

Não basta ter razão – Artigo de Ferreira Gullar

Não tem cabimento demonizar o populismo, ainda que ele contenha inevitavelmente contradições que podem levá-lo ao impasse. É inegável, porém, que ele parte da constatação de que a sociedade é, sem dúvida alguma, desigual. Há uma minoria rica, uma classe média de alguns recursos e – particularmente em países com o nosso – uma maioria … Ler mais

Quisera ser um gato – Crônica de Ferreira Gullar

Fora os fantasmas que me acompanham e me fazem refletir sobre o sentido da vida, vivo eu, neste apartamento, com uma gatinha siamesa. Que é linda, não preciso dizer, mas, além disso, é especial: quase nunca mia e, quando soa a campainha da porta, se arranca. Nem eu sei onde ela se esconde. Ela é, … Ler mais

Lembrando por lembrar – Artigo de Ferreira Gullar

Li outro dia uma matéria acerca da luta da intelectualidade contra a ditadura militar e, nela, não havia qualquer referência ao Grupo Opinião, que teve papel relevante nessa luta. Não vejo qualquer má-fé nessa omissão, mesmo porque o entrevistado, por sua idade, não poderia ter participado daquela luta, iniciada no mesmo ano do golpe, isto … Ler mais

Presença de Clarice – Crônica de Ferreira Gullar

Meu primeiro encontro com Clarice Lispector foi numa tarde de domingo na casa da escultora Zélia Salgado, em Ipanema, creio que em 1956. Eu havia lido, quando ainda vivia em São Luís, o seu romance “O Lustre”, que me deixara impressionado pela atmosfera estranha e envolvente, mas a impressão que me causou sua figura de … Ler mais

Canção de preferência – Poema de Ferreira Gullar

Não quero teus seios túmidos de desejos maternais. Se teus seios são redondos, há muitos outros iguais. Não quero teus lábios úmidos (beijos, carícias, corais). Se teus lábios são vermelhos, existem lábios iguais. Não desejo teus cabelos – lembranças de vendavais – Se teus cabelos são belos, sei de cabelos iguais. Não, não desejo teu … Ler mais

Subversiva – Poema de Ferreira Gullar

A poesia quando chega não respeita nada. Nem pai nem mãe. Quando ela chega de qualquer de seus abismos desconhece o Estado e a Sociedade Civil infringe o Código de Águas relincha como puta nova em frente ao Palácio da Alvorada. E só depois reconsidera: beija nos olhos os que ganham mal embala no colo … Ler mais

Estranheza do Mundo – Poema de Ferreira Gullar

Olho a árvore e indago: está aí para quê? O mundo é sem sentido quanto mais vasto é. Esta pedra esta folha este mar sem tamanho fecham-se em si, me repelem. Pervago em um mundo estranho. Mas em meio à estranheza do mundo, descubro uma nova beleza com que me deslumbro: é teu doce sorriso … Ler mais

Nova Canção do Exílio – Ferreira Gular

Minha amada tem palmeiras Onde cantam passarinhos e as aves que ali gorjeiam em seus seios fazem ninhos Ao brincarmos sós à noite nem me dou conta de mim: seu corpo branco na noite luze mais do que o jasmim Minha amada tem palmeiras tem regatos tem cascata e as aves que ali gorjeiam são … Ler mais