Jardim de Flores – Conto de Rubem Fonseca

By | 29/01/2022

Nunca consegui seduzir uma mulher usando palavras, como todos fazem. Eu sempre gaguejo. Sabia tudo o que eu ia dizer, mas nem uma palavra correta saía da minha boca.

Decidi ir a um psicanalista.

Ele se chamava Max, tinha um cavanhaque e, coisa estranha, usava um pincenê, como se fosse um instrumento de pesquisa para penetrar a alma dos pacientes.

Contei ao doutor Max o que acontecia comigo.

“Sabe quem controla a nossa maneira de agir?”, ele perguntou. “Não.”

“É a nossa mente. Você quando se aproxima de uma mulher fica ansioso. Sabe o que é ansiedade?”, ele perguntou, fazendo com o pincenê uma espécie de escrutínio da minha mente.

“Não.”

“É um transtorno motivado pela aflição causada pela incerteza. Você fica perturbado com medo de que a mulher não goste de você. Em 15 sessões, ou no máximo em trinta, eu acabo com essas suas reações patológicas.”

As sessões eram diárias. Depois de um mês ele disse que eu estava plenamente curado, eu devia me aproximar de uma mulher e tentar seduzi-la com palavras.

Foi algo catastrófico. Eu gaguejei, tartamudeei e cheguei a cuspir na mulher. Eu tinha medo das mulheres. Não adiantava ir ao psicanalista.

Decidi que precisava reagir. E reagi.

Usei um método que creio ter visto na TV ou no cinema. Comprei uma espécie de bengala, dessas que as pessoas deficientes usam. E já tinha uma Kombi.

Fiquei na Zona Sul, numa rua grã-fina mas deserta, esperando a ocasião propícia. Eu levava um monte de livros sob o braço.

Avistei uma mulher de uns trinta anos, bonita, sozinha. Passei perto dela e deixei cair uns livros.

A mulher pegou os livros que estavam no chão.

“Muito obrigado”, eu disse. E, milagre, não estava gaguejando. “Para onde o senhor está indo?”, ela perguntou.

“Para o meu carro, aquela Kombi. A senhora podia abrir a porta do carro para mim?” “Claro”, disse ela.

Dei-lhe as chaves.

Ela abriu a porta da Kombi.

Dei um golpe forte na sua cabeça. Ela perdeu os sentidos e eu a joguei dentro da Kombi.

Entrei, coloquei uma espécie de mordaça em sua boca e algemas de plástico nos seus pulsos e nas pernas.

Levei-a para a minha casa. Ainda não contei que morava sozinho em uma casa grande, no Alto da Boa Vista, cercada de jardins e de bosques. Todos que moravam comigo, pai, mãe, uma irmã, morreram. Eu devia ter me mudado, mas não me mudei, eu gostava muito das flores do jardim.

Na garagem da minha casa, tirei a mulher de dentro da Kombi. Levei-a para o meu quarto. Deitei-a na minha cama. Tirei toda a sua roupa, deixando apenas a mordaça.

“Como é o seu nome?”, perguntei, tirando a mordaça. Eu não gaguejava mais.

“Salete”, ela respondeu.

“Sou virgem, nunca copulei”, segredei no ouvido dela.

Salete ficou imóvel, como se estivesse morta. Vou confessar uma coisa. Não foi bom como dizem.

Bom foi depois.

Como dizia o padre que frequentava a nossa casa quando eu era criança, está escrito em Provérbios: se você quer ficar sempre livre de problemas e sofrimento, fale o mínimo possível e tome sempre cuidado com suas palavras.

Por isso não falei mais nada. Apertei o pescoço da Salete com força. Isso sim é que foi bom. Sentir que eu tinha o poder de vida ou morte.

* * *

Durante mais de dois meses fiquei tranquilo. Cuidando das flores do meu jardim. Eu gosto de plantar fores, é verdade que sempre me firo com os espinhos das rosas, mas elas são tão bonitas… Dizia a minha mãe que a gente deve começar a ter um jardim plantando rosas. É simples. Basta revolver o solo para que as roseiras possam espalhar suas raízes à medida que crescem e depois cavar os buracos onde vai plantar as suas roseiras. Os buracos precisam ficar distantes uns dos outros cerca de sessenta centímetros e devem ser cobertos de fertilizantes. Eu planto rosas de uma cor chamada brilhante, uma cor intermediária entre magenta e vermelho.

Vou contar um segredo. Esse último jardim de rosas que plantei deu rosas lindas. Sabem qual é o segredo? Eu enterrei o corpo de Salete no jardim, o corpo de Salete mostrou ser o melhor adubo que eu usara até então.

Eu planto também lírios, girassóis, gardênias, zínias, margaridas, tulipas e violetas. Não existe no mundo nada mais bonito do que flor.

Então, fui ficando nervoso, tomado por uma indocilidade que não me deixava dormir. Eu sabia o que era. Peguei os livros, enfaixei o braço e entrei na minha Kombi.

Tinha que ser um bairro diferente.

Felizmente esta é uma cidade grande, com muitos habitantes. Entrei na Kombi levando a minha bengala, a tipoia no pescoço, os livros, as algemas de plástico e a mordaça.

Foi fácil encontrar ao anoitecer, num local deserto, uma jovem bonita disposta a ajudar o homem com o braço na tipoia que deixara cair os livros no chão.

“Posso ajudá-lo?”

“Sim, por favor, abra a porta da minha Kombi.” O golpe fez a mulher desmaiar.

Chegando em casa levei-a para o meu quarto, tirei-lhe a mordaça e esperei que recobrasse os sentidos.

“Não se assuste”, eu disse quando ela me olhou com os olhos arregalados. “Nada de mau vai acontecer com você. Como é o seu nome?”

Ela demorou a responder. Afinal disse:

“Elvira.”

“Belo nome”, eu disse.

Agarrei-a pelo pescoço com as duas mãos e apertei com toda a minha força. Sentir que ela morria deu-me um prazer sublime.

Depois, fiquei pensando. Em que canteiro eu colocaria o corpo de Elvira? No de lírios? No de girassóis? No de gardênias? No de zínias? No de margaridas? No de tulipas? No de violetas?

Podia ser em qualquer um, não havia problema, nenhum dos canteiros seria prejudicado, matéria-prima não iria faltar.

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