O jogo do morto – Conto de Rubem Fonseca

By | 15/07/2022

Eles se reuniam no Bar do Anísio, todas as noites. Marinho, dono da principal farmácia da cidade, Fernando e Gonçalves, sócios num armazém, e Anísio. Nenhum deles era natural da cidade ou mesmo da Baixada. Anísio e Fernando eram mineiros e Marinho cearense. Gonçalves viera de Portugal. Eram pequenos comerciantes, prósperos e ambiciosos. Possuíam modestas casas de veraneio no mesmo condomínio na região dos lagos, eram do Lion’s, iam à igreja, levavam uma vida pacata. Tinham ainda em comum um grande interesse por todas as formas de jogo a dinheiro. Costumavam fazer apostas, entre eles, em jogos de cartas, jogos de futebol, corridas de cavalos, corridas de automóvel, concursos de misses, em tudo que fosse aleatório. Jogavam alto, mas nenhum deles costumava perder muito dinheiro, uma fase de perdas era sucedida quase sempre por uma de ganhos. Nos últimos meses, todavia, Anísio, o dono do bar, vinha perdendo continuadamente.

Jogavam cartas e bebiam cerveja na noite em que foi inventado o jogo do morto. Anísio inventou o jogo.

Aposto que o esquadrão este mês mata mais de vinte, ele disse. Fernando observou que mais de vinte era muito vago.

Aposto que o esquadrão mata vinte e um, este mês, disse Anísio. Só aqui na cidade ou em toda a Baixada?, perguntou Gonçalves.

Apesar de estar no Brasil há muitos anos seu sotaque ainda era forte.

Mil pratas que o esquadrão mata vinte e um, este mês, aqui em Meriti, insistiu Anísio.

Aposto que mata sessenta e nove, disse Gonçalves, rindo. Acho muito, disse Marinho.

Estou brincando, disse Gonçalves.

Brincando porra nenhuma, disse Anísio jogando a carta com força na mesa, falou está falado, azar de quem diz besteira, cansei de quebrar a cara assim.

Era verdade.

Vocês conhecem a história do português e do sessenta e nove?, perguntou Anísio. Foram explicar para o português o que era sessenta e nove; ele ficou horrorizado e disse — Meu Deus, que coisa mais nojenta, eu não faria isso nem com a minha mãezinha.

Todos riram, menos Gonçalves.

Sabe que esse jogo é bom?, disse Fernando. Mil pratas que o esquadrão mata uma dúzia. Ei Anísio! que tal um queijinho para acompanhar a cervejinha? E uma porção daquele salaminho?

Anota aí, disse Anísio para Marinho, que num livro de capa verde registrava as apostas, mais mil que dos meus vinte e um dez são mulatos, oito são pretos e dois são brancos.

Quem vai decidir quem é branco, preto ou mulato? Aqui é tudo misturado. E como vamos saber se quem matou foi mesmo o esquadrão?, perguntou Gonçalves.

O que sair em O Dia é que vale. Se disser que é preto, é preto, se disser que foi o esquadrão, foi o esquadrão. De acordo?, perguntou Marinho.

Outra milha que o mais moço dos meus tem dezoito anos e o mais velho vinte e seis, disse Anísio.

Nesse instante entrou no bar O Falso Perpétuo e logo os quatro parceiros se calaram. O Falso Perpétuo tinha cabelos lisos, negros, feições ossudas, o olhar impassível e nunca ria, igual ao Perpétuo Verdadeiro, um detetive famoso que haviam assassinado anos antes. Nenhum dos jogadores sabia o que O Falso Perpétuo fazia, talvez fosse apenas um bancário ou funcionário público, mas a presença dele, que vez por outra ia ao Bar do Anísio, sempre atemorizava os quatro amigos. Ninguém sabia o seu nome, sendo O Falso Perpétuo um apelido colocado por Anísio, que dizia haver conhecido o Verdadeiro.

Ele usava dois quarenta e cinco, um de cada lado da cintura, e a gente via a cartucheira largona em cima da calça. Tinha o hábito de ficar esfregando de leve, entre os dedos, as abas do paletó, como esses bebezinhos fazem com as fraldas, um sinal de alerta, estava sempre pronto para sacar as armas e atirava com as duas mãos. Para matarem ele, teve que ser pelas costas.

O Falso Perpétuo sentou-se e pediu uma cerveja, sem olhar para os jogadores, mas virando um pouco a cabeça, o pescoço retesado; talvez prestasse atenção ao que o grupo dizia.

Acho que é só impressão da gente, murmurou Fernando, e seja lá quem ele for, pra que ficarmos preocupados? Quem não deve não teme.

Não sei, não sei, disse Anísio pensativo. Passaram a jogar as cartas em silêncio, esperando O Falso Perpétuo ir embora.

No fim do mês, de acordo com O Dia, o esquadrão havia executado vinte e seis pessoas, sendo dezesseis mulatos, nove pretos e um branco, o mais novo tinha quinze anos, era egresso da Funabem, e o mais velho trinta e oito.

Vamos comemorar a vitória, disse Gonçalves para Marinho, que junto com ele havia ganho a maioria das apostas. Beberam cerveja, comeram queijo, presunto e pastéis.

Três meses de azar, disse Anísio soturno. Ele havia perdido também no pôquer, nos cavalos e no futebol; a lanchonete que comprara em Caxias estava dando prejuízo, seu crédito bancário piorava e a jovem mulher com quem se casara há pouco mais de seis meses gastava muito.

E agora vamos entrar em agosto, ele disse, o mês em que Getúlio deu o tiro no coração. Eu era garoto, trabalhava num bar da rua do Catete e vi tudo, o choro e os gritos, o povo desfilando diante do caixão, o corpo sendo transportado para o Santos Dumont, os soldados atirando de metralhadora na multidão. Se dei azar em julho, imaginem em agosto.

Então não aposta este mês, disse Gonçalves, que acabara de emprestar duzentos mil cruzeiros a Anísio.

Não, este mês eu pretendo recuperar parte do que perdi, disse Anísio com rancor.

Os quatro amigos, para o mês de agosto, ampliaram as regras do jogo. Além da quantidade, da idade e da cor dos mortos, foi acrescentada a naturalidade, o estado civil e a profissão. O jogo tornava-se complexo.

Acho que inventamos um jogo que vai ficar mais popular do que o jogo do bicho, disse Marinho. Já meio embriagados riram tanto que Fernando chegou a urinar nas calças.

O fim do mês se aproximava e Anísio, cada vez mais irritado, discutia frequentemente com os companheiros. Naquele dia ele estava mais exasperado e nervoso do que nunca e seus amigos esperavam, constrangidos, a hora de acabar a partida de cartas.

Quem topa um mano a mano comigo?, disse Anísio.

Mano a mano como?, perguntou Marinho, que de todos era o que ganhara mais vezes.

Aposto que o esquadrão este mês mata uma menina e um comerciante. Duzentas mil pratas.

Que loucura, disse Gonçalves, pensando no seu dinheiro e no fato de que o esquadrão jamais matava meninas e comerciantes.

Duzentos mil, repetiu Anísio, numa voz amarga, e você, Gonçalves, para de chamar os outros de malucos, maluco é você que deixou a sua terra para vir para este país de merda.

Eu topo, disse Marinho, essa você não tem chance de ganhar, já estamos quase no fim do mês.

Perto das onze horas os parceiros acabaram a partida e se despediram rapidamente.

Os garçons foram embora e Anísio ficou sozinho no bar. Nos outros dias ele corria para casa, para perto de sua jovem mulher. Mas naquele dia ele ficou sentado bebendo cerveja até pouco depois de uma da manhã, quando bateram na porta dos fundos.

O Falso Perpétuo entrou e sentou-se na mesa de Anísio.

Quer uma cerveja?, disse Anísio, evitando tratar O Falso Perpétuo de senhor ou de você, em dúvida quanto ao grau de respeito que devia lhe tributar.

Não. Qual é o assunto? O Falso Perpétuo falava baixo, uma voz macia, apática, indiferente.

Anísio relatou as apostas no jogo do morto que ele e os amigos faziam todos os meses. O visitante ouvia em silêncio, ereto na cadeira, as mãos apoiadas nas pernas; por instantes pareceu a Anísio que O Falso Perpétuo esfregava entre os dedos as abas do paletó, como o Verdadeiro, mas não, havia sido um engano.

Anísio começou a sentir-se mal com a suavidade do homem, talvez não passasse mesmo de um funcionário burocrático. Meu Deus, pensou Anísio, duzentos mil jogados fora, ia ter que vender a lanchonete de Caxias; inesperadamente pensou em sua jovem mulher, no seu corpo tépido e redondo.

O esquadrão tem que matar uma menina e um comerciante ainda este mês para eu sair do buraco, disse Anísio.

E o que é que eu tenho com isso? Suave.

Anísio se encheu de coragem; havia bebido muita cerveja, estava à beira da ruína e sentia-se mal, como se não pudesse respirar direito.

Acho que você é do esquadrão da morte. O Falso Perpétuo manteve-se insondável. Qual a proposta?

Dez mil se você matar uma menina e um comerciante. Você ou os seus colegas, para mim tanto faz.

Anísio suspirou, infeliz. Agora, que via o seu plano prestes a se realizar, uma sensação de fraqueza tomava conta do seu corpo.

Você tem o dinheiro aqui? Posso fazer o serviço hoje mesmo. Tenho em casa.

Por onde começo?

Os dois de uma vez. Alguma preferência?

Gonçalves, o dono do armazém, e a filha.

O galego seu amigo?

Ele não é meu amigo. Outro suspiro.

Que idade tem a filha dele?

Doze anos. A imagem da menina tomando refrigerante no bar surgia e desaparecia de sua cabeça, como uma pontada de dor.

Está bem, disse O Falso Perpétuo, me mostra a casa do galego. Anísio notou então que sobre o cinto da calça ele também usava um cinturão largo.

Entraram no carro de O Falso Perpétuo e rumaram para a casa de Gonçalves. Àquela hora a cidade estava deserta. Pararam a cinquenta metros da casa. Do cofre do painel O Falso Perpétuo tirou duas folhas de papelão onde desenhou, de forma tosca, duas caveiras com as iniciais E. M. embaixo.

Vai ser rápido, disse O Falso Perpétuo saindo do carro.

Anísio colocou as mãos nos ouvidos, fechou os olhos e curvou-se no banco do carro até que o seu rosto tocou o forro plástico do assento, de onde saía um cheiro ruim que lembrava a sua infância. Seus ouvidos zumbiam. Passou-se um longo tempo, até que ouviu três tiros.

O Falso Perpétuo voltou, entrou no carro.

Vamos apanhar o meu dinheiro, já despachei os dois. Matei a velha, de lambuja.

Pararam na porta da casa de Anísio. Ele entrou em casa. Sua mulher estava deitada, as costas nuas viradas para a porta do quarto. Ela costumava deitar-se de lado e o seu corpo visto de costas era mais bonito. Anísio apanhou o dinheiro e saiu.

Sabe que não sei o seu nome, disse Anísio no carro, enquanto O Falso Perpétuo contava o dinheiro.

É melhor assim.

Eu coloquei um apelido em você. Qual?

O Falso Perpétuo. Anísio tentou rir, mas seu coração estava pesado e triste. Teria sido ilusão? O olhar do outro havia ficado subitamente alerta e ele esfregava delicadamente as abas do paletó. Os dois ficaram se olhando na penumbra do carro. Ao perceber o que ia acontecer Anísio sentiu uma espécie de desafogo.

O Falso Perpétuo tirou da cintura um enorme engenho negro, apontou para o peito de Anísio e atirou. Anísio ouviu o estrondo e depois um silêncio muito grande. Perdão, ele tentou dizer, sentindo o sangue na boca e procurando se lembrar de uma prece, enquanto o rosto ossudo de Cristo ao seu lado, iluminado pela luz da rua, escurecia rapidamente.

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