Ódio de cunhada – Conto de Nelson Rodrigues

By | 20/04/2022

Vivia dizendo:

– O sujeito que trata bem mulher está desgraçado! Está frito! E dava conselhos aos tímidos:

– Dá-lhe duro! Deixa de ser besta! — e suspirava: — Ah, se fosse comigo! Os outros escutavam, no fundo maravilhados com essa ostentação de selvageria. Uns comentavam, nas suas costas:

– É potoca! Garganta pura!

Mas não era. Bonito, com uma pele fina e rósea, os olhos verdes e intensos, um bigode pequeno e aparadíssimo, um busto de estátua — ele fazia um sucesso, e tremendo, com as mulheres. O telefone, em casa, não parava; recebia bilhetinhos; dizia-se que até senhoras casadas o perseguiam, da maneira mais deslavada e frenética. Ao contar que tratava mal, a pontapés, as suas conquistas, não exagerava. As mulheres passavam o diabo com Orlando. Até apanhavam. Ainda ele, com a sua brutalidade de modos e de palavras, dizia:

– Quando uma se faz de besta comigo, eu taco a mão! Espanto geral:

– Em qualquer uma?

– Claro, evidente! Em qualquer uma! É disso que elas gostam! Ficam doidinhas!

Citava-se o caso de uma grã-fina, rica, dona de uma baratinha bege, uma uvinha autêntica. E mais: ela morava em Copacabana, ia à praia num maiô sem alça. Pois bem, muito bem. Um dia, vendo-o flertar com outra, esbofeteou-o. Ele não conversou: arrastou-a para uma rua meio deserta, deu-lhe uma surra. A grã-fina ficou arriada; e Orlando, depois de esfregar as mãos, foi tomar o lotação, mais adiante. No seu cinismo, era insuportável:

– Uma bolacha, bem-dada, é ótimo!

O analfabeto

Mal sabia assinar o nome e o máximo que lia, no jornal, era a seção de turfe, para as acumuladas. E só tinha, de si, a estampa cinematográfica. No mais era de uma ignorância de “dar nojo”, conforme a opinião textual de vários pais de família. Só falava em gíria e ninguém mais inconveniente e desbocado, neste mundo. Dir- se-ia, porém, que seus defeitos de educação, de caráter, eram outros tantos atrativos. Sabia-se que vivia nos piores meios, que tinha os piores vícios e, ainda, que “tomava dinheiro em bruto” de uma meia dúzia de infelizes. Apesar disso, meninas de família, direitíssimas, telefonavam para ele, numa verdadeira fascinação. Todo mundo fazia espanto:

– Como pode! Como pode! Outros pressagiavam:

– Acaba levando um tiro!

Quando lia, nos jornais, casos de “mulher que mata marido”, achava até graça; ou cuspia em face da infinita estupidez masculina. Se fosse com ele, sabe o que é que faria?

– Dava-lhe uma surra daquelas!

– Olha que, um dia, a casa cai!

As duas irmãs

Até que, um dia, ele saiu de casa mais cedo e viu duas caras novas na vizinhança. Estava com uma camisa esporte azul, que deixava a descoberto os antebraços possantes. Por hábito, por vício, ele olhou, uma e outra, de alto a baixo. O amigo que estava com ele o cutucou:

– Bom material! E ele:

– Mais ou menos.

Na verdade, eram dois amores, de seus 17 ou 18 anos. Ele seguiu em frente e não lhes rendeu nem a homenagem de um olhar. O amigo é que, atento, soprou:

– A menor te deu uma bola maluca!

Durante três ou quatro dias, ainda as viu, sempre juntas, como gêmeas. Até que começou a receber telefonemas anônimos. Foi brutalíssimo, como sempre: “Ou diz o nome ou desligo!” E como a outra relutou, desligou mesmo, com espetacular grosseria. Na vez seguinte, adotou o seu processo típico em casos de trote: dizer obscenidades. Foi um Bocage medonho. Desta vez, coube à desconhecida, atônita, desligar. E, dois dias depois, a mesma voz o procura. Conversa vai, conversa vem, a revelação espocou; e ele, já curioso, já interessado, descobriu que era uma das irmãs e, justamente, a mais baixa. No fim da conversa, ele fez o convite:

– Que tal um cineminha? Topas?

A menina, no fervor dos 17 anos, teve uma brevíssima hesitação e acabou superando o medo: “Vou, sim.” Ele soprou a sugestão ignóbil:

– Leva a tua irmã.

A paixão

Suas conquistas eram assim, fulminantes. Sem o menor tato, a menor paciência, ia avisando: “Lero-lero comigo, não. O negócio tem que ser rápido, senão chateia.” Foi, em resumo, o que, a caminho do cinema, disse à menina. A irmã não quisera vir. E ao comprar as entradas, já sabia o nome das duas: Lúcia e Margô. Lúcia era, justamente, a sua companheira. Mais tarde, ela voltaria para casa, de olhos arregalados. Tremia, como se a maleita a queimasse; meteu-se no quarto, enfiou-se debaixo dos lençóis. Margô, assustada, veio perguntar:

– Mas que foi que houve? Ele te fez alguma coisa? E a outra, tiritando:

– Nada. Não me fez nada.

Margô não insistiu. E, então, começou aquele tristíssimo namoro. A família, quando soube, por uma delação da própria Margô, pôs as mãos na cabeça: “Ele não serve, não presta, não vale nada!” E Lúcia, fechada no seu amor, dizia, apenas: “É dele que eu gosto e pronto.” Quiseram prendê-la em casa; e aí é que foi o pior. Ela se transfigurou aos olhos da irmã e dos pais; parecia outra pessoa, com a boca torcida, numa raiva que parecia impossível numa menina de temperamento tão delicado: “Eu me mato! Juro que me mato!” Margô, aterrada em face dessa paixão, que lhe parecia monstruosa, queria argumentar: “Ele tem outra! Tem uma velha, que lhe dá dinheiro!” Resposta de Lúcia: “Não faz mal. Não interessa.” Para os parentes, os amigos e vizinhos, aquilo já era um caso puro e simples de loucura, suscetível de internação. Mas o velho pai, que era humano e que adorava aquelas filhas, teve medo da ameaça de suicídio. Disse, numa mesa redonda de parentes:

– Deus me livre! Não quero ver a minha filha morta! Se ela quer casar,
paciência.

Então, Lúcia correu com a grande notícia. Ele ouviu tudinho e, de vez em quando, fazia o comentário:

– Essa tua irmã é de amargar! Que sujeitinha besta!

O casamento

Casaram-se, um dia. Margô compareceu às duas cerimônias, no civil e no religioso, beijou a irmã, mas foi incapaz de um cumprimento banal para o cunhado. Tomara-se de ódio por esse homem; era uma raiva, como só as mulheres sabem ter, que a ralava, que a consumia, como um fogo interior inextinguível. Já não ia mais ao cinema, a lugar nenhum, pois precisava se dedicar a esse sentimento, entregar-se a essa obsessão. Na igreja, durante o ato religioso, repetia, no mais íntimo de si mesma: “Cachorro! Cachorro!” Conhecia a vida do cunhado, seus costumes, suas mulheres, seus vícios. Como, onde e quando obtivera informações tão precisas e autênticas? Ninguém saberia dizê-lo. Dentro dela, criava-se a obsessão de que o cunhado contaminaria a irmã de males físicos e morais, que apodreceriam juntos, etc., etc. Com uma contração no estômago, ouviu Lúcia dizer, ainda vestida de noiva:

– Sou tão feliz! Não há ninguém mais feliz!

Viu quando os dois, mais tarde, sob a chuva de arroz, entraram no automóvel e partiram para a lua de mel. Margô imaginava que aquele cínico ia macular a irmã com não sei que carícias inimagináveis.

A velha

Quinze dias depois, voltaram os casadinhos da montanha, instalaram-se num apartamento, diante do mar. Numa tarde, numa hora em que Orlando não estava, tocaram a campainha. E, súbito, Lúcia, no quimono belíssimo, viu-se diante daquela criatura, de nariz adunco e voz de bruxa.

Foi uma cena rápida e hedionda. A desconhecida identificou-se: era a “velha”, a tal que, segundo os maledicentes, sustentava Orlando. Em voz baixa e intensa, começou a falar numa doença que adquirira há dois anos atrás. Doença? A princípio, Lúcia não entendeu. A outra continuou:
– Uma doença que eu peguei no seu marido e ele não sabe.

Só no fim, já de saída, é que a outra revelou, baixando a voz, o nome da doença, que ainda a unia, velha, infeliz e solitária, ao rapaz bonito, em lua de mel com outra. A velha partiu e Lúcia, como louca, pôs um vestido, correu para a casa da família. No caminho, uma palavra não lhe saía da cabeça: “Morfeia.” Lembrava-se que, durante a estada na montanha, Orlando queixara-se de uma irritação na pele e… Entrou em casa e teve, nos braços da irmã, uma crise tremenda. Ela, que se sujeitara a todas as humilhações, infidelidades, ofensas diretas, evocava, instantaneamente, os defeitos do marido para repudiá-lo. E seu medo era ter apanhado, também, a mesma doença. Acabou se enfiando no banheiro, tomando um banho, durante o qual esfregou, em si mesma, um pano embebido em álcool. Quando voltou, Margô a interpelou, num espanto sem limites:

– Mas você não gostava tanto dele? Não era louca por ele?

O solitário

Separaram-se. E, subitamente, Orlando se viu só no mundo. Encerrou-se no quarto; passava horas, de busto nu, procurando manchas nos braços, no peito e sentindo todos os sintomas possíveis e imagináveis. Sua ideia fixa era que todos, mesmo os transeuntes desconhecidos e eventuais, sabiam de tudo, sabiam que ele fora contaminado pela velha. E, sobretudo, tinha medo de ser internado, um medo absoluto, uma pusilanimidade mortal, que o fazia chorar como um menino. Até que, uma vez, bateram na porta. Perguntou: “Quem é?” E ouviu uma voz que não identificou logo: “Sou eu. Abre.” Abriu a porta. E viu entrar, no quarto, sua cunhada Margô. Durante alguns instantes, olharam-se, apenas. E como ele, trancando os lábios começasse a chorar, ela disse apenas:

– Fugi de casa. Vim ficar contigo.

Ele não fez um gesto, não disse uma palavra. Então, Margô o beijou, nos lábios, muitas vezes.

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