Caça-dotes – Conto de Nelson Rodrigues

Estava comprando fósforos, no charuteiro, quando apareceu o Aarão, impressionadíssimo. Faz a pergunta: – Sabe quem morreu? – Quem? – O Ernesto! Tomou um susto: – O marido da Suzana? Sim, o marido da Suzana, sim! – Morreu? E quando? De quê? Entraram no café, sentaram-se e Aarão deu maiores detalhes: – Morreu há uns … Ler mais

Mausoléu – Conto de Nelson Rodrigues

Durante uma hora maciça, deixou-se ficar, em pé, numa contemplação espantada. Lá estava a mulher, de pés unidos, as mãos entrelaçadas, entre as quatro chamas irmãs dos círios. Parentes e amigos tentavam convencê-lo: “Senta! Senta!” Mas ele, fiel à própria dor, era surdo a esses apelos. Como insistissem, acabou explodindo: “Não me amolem, sim?” E … Ler mais

O amor dos filhos – Conto de Nelson Rodrigues

Um dos seus primos, rapaz desabusado, meio irresponsável, esperou-a na saída do colégio: – Vem cá, Terezinha, vem cá. Tenho um negócio pra conversar contigo. A menina, com a pasta debaixo do braço, fez sinal às coleguinhas, para que esperassem. Então, o primo a interpelou: – Sabe que eu estou besta contigo? – Por quê? … Ler mais

Fatalidade – Conto de Nelson Rodrigues

Diante do espelho, pintava os lábios, quando a filha entrou no quarto: – Vai sair? – Vou. – Aonde? Respondeu, sem paciência: – Não é da sua conta. E a menina, sumária: – Também vou. Já nervosa, atirou, longe o pincel de batom. Virou-se para Maria Lúcia: – Você parece até que anda me espionando! … Ler mais

A mulher do próximo – Conto de Nelson Rodrigues

Apareceu na sinuca e fez a pergunta: – Vocês viram a besta do Gouveia? Um sujeito, de maus dentes, que passava giz no taco, respondeu: – Não vejo o Gouveia há trezentos anos! Mas um outro, que vinha chegando, indaga: – Hoje não é sexta-feira? — e insistiu: — Sexta-feira é o dia em que … Ler mais

Túmulo sem nome – Conto de Nelson Rodrigues

Doutrinava a pequena: – Meu anjo, sabe qual é a coisa mais cretina do mundo? E ela: – Qual? – O ciúme. – Por quê? Andando de um lado para outro, metido no seu inevitável e imaculado terno branco, ele continuava: – Porque sim! Ciúme é uma estupidez do tamanho de um bonde, percebeste? E … Ler mais

O patife – Conto de Nelson Rodrigues

Chegou, furioso: – Vem cá, Luzia, vem cá! Foi, com a noiva, para a varanda, sentou-se lá, e apanhando um cigarro, começou: – Quero saber de ti o seguinte, é verdade que viajaste, ontem, com o Chaves, de lotação? – Por quê? – Responde. Admitiu: – Viajei, sim. É verdade. Cantuária atira fora o cigarro: … Ler mais

Justo pelo pecador – Conto de Nelson Rodrigues

De repente, ela começou a se interessar pelos passarinhos que via nas árvores, em cima do muro e pousados nos fios telefônicos. Quando saíam os dois, marido e mulher, de braço, ela estacava, de repente: – Ah, que amor! E ele: – O quê? Apontava: – Aquela cambaxirra. Às vezes, não era cambaxirra; era pardal … Ler mais

Caixa de sapato – Conto de Nelson Rodrigues

Na antevéspera do casamento, andou sentindo umas coisas esquisitas. Chamou a atenção de d. Flor: – Mamãe, olha meu braço! A velha veio espiar: – O quê? E Olivinha, num suspiro: – Estou toda arrepiada! Era verdade. De vez em quando, apesar do dia quente, experimentava um frio breve e intenso. Por alguns segundos, chegava … Ler mais

Um miserável – Conto de Nelson Rodrigues

Apanhou uma gripe danada. Contorcia-se nos acessos de tosse. E ela própria chamava o marido: – Vem cá, Belmiro, vem cá. Ele largava o jornal e vinha. A mulher perguntava: – Escuta só. E, de fato, os brônquios de Zuleika só faltavam assoviar. Ela própria, no fim de cada crise, gemia: – Acho que apanhei … Ler mais

O netinho – Conto de Nelson Rodrigues

Aos 54 anos quase foi. Andou morre, não morre. Acabou superando a crise e saindo da câmara de oxigênio. Mas, já com o sentimento de morte próxima, chamou a esposa e a filha única. Começou, patético: – Sou um homem liquidado! A mulher fez o que lhe competia, protestou: – Mas que bobagem! Liquidado por … Ler mais