O decote – Conto de Nelson Rodrigues

Era uma mãe enérgica, viril, à antiga. Diabética, asmática, com sessenta anos nas costas, apanhou um táxi na Tijuca, e deu o endereço do filho, em Copacabana. Chegou de surpresa. A nora, que não gostava da sogra perspicaz e autoritária, torceu o nariz. Já o filho, que a respeitava acima de tudo e de todos, … Ler mais

Rainha de Sabá – Conto de Nelson Rodrigues

Saíram juntos da festa. E o amigo vinha entusiasmado: – Foi contigo! Fez fé com tua cara! Referia-se à Teresinha Seixas que não tirara os olhos do Asdrúbal, num flerte escandaloso. Tinha sido uma coisa de chamar a atenção. Raimundo, eufórico, como se o beneficiado fosse ele, atiçava o outro: – Está pra ti. Dá … Ler mais

O crânio calvo – Conto de Nelson Rodrigues

A mãe resolveu pôr a questão em pratos limpos: – Vem cá, minha filha, vem cá! Passando a escova nos cabelos, Julinha aproximou-se: – Pronto, mamãe. D. Matilde, que era uma gorda senhora, de busto imenso, indescritível, não sabe por onde começar. Finalmente, toma coragem: – Quero que você me explique uma coisa, você gosta … Ler mais

Perfume de mulher – Conto de Nelson Rodrigues

Tomou coragem e começou: – Tenho uma coisa para te contar. – Conta. E ela: – É o seguinte: eu tive na minha vida uma grande desilusão. Admirado, repetiu a palavra: “Desilusão como?” Guida mexia, com o canudo do refresco, no fundo do copo vazio. Sem olhá-lo, confirmou: – Pois é. — E, na sua … Ler mais

Morte pela boca – Conto de Nelson Rodrigues

Qualquer impontualidade o irritava. Quando chegou, com um atraso de meia hora, Egberto explodiu: – Demoraste, puxa! Luíza pôs a bolsa em cima da mesa, arrancou as luvas, sentou-se, nervosa, zangada. – Quase não vim! – Por quê? Ergue-se, possessa: – Por causa do animal do meu marido! Ah, sujeitinho asqueroso! Imagina tu: não foi … Ler mais

A criança alheia – Conto de Nelson Rodrigues

Parecia tão desinteressada do noivo, que a mãe a chamou: – Vem cá, minha filha, vem cá. Detinha aproximou-se: – Pronto, mamãe. D. Ofélia pigarreia: – Posso te fazer uma pergunta? E tu me respondes com sinceridade? Admirou-se: – Ora, mamãe! Mas evidente! A velha baixa a voz: – Você gosta de Lauro? Pausa. Detinha … Ler mais

Granfa – Conto de Nelson Rodrigues

Foi uma mudança que deu na vista. Muito alegre, brincalhão e, até moleque, tornou-se grave, taciturno, fúnebre. Os amigos estranharam: “Que cara é essa? Estás doente?” Respondia, soturno: – Não há nada. Vou muito bem, obrigado. Ia mal, porém, a julgar pelos seus novos ares e pelos suspiros, em profundidade, que extraía do próprio peito. … Ler mais

O vadio – Conto de Nelson Rodrigues

Tomou um banho implacável, que levou, no mínimo, uns quarenta minutos, contados a relógio; cantou, debaixo do chuveiro, assoviou, bufou. A mãe, que o tratava como a uma criança, fez, do corredor, a recomendação: – Olha as orelhas, meu filho, limpa as orelhas! Depois do banho, pediu o talco; veio o talco. E ele o … Ler mais

Amigo de infância – Conto de Nelson Rodrigues

Quando soube que o Antunes estava, de táxi, na porta, desceu para o avisar: – Mas olha: eu estou assim, de pijama, e ainda vou tomar banho. Antunes, fumando de piteira, entra, senta-se: – Não faz mal. Eu espero. Mas chispa. – Aguenta a mão. O outro ficou, na sala, lendo jornal. Debaixo do chuveiro, … Ler mais

A mão esquerda – Conto de Nelson Rodrigues

Uma coleguinha de escritório sugeriu a hipótese: “Vê lá se é casado, vê lá!” Estava fazendo uma verificação de contas na máquina de somar. Tomou um susto: – Casado? E a outra, coçando a cabeça com o lápis: – Quem sabe? E tudo é possível, compreendeste? Sabe como é. Até o fim do expediente, Aída … Ler mais