Morte pela boca – Conto de Nelson Rodrigues

By | 14/06/2022

Qualquer impontualidade o irritava. Quando chegou, com um atraso de meia hora, Egberto explodiu:

– Demoraste, puxa! Luíza pôs a bolsa em cima da mesa, arrancou as luvas, sentou-se, nervosa, zangada.

– Quase não vim!

– Por quê?

Ergue-se, possessa:

– Por causa do animal do meu marido!

Ah, sujeitinho asqueroso! Imagina tu: não foi ao emprego, hoje, ficou em casa! Egberto empalideceu, assustado:

– Vê lá se ele te seguiu, se anda por aí!

Então, mais calma, Luíza explicou que não havia perigo, porque o Chaves estava doente, de cama. Egberto esfregava as mãos, numa satisfação profunda: “Doente?” Ela apanhou na bolsa um cigarro:

– Pois é. E queria que eu ficasse em casa. Vê se pode! Uma gripezinha muito reles, mambembe! De amargar!

Na sua irritação nervosa, chegou a chorar. Egberto, que já sabia de sua infelicidade matrimonial, veio, por trás, abraçá-la. Beijou-a no pescoço e pronto: num minuto ela esquecia a sua imensa frustração matrimonial. Meia hora depois, estava diante do espelho retocando a pintura dos lábios. Em dado momento, suspira:

– A mulher sofre muito.

Romance

Conheciam-se há um mês e meio. Preliminarmente, achou a pequena meio sem graça, enjoativa. Os amigos viviam dizendo: “Te olha muito!” “Te dá muita bola!” Embora lisonjeado, fazia-se de superior, de inconquistável: “Não interessa!” Um dia, porém, um conhecido vem com a notícia:

– Tu sabes que a tal fulana é casada?

– Casada?

O interesse do Egberto, que era ralo, quase inexistente, cresceu de uma maneira fantástica. Puxou o informante pelo braço; levou-o para o fundo de um café. E lá, num canto conspirativo, teve, por assim dizer, a biografia-relâmpago da pequena. Soube que o marido era um tal de Chaves, sujeito magro, de peito fundo, com propensão para tísico. De olho brilhante e o lábio trêmulo, Egberto já admitia:

– Sabe que tem sua graça dar em cima da mulher dos outros? O amigo piscou o olho:

– Aproveita! Aproveita!

O conquistador

Era um rapaz de escassa experiência amorosa. E foi a condição de casada que o atraiu em Luíza. Passou a retribuir olhar com olhar. Três ou quatro dias depois, tinham o primeiro encontro numa sorveteria da cidade. Desde o princípio, Luíza disse horrores do marido: “Quem tem o marido que eu tenho, não precisa usar aliança!” Impressionado, Egberto atalhava: “Ainda há quem seja contra o divórcio!” O amigo do café, confidente do romance, antecipou-se. “A título de colaboração, eu te empresto o meu apartamento!” Impôs, porém, uma condição: “Mas tu tens que contar tudinho!” E o que houve de bom, no caso, foi a sua insólita facilidade. Em nenhum momento Luíza resistiu. Essa gana de trair, essa urgência de pecar, assombrou Egberto. Logo da primeira vez, ela o surpreendeu anunciando:

– Faço questão de telefonar “daqui” para meu marido.

E, de fato, fez a ligação, com desenvoltura, uma naturalidade e um cinismo quase doces. Ainda brincou: “Se você soubesse onde eu estou!” Do outro lado da linha, o pobre-diabo, na presunção de uma pilhéria, ria:

– Sossega, leoa!

Consciência

E não se passava um dia sem que Luíza não dissesse o diabo do marido. Mas como não mencionasse fatos objetivos, Egberto quis saber: “Mas, afinal de contas, o que foi que esse cara te fez de concreto?” E ela, suspirando: “É melhor nem tocar no assunto!” No café, com os amigos, Egberto baixava a voz:

– O marido é um monstro!

E, súbito, começa a acontecer o pior: o tédio. A verdade é que ele já ia aos encontros com esforço, com sacrifício. Ao lado da pequena, bocejava de uma maneira contínua e escandalosa. Luíza reclamava: “Quem vê diz que eu te dou sono, ora, bolas!” Ao mesmo tempo, esse declínio de interesse facilitou uma crise de consciência. De noite, em casa, dizia de si para si: “Não se faz isso com um homem!” E como se não bastasse, houve uma coincidência arrepiante: é apresentado ao homem que traía. Apertou a mão do outro, com um remorso de Judas. Ainda perguntou, como se tivesse ouvido mal:

– Chaves?

O outro, com sua respiração certa de asmático, um peito de menino, confirmava por inteiro:

– Segismundo Chaves.

Entraram num bar próximo. Com a alma nos pés, Egberto procura sentir, naquele rapaz esquálido, a sombra de monstro. Todavia, o outro parece um simples, um doce, um terno. E, súbito, não sei a que propósito, rompe a falar da esposa que tem:

– Uma santa! Só o senhor vendo! E que dedicação!

Por alguns momentos, Egberto, lívido, suspeitou de alguma ironia hedionda.

Mas logo viu que não.

O santo

Quando o pobre-diabo saiu, Egberto, aflito, agarra-se ao amigo que os apresentara. Perguntou: “É verdade que esse cara faz miséria com a mulher?” O amigo saltou:

– Que blasfêmia! O Chaves é o anjo dos anjos! Com umas alpercatas e uma camisola, seria um autêntico São Francisco de Assis!

Atônito, Egberto despediu-se. Nessa noite, não conseguiu dormir. É o cúmulo! No dia seguinte, força o encontro com a pequena. Entrou, como ele próprio diria, de sola. “O que você fez não se faz. Nenhuma mulher tem o direito de caluniar o marido!” Foi uma cena atroz. Luíza explodiu em soluços e, finalmente, fez uma confissão total. Então, com uma sensação de úlcera no estômago, Egberto percebeu tudo: o que a inferiorizava e irritava era, justamente, a nobreza do marido, sempre terno, sempre nobre, sempre manso, incapaz de uma grosseria, de uma maldade. Abraçado a Luíza, ele explodiu: “Bom demais! Bom demais!” Frio por dentro, incomovível, Egberto afastou a pequena: “Foi a última vez! Não quero mais nada contigo, nada!” Luíza sentiu que o perdia para sempre. Enfureceu-se:

– Você está com chiquê agora! Mas eu sei porque: — e ela própria respondeu: — Porque se cansou de mim, quer dar o fora! Mas olha: eu não sou mulher que se chute! Espere pela volta, cachorro!
Apanhou a bolsa. Ao passa por ele, cuspiu-lhe no rosto. Sem uma palavra, Egberto apanhou o lenço e, numa tristeza mortal, enxugou a face.

Intriga

Fora de si, ela foi buscar o marido no emprego: “Vamos pra casa!” Meia hora depois, estavam no quarto, trancados. Luíza começou: “Dá-se isso, assim, assim.” Contou o caso, ocultando o nome. Ao acabar, chorando, diz: “Agora você sabe de tudo. Sabe que eu traí você. Muito bem: e qual sua providência?” Silêncio do marido. Ela insiste: “Você me perdoa?” O que houve, em seguida, foi indescritível. Ele se lançou nos braços da mulher. Com a cabeça pousada no seu peito, soluçava como uma criança: “Coitadinha!” Luíza sempre contara com o perdão. Todavia, admirou-se. Coitadinha por quê? Essas lágrimas de homem já a enjoavam. Pediu. “Para com essa choradeira!” E ele: “Não sou ninguém para te julgar!” Então, na sua cólera contida, ela o segurou pela gola e sacudiu:

– Que você perdoe a mim, está certo. Mas a ele, não. Ele tem que pagar.

Direitinho.

Chaves pareceu surpreso. Na sua dor de marido, só pensara na esposa, excluindo sumariamente o outro. Tremeu, ao ouvi-la dizer: “Você precisa matar!” Esbugalhou os olhos, como se achasse absurdo que alguém possa matar alguém. Luíza passou a noite inteirinha convencendo o infeliz. Argumentava: “Com que cara eu posso viver, sabendo que ele vive?” Estraçalhava as sílabas nos dentes, instigando-o: “Mata! Mata!” Pela manhã, Chaves pareceu convencido. Foi na gaveta apanhar o revólver. Possessa, a mulher o levou até o portão:

– Dá-lhe um tiro na boca! Na boca!

Ao dobrar a esquina, ele experimentou uma alucinação auditiva. Ouvia a voz da mulher: “Na boca! Na boca!” Então, não resistiu mais. Encostou-se numa parede. Uma dona de casa, que aparecera numa janela próxima, viu quando aquele homem puxou o revólver, introduziu o cano na boca e puxou o gatilho.

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