A doença de Alexandre – Conto de Graciliano Ramos

By | 14/06/2022

– Como vai, seu Alexandre? Que estrago foi esse? perguntou mestre Gaudêncio à porta da camarinha.

– Macacoas da idade, suspirou o doente. Na beira da cova desde a semana passada. Tomei a purga de pinhão que o senhor me ensinou. Entre, seu Gaudêncio, vá-se abancando. Tomei a purga de pinhão e uns xaropes. Depois sinha Terta andou por aí e me deu um suadouro.

Estava na cama de varas, a testa enrolada num lenço vermelho, a camisa de algodão aberta mostrando os pelos do peito e o rosário de contas brancas e azuis. Cesária e Das Dores levaram para o quarto a mobília da sala: a pedra de amolar, a esteira, a mala de couro cru e o cepo. Mestre Gaudêncio baixou-se, encolheu- se na passagem estreita e escorregou da treva do corredor para a meia luz que a candeia de azeite espalhava. Seu Libório acompanhou-o. O cego preto Firmino sondou a abertura com o cajado, arriscou alguns passos e, tateando a parede, acercou-se da cama:

– Onde é a dor, seu Alexandre?

– Sei não, seu Firmino, respondeu mole o dono da casa. Pega na raiz do cabelo e vai ao dedo grande do pé. Sente, seu Firmino, sentem vossemecês. Me dê água, Cesária.

Os visitantes mergulharam na sombra que se adensava nos cantos, procuraram, descobriram e utilizaram os móveis. Das Dores saiu, voltou com um caneco de lata enferrujada, que ofereceu ao padrinho. O enfermo ergueu-se lento num cotovelo, bebeu, deixou cair desanimado no travesseiro a cabeça cor de sangue, como a de um galo-de-campina.

– Arreado, meu amigo, queixou-se. A princípio era uma gastura, o estômago embrulhado e a vista escurecendo. Botei para o interior a purga de pinhão de mestre Gaudêncio e a garrafada que Cesária fez. Das Dores rezou uma oração forte. Depois veio sinha Terta. Ai!

– Esteja quieto, seu Alexandre, murmurou o negro. É melhor vossemecê calar a boca, fechar os olhos e descansar.

– Que descansar! A vida inteira aqui descansando, seu Firmino! Isto é negócio? Não adianta descansar. Ai! Não há mezinha que sirva. Desta vez acho que embarco.

– Não embarca não, sentenciou mestre Gaudêncio curandeiro. É assim mesmo. A moléstia vai comendo, vai comendo, e quando mata a fome, deixa o corpo do cristão. Aí o suplicante se levanta e mata a fome também. Endurece, engorda, conversa, desempena o espinhaço.

– Se o senhor fala, é porque sabe, seu Gaudêncio, gemeu Alexandre. Peço a Deus que os anjos digam amém. Esta fé é que me traz em pé. Ora vejam que besteira. Em pé! Aqui de papo para o ar, contando os caibros, não presto para nada. Cesária fez uma promessa: se me endireitar, arranja umas novenas, vai à missa um ano inteiro todos os domingos e paga cinco libras de cera a Nossa Senhora do Amparo.

– Seu Alexandre, tornou o cego, vossemecê está gastando fôlego à toa, perdendo força.

– Há uma semana que não falo, seu Firmino, e se falo, é para soltar variedades. Agora que estou no meu juízo não me calo, nem por decreto. Preciso desabafar, dizer o que vi naqueles sonhos agoniados de quem está de viagem para a terra dos pés juntos. Primeiro foi um bode. Montei-me nele, e o bicho cresceu, passou as nuvens, chegou ao céu, ficou tão alto que eu não enxergava a terra. Um fumaceiro, um pretume. Segurava-me desesperadamente, com receio de me despencar lá de cima e esbagaçar-me. O infeliz saltava como se tivesse o diabo no couro, espetava as estrelas com as pontas, dava marradas na lua e sapecava os cabelos do focinho no sol. Num dos pulos desaprumei-me e caí. Caí escanchado numa onça-pintada, que se atirou pelo mundo correndo, um pé de vento. Andou, virou, mexeu, atravessou um espinheiro (lá deixei o olho esquerdo num garrancho), meteu-se num mato cheio de marquesões cobertos de jacas maduras, parou na beira de um rio que, pelos modos, era o S. Francisco. Vai senão quando uma coisa me bateu no estribo. Levantei o rebenque, saltei no chão, mas aí notei que estava com a perna metida na goela de uma jiboia, até a coxa.

– “Valha-me o Senhor S. Bento, gritei. Sou um homem frito.” Nessa altura a cachorra Moqueca apareceu e começou a latir. A cobra assustou-se, livrei-me dela devagarinho, saí atrás de uma guariba que fumava cachimbo e usava gibão e guarda-peito.

– Desarranjo no interior, segredou mestre Gaudêncio curandeiro.

– Isso mesmo, seu Gaudêncio, concordou Alexandre. Miolo avariado. O aperreio do sonho continuou, misturado a casos verdadeiros. Uma confusão, um sarapatel, seu Firmino. Das Dores rezando a oração forte, Cesária no cós da saia de Nossa Senhora, e eu malucando na beira do S. Francisco, rastejando uma guariba. Tremia que era um deus nos acuda, procurava afastar aquelas bobagens, mas um papagaio, com um olho de gente no bico, chegava junto de mim, arrastando os pés apalhetados: — “Está aqui, seu major. Está aqui o olho que eu achei estrepado num garrancho, coberto de moscas e formigas. Bote o olho na cara, seu major.” Eu aceitava o conselho e via perfeitamente o papagaio, o S. Francisco, Cesária de joelhos, bulindo nas contas, Das Dores rezando a oração de sustância. A febre não era deste mundo, um febrão pior que o fogo do inferno, sim senhores. Aí sinha Terta se apresentou. Sentiu de longe a quentura, sentiu a quentura no fim do pátio, lá para os pés de juá, foi o que ela disse. Foi ou não foi, Cesária?

– Foi, Alexandre, confirmou Cesária. Podem perguntar a sinha Terta.

– Não senhora, interveio o curandeiro. Fale, seu Alexandre. Está com vontade de falar, fale. É bom. Nós escutamos e o senhor espalha a morrinha. Fale até rebentar.

– Uma peste, seu Gaudêncio. Já andou perto de fornalha de engenho? Era aquilo. Sinha Terta sentiu o calor no fim do pátio.

– Não é muito não? perguntou o cego.

– Sei lá, respondeu Alexandre. Pode ser que seja. Sinha Terta disse, mas se vossemecê julga que ela se enganou, não discuto. Isso não tem importância. A verdade é que eu estava com febre. E estou. Pegue aqui no meu pulso. Escangalhado, seu Firmino. Felizmente agora já penso direito, a leseira desapareceu, Deus seja louvado. Pois, como ia contando, sinha Terta chegou, estirou o beiço, foi à cozinha e ferveu muita flor de sabugueiro. Bebi uma panela toda. Sinha Terta me consolou, arrumou em cima de mim uma serra de panos e saiu com Das Dores, que não se aguentava nas pernas, coitada. Cesária, bamba também, se amadorrou ali na rede. Fiquei só. E começou o efeito do remédio, um despotismo, sim senhores. Quase me desmanchei em suor. As bobagens da arrelia voltaram, achei-me de novo no S. Francisco, ouvindo as lorotas do papagaio, que me acompanhava em voos curtos. A sede me apertou. Deitei-me de barriga para baixo, encostei a boca na correnteza e empanzinei-me com mais de uma canada, mas quando me levantei, estava seco, a língua dura, cuspindo bala. Avistei de supetão uma canoa que se largava para a outra banda, carregada de tatus.

– “Entre para dentro, major Alexandre, convidou-me o dr. Silva, que era o canoeiro. Tem lugar para o senhor.” Despedi-me do papagaio, acomodei-me na embarcação e ela se afastou. Dr. Silva quis puxar conversa, mas eu estava repugnado, suando, suando. — “Santa Maria! estranhou o dr. Silva. Que é que o senhor tem que está pingando tanto, major Alexandre?” E eu me expliquei: — “Armadas de sinha Terta. Empurrou-me no bucho um suadouro brabo, e estou assim, derretendo-me como sebo na brasa. Parece que me sumo. Quando acabar esta desgraceira, não me resta nem osso.” Fomos navegando. Dr. Silva dizia uns casos e eu suava. A canoa, com o peso do suor, no meio do rio emborcou. — “Estamos afundando, gritou o dr. Silva. Caia na água, major. Caia na água e veja se alcança terra.” Dito e feito. Saltei da cama, num desespero, aos berros: — “Cesária, que é das minhas alpercatas?” Saibam vossemecês que eu estava com água pela canela. Cesária deixou a rede, as saias levantadas, num assombro: — “Jesus, Maria, José! A gente se afoga.” Ainda azuretado, com o S. Francisco e o dr. Silva na cabeça, não me espantei muito. Depois tomei tento e informei-me: — “Está chovendo, Cesária?” — “Está não, Xandu. Certamente houve trovoada nas cabeceiras do riacho.” Foi ver as coisas lá fora e achou tudo em ordem: o tempo limpo, o céu estrelado, o riacho na largura do costume. Voltou — e percebemos o motivo daquele despropósito. O suor tinha enchido a casa, fazia um barulho feio no corredor, saía pelos fundos e entrava no barreiro. Entendem? Horrível, meus amigos.

– Um desadoro, pois não, concordou o cego. Mas quem sabe se aquilo não era trapalhada? Talvez vossemecê estivesse zuruó, tresvariando.

– Estava não, seu Firmino, respondeu Alexandre. Acordei. E Cesária molhou a barra do vestido. Podem perguntar a ela. A casa está úmida. Assim de noite, com esta candeia safada, não se nota, mas de dia vê-se bem. E as alpercatas sumiram-se. As alpercatas foram encontradas anteontem no quintal, enganchadas num pé de muçambê. O senhor quer prova melhor, seu Firmino? Ai! Aquele suadouro me arrasou. Eu queria conversar com os senhores, mas não posso, estou feito um molambo. Não reparem na falta não, meus amigos. Vou dormir.


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Histórias de Alexandre

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