A mulher do próximo – Conto de Nelson Rodrigues

Apareceu na sinuca e fez a pergunta: – Vocês viram a besta do Gouveia? Um sujeito, de maus dentes, que passava giz no taco, respondeu: – Não vejo o Gouveia há trezentos anos! Mas um outro, que vinha chegando, indaga: – Hoje não é sexta-feira? — e insistiu: — Sexta-feira é o dia em que … Ler mais

Caixa de sapato – Conto de Nelson Rodrigues

Na antevéspera do casamento, andou sentindo umas coisas esquisitas. Chamou a atenção de d. Flor: – Mamãe, olha meu braço! A velha veio espiar: – O quê? E Olivinha, num suspiro: – Estou toda arrepiada! Era verdade. De vez em quando, apesar do dia quente, experimentava um frio breve e intenso. Por alguns segundos, chegava … Ler mais

Um miserável – Conto de Nelson Rodrigues

Apanhou uma gripe danada. Contorcia-se nos acessos de tosse. E ela própria chamava o marido: – Vem cá, Belmiro, vem cá. Ele largava o jornal e vinha. A mulher perguntava: – Escuta só. E, de fato, os brônquios de Zuleika só faltavam assoviar. Ela própria, no fim de cada crise, gemia: – Acho que apanhei … Ler mais

O netinho – Conto de Nelson Rodrigues

Aos 54 anos quase foi. Andou morre, não morre. Acabou superando a crise e saindo da câmara de oxigênio. Mas, já com o sentimento de morte próxima, chamou a esposa e a filha única. Começou, patético: – Sou um homem liquidado! A mulher fez o que lhe competia, protestou: – Mas que bobagem! Liquidado por … Ler mais

Perfume de mulher – Conto de Nelson Rodrigues

Tomou coragem e começou: – Tenho uma coisa para te contar. – Conta. E ela: – É o seguinte: eu tive na minha vida uma grande desilusão. Admirado, repetiu a palavra: “Desilusão como?” Guida mexia, com o canudo do refresco, no fundo do copo vazio. Sem olhá-lo, confirmou: – Pois é. — E, na sua … Ler mais

Morte pela boca – Conto de Nelson Rodrigues

Qualquer impontualidade o irritava. Quando chegou, com um atraso de meia hora, Egberto explodiu: – Demoraste, puxa! Luíza pôs a bolsa em cima da mesa, arrancou as luvas, sentou-se, nervosa, zangada. – Quase não vim! – Por quê? Ergue-se, possessa: – Por causa do animal do meu marido! Ah, sujeitinho asqueroso! Imagina tu: não foi … Ler mais

A criança alheia – Conto de Nelson Rodrigues

Parecia tão desinteressada do noivo, que a mãe a chamou: – Vem cá, minha filha, vem cá. Detinha aproximou-se: – Pronto, mamãe. D. Ofélia pigarreia: – Posso te fazer uma pergunta? E tu me respondes com sinceridade? Admirou-se: – Ora, mamãe! Mas evidente! A velha baixa a voz: – Você gosta de Lauro? Pausa. Detinha … Ler mais

Granfa – Conto de Nelson Rodrigues

Foi uma mudança que deu na vista. Muito alegre, brincalhão e, até moleque, tornou-se grave, taciturno, fúnebre. Os amigos estranharam: “Que cara é essa? Estás doente?” Respondia, soturno: – Não há nada. Vou muito bem, obrigado. Ia mal, porém, a julgar pelos seus novos ares e pelos suspiros, em profundidade, que extraía do próprio peito. … Ler mais

O vadio – Conto de Nelson Rodrigues

Tomou um banho implacável, que levou, no mínimo, uns quarenta minutos, contados a relógio; cantou, debaixo do chuveiro, assoviou, bufou. A mãe, que o tratava como a uma criança, fez, do corredor, a recomendação: – Olha as orelhas, meu filho, limpa as orelhas! Depois do banho, pediu o talco; veio o talco. E ele o … Ler mais

Amigo de infância – Conto de Nelson Rodrigues

Quando soube que o Antunes estava, de táxi, na porta, desceu para o avisar: – Mas olha: eu estou assim, de pijama, e ainda vou tomar banho. Antunes, fumando de piteira, entra, senta-se: – Não faz mal. Eu espero. Mas chispa. – Aguenta a mão. O outro ficou, na sala, lendo jornal. Debaixo do chuveiro, … Ler mais

A mão esquerda – Conto de Nelson Rodrigues

Uma coleguinha de escritório sugeriu a hipótese: “Vê lá se é casado, vê lá!” Estava fazendo uma verificação de contas na máquina de somar. Tomou um susto: – Casado? E a outra, coçando a cabeça com o lápis: – Quem sabe? E tudo é possível, compreendeste? Sabe como é. Até o fim do expediente, Aída … Ler mais

O castigo – Conto de Nelson Rodrigues

Estava ruim de saúde. Queixava-se de excitações, vertigens e dores de cabeça e uma série de outros sintomas desagradáveis. Os amigos, os parentes e até o patrão aconselharam: – Você precisa se tratar. Por que não vai ao médico? Ele acabou indo, de carona. O doutor fez todos os exames possíveis e imagináveis. No fim, … Ler mais