Granfa – Conto de Nelson Rodrigues

By | 09/06/2022

Foi uma mudança que deu na vista. Muito alegre, brincalhão e, até moleque, tornou-se grave, taciturno, fúnebre. Os amigos estranharam: “Que cara é essa? Estás doente?” Respondia, soturno:

– Não há nada. Vou muito bem, obrigado.

Ia mal, porém, a julgar pelos seus novos ares e pelos suspiros, em profundidade, que extraía do próprio peito. Até que Eunápio, que era seu amigo mais íntimo, uma espécie de irmão, veio interpelá-lo com a autoridade das estimas fiéis. A princípio, o Freitas relutou: “Não há nada. Juro que não há nada!” Mas o outro insistiu: “Tens um segredo, um mistério na tua vida. Ou não confias em mim?!” Freitas levanta-se, vai até a janela e volta. Senta-se novamente, acende um cigarro. Resolve abrir o coração. Põe a mão no joelho do Eunápio e baixa a voz:

– Adivinhaste. Tenho um mistério na minha vida. Aliás, um drama, percebeste? Um drama em 25 atos e 32 apoteoses. É o seguinte: estou amando uma senhora casada!

– Oba!

E o Freitas:

– Pois é. Eu gosto dela, ela gosta de mim. Te juro o seguinte: é a minha primeira e última paixão!

Eunápio faz a pergunta: “Boa?” O outro explode:

– Se é “boa”? Um monumento, compreendeu? Dessas mulheres que derretem edifícios. Quando eu penso ou falo nela, começo a tremer. Olha só como eu estou tremendo, olha!

Estendeu a mão, que, efetivamente, tremia. Eunápio, impressionado, começa a raciocinar, em voz alta: “Mas se tu a amas, se ela te retribui e se é ‘boa’ pra chuchu, não vejo drama.” Freitas protesta:

– Há drama, sim — e repetia: Há! Imagina tu que a pequena é “granfa”, e eu, um pé-rapado. Ela tem dois automóveis, inclusive um Cadillac; e eu só não ando de “taioba”, nem sei por quê. A dura realidade é a seguinte: eu não a mereço, está muito acima de mim!

O pobre e a rica

Ele próprio, com seus 22 anos de vida, não sabia explicar aquilo. Era um rapaz modesto, cuja experiência limitava-se a cinco ou seis namoros suburbanos. Sua penúltima namorada tinha, na frente, um inenarrável dente de ouro. Pois bem. Um dia, o Freitas dá, de cara, no Maracanã, com um amigo de infância, colega de colégio e, por sinal, riquíssimo. Coincidiu que torcessem pelo mesmo time e a paixão clubística os reaproximou. O outro, filhinho de papai, levou-o, de automóvel, até a porta de casa. Fez, na despedida, o convite formal:

– Olha, aqui, seu zebu! Tu, amanhã, jantas, lá em casa, nem que chova canivete.

Toma nota do endereço, toma. Ou eu venho aqui te buscar de automóvel, queres?

Quis. A amizade com um milionário deslumbrou o Freitas. E uma coisa o entusiasmava, ainda mais: a intimidade com que o amigo o chamara de “zebu”. No dia seguinte, o outro reaparece, na hora marcada, com o espetacular Cadillac. Várias coisas esmagaram o Freitas neste primeiro jantar. Antes de mais nada, o ambiente, de um luxo deprimente; depois, os talheres de prata autêntica; e, por último, a beleza da dona da casa e mulher do amigo. Acresce que foram servidos por um garçom engravatado. Tudo isso ofuscava um rapaz sem pretensões, que residia no Jacaré. Freitas jantou, lá, outras vezes, porque o dono da casa era de uma efusão irresistível. No fim de quinze dias, faz um exame de consciência e conclui pelo seguinte: estava apaixonado. Apaixonado, até a raiz dos cabelos, pela esposa do amigo. E uma circunstância agravou, em seguida, o caso: a retribuição inequívoca. Amava e era amado. Se fosse um romance normal, teria agido normalmente, também. Mas, naquela casa tudo o intimidava, inclusive o formalíssimo garçom de gravata-borboleta. No seu quarto do Jacaré, Freitas perguntava, de si para si: “Pra que garçom?” Por sua culpa ou, antes, por culpa de suas inibições, aquele amor não andava. Até que a pequena, impaciente, soprara, ao seu ouvido:

– Arranja um lugar! Arranja um lugar!

O problema

O lugar! Eis o problema cruciante. Desabafando com o Eunápio, Freitas explicava:

– Se fosse uma qualquer, não teria importância. Mas essa, não! Essa é muito “granfa”, ouviste? Eu não posso, evidentemente, levá-la pra qualquer lugar. Mas onde? Não conheço ninguém. É uma calamidade!

Eunápio pergunta:

– Ela não é mulher?

– É.

– E tu não és homem?

– Sou.

O outro simplifica a questão:

– Sendo ela mulher e tu homem, está tudo resolvido. O resto não interessa.

Qualquer lugar é lugar. Ou tens complexo?

Tinha. Em pé, andando de um lado para outro, Freitas geme abundantemente: “Não penso assim. Das duas, uma: ou arranjo um ambiente em condições ou então prefiro desistir, é melhor desistir.” Eunápio calca a brasa do cigarro no fundo do cinzeiro; e indaga:

– Queres o meu? Estaca:

– O teu o quê? E o amigo:

– O meu apartamento. Eu te empresto. Queres? Esbugalhou os olhos:

– O teu, não. Obrigado, mas não quero.

Eunápio, porém, enfia-lhe a chave na mão: “Deixa de ser burro. Sabes em quanto ficou a mobília do meu apartamento? Duzentos ‘pacotes’. Podes ir: alinhadíssimo.” Despediu-se, com um adeusinho de dedos: “Bye, bye.” Sozinho, Freitas sente que a chave queima na sua mão.

A fulana

Quando cai em si, corre para o telefone e liga para o seu amor: “Acaba de acontecer uma coisa incrível, meu anjo! Incrível!” Toma respiração e continua:

– Saiu daqui, agorinha mesmo, o teu marido! O Eunápio, sim! Eu contei-lhe o nosso negócio.

Ratifica:

– Tu?!

– Escondendo os nomes, claro. E o pior tu não sabes. O pior é que como estou em dificuldades para arranjar um lugar decente, teu marido ofereceu o próprio apartamento! Vê se pode! Contado não se acredita!

Do outro lado da linha, a pequena perdia o fôlego de tanto rir. Freitas não entendia esse riso incoercível: “Mas o que é que há? Rindo por quê? Não vejo motivo!” Enfim, a garota pôde falar: “E tu aceitaste? Ah, eu gosto de teu cinismo.” Ele protesta:

– Não. Espera lá. Não aceitei coisa nenhuma. Ele é que pôs a chave na minha mão. Mas eu não vou usar isso. De jeito nenhum.

– Por quê? Foi veemente, no telefone: “Que ideia você faz de mim? Assim também não, que diabo!” Ela, rápida e decisiva, o interrompe: “Ora, não amola! Vai, sim, senhor!” Pausa. Freitas arrisca a pergunta: “Mas você acha direito?” A pequena irritou-se.

– Direitíssimo. Ele não me trai lá? Eu pago na mesma moeda e no mesmo lugar.

Combinaram o encontro, para a tarde seguinte. Ele ditou, pelo telefone, o endereço.

Reação

Foi pontualíssima. Entrou no apartamento do marido e olhava para tudo, com uma divertida curiosidade. Virou-se para o Freitas que, ao lado, taciturno, esperava. Deixou a bolsa em cima de uma mesinha; perguntava: “Quer dizer que é aqui?” Suspira, deliciada; e quer beijá-lo. Freitas, porém, a empurra, brutalmente. A moça faz espanto. “Que é isso?” Então acontece o seguinte: o rapaz corre, abre a porta; trinca os dentes:

– Rua, ouviu? Rua! Tenho nojo de ti, só nojo! — e repetia, numa alucinação: — Cínica! Cínica!

Ela passou por ele sem olhá-lo, de cabeça baixa. Fugiu, apavorada, pelo corredor. Dois ou três dias depois, o Freitas era visto, de braço, com a antiga namorada do dente de ouro, residente também no Jacaré.

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