Módulo de verão – Poema de Adélia Prado

As cigarras começaram de novo, brutas e brutas. Nem um pouco delicadas as cigarras são. Esguicham atarraxadas nos troncos o vidro moído de seus peitos, todo ele – chamado canto – cinzento-seco, garra de pelo e arame, um áspero metal. As cigarras têm cabeça de noiva, as asas como véu, translúcidas. As cigarras têm o … Ler mais

Três mulheres e uma quarta – Adélia Prado

Arnalda, Alice e Armantilda são três mulheres piedosas que amam passar as tardes no serviço do templo. Arnalda, forte e bruta, lava teto, piso e paredes, lustra sacrário e átrio. Alice é para as flores: a espécie conforme o jarro e o calendário litúrgico. Armantilda é para adorar. O Senhor ama igualmente as três, mas … Ler mais

A fala das coisas – Adélia Prado

Desde toda vida descompreendi inteligentemente o xadrez, o baralho, os bordados nas toalhas de mesa. O que é isto? eu dizia como quem se ajeita pra melhor fruir. Fruir o quê? Eu sei. A mensagem secreta, o inefável sentido de existir. Tia Clotilde está desesperada: ‘para a minha família Deus não olha’. Meu amor, quando … Ler mais

Ausência da poesia – Adélia Prado

Aquele que me fez me tirou da abastança, há quarenta dias me oprime no deserto. O político morreu, coitado. Quis ser presidente e não foi. Meu pai queria comer. Minha mãe, peregrinar. Eu quero a revolução mas antes quero um ritmo. Ó Deus, meu filho me pede a bênção, eu dou. Eu que sou mau. … Ler mais

A maça no escuro – Adélia Prado

Era um cômodo grande, talvez um armazém antigo, empilhado até o meio de seu comprimento e altura com sacas de cereais. Eu estava lá dentro, era escuro, estando as portas fechadas como uma ilha de sombra em meio do dia aberto. De uma telha quebrada, ou de exígua janela, vinha a notícia da luz. Eu … Ler mais

Moça na sua cama – Adélia Prado

Papai tosse, dando aviso de si, vem examinar as tramelas, uma a uma. A cumeeira da casa é de peroba-do-campo, posso dormir sossegada. Mamãe vem me cobrir, tomo a bênção e fujo atrás dos homens, me contendo por usura, fazendo render o bom. Se me tocar, desencadeio as chusmas, os peixezinhos cardumes. Os topázios me … Ler mais

A Serenata – Poema de Adélia Prado

Uma noite de lua pálida e gerâniosele viria com boca e mãos incríveistocar flauta no jardim.Estou no começo do meu desesperoe só vejo dois caminhos:ou viro doida ou santa.Eu que rejeito e exprobroo que não for natural como sangue e veiasdescubro que estou chorando todo dia,os cabelos entristecidos,a pele assaltada de indecisão.Quando ele vier, porque … Ler mais