Briga no beco – Adélia Prado

Encontrei meu marido às três horas da tardecom uma loura oxidada.Tomavam guaraná e riam, os desavergonhados.Ataquei-os por trás com mãos e palavrasque nunca suspeitei conhecer.Voaram três dentes e gritei, esmurrei-os e gritei,gritei meu urro, a torrente de impropérios.Ajuntou gente, escureceu o sol,a poeira adensou como cortina.Ele me pegava nos braços, nas pernas, na cintura,sem me … Ler mais

Amor Feinho – Poema de Adélia Prado

Eu quero amor feinho.Amor feinho não olha um pro outro.Uma vez encontrado é igual fé,não teologa mais.Duro de forte o amor feinho é magro, doido por sexoe filhos tem os quantos haja.Tudo que não fala, faz.Planta beijo de três cores ao redor da casae saudade roxa e branca,da comum e da dobrada.Amor feinho é bom … Ler mais

Bilhete em Papel Rosa – Poema de Adélia Prado

A meu amado secreto, Castro Alves. Quantas loucuras fiz por teu amor, Antônio. Vê estas olheiras dramáticas, este poema roubado: “o cinamomo floresce em frente ao teu postigo. Cada flor murcha que desce, morro de sonhar contigo”. Ó bardo, eu estou tão fraca e teu cabelo tão é negro, eu vivo tão perturbada, pensando com … Ler mais

Dona Doida – Poema de Adélia Prado

Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora. Quando se pôde abrir as janelas, as poças tremiam com os últimos pingos. Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema, decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos. Fui buscar os chuchus e estou voltando agora, … Ler mais

Moça na sua cama – Poema de Adélia Prado

Papai tosse, dando aviso de si, vem examinar as tramelas, uma a uma. A cumeeira da casa é de peroba do campo, posso dormir sossegada. Mamãe vem me cobrir, tomo a bênção e fujo atrás dos homens, me contendo por usura, fazendo render o bom. Se me tocar, desencadeio as chusmas, os peixinhos cardumes. Os … Ler mais

Com licença poética – Adélia Prado

Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir. Não sou feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor. … Ler mais

Cantiga dos Pastores – Poema de Adélia Prado

À meia noite no pasto, guardando nossas vaquinhas, um grande clarão no céu guiou-nos a esta lapinha. Achamos este Menino entre Maria e José, um menino tão formoso, precisa dizer quem é? Seu nome santo é Jesus, Filho de Deus muito amado, em sua caminha de cocho dormia bem sossegado. Adoramos o Menino nascido em … Ler mais