Dona Custódia – Crônica de Fernando Sabino

Ar de empregada ela não tinha: era uma velha mirrada, muito bem arranjadinha, mangas compridas, cabelos em bandó num vago ar de camafeu ― e usava mesmo um, fechando-lhe o vestido ao pescoço. Mas via-se que era humilde ― atendera ao anúncio publicado no jornal porque satisfazia às especificações, conforme ela própria fez questão de … Ler mais

Dez minutos de idade – Crônica de Fernando Sabino

A enfermeira surgida de uma porta me impôs silêncio com o dedo junto aos lábios e mandou-me entrar. Estava nascendo! Era um menino. Nem bonito nem feio; tem boca, orelhas, sexo e nariz no seu devido lugar, cinco dedos em cada mão e em cada pé. Realizou a grande temeridade de nascer, e saiu-se bem … Ler mais

O coração do violinista – Crônica de Fernando Sabino

De repente, meu amigo tentou liquidar a discussão, dizendo que bateria não era instrumento de música. – Como não é instrumento de música? É instrumento de quê, então? – De jazz. – E jazz não é música? – Música para você: para mim não é. – Toda orquestra sinfônica tem bateria. – Nem por isso … Ler mais

A condessa descalça – Crônica de Fernando Sabino

A moça deixou o Brasil e hoje mora em Bruxelas, graças a uma bolsa de estudos. Um amigo comum conta-me agora a sua desventura, vivida durante urna viagem a Londres. A moça vive modestamente na pensão de uma grega chamada Papacapopoulos, ou coisa parecida. Um dia a senhoria lhe disse que era um absurdo ela … Ler mais

Deixa o Alfredo falar! – Cronica de Fernando Sabino

A ARTE brasileira da conversa não é de fácil aprendizado. Como toda arte, exige antes de mais nada uma verdadeira vocação. E essa vocação se aprimora ao longo do caminho que vai da inocência à experiência. Como em toda arte. Para princípio de conversa, distinga-se: quando falo em conversa, não estou me referindo à lábia, … Ler mais

A volta dos hippies – Crônica de Fernando Sabino

“Três coisas me são difíceis de entender e uma quarta eu ignoro: o caminho da águia no ar, da serpente sobre a pedra, da nau no meio do mar e o caminho do homem na mocidade.” (Provérbios, 30-19) SÃO namorados. Companheiros, como preferem dizer. Ele tem 22 anos e veio do Ceará. Família tradicional no … Ler mais

Como comecei a escrever – Crônica de Fernando Sabino

Quando eu tinha 10 anos, ao narrar a um amigo uma história que havia lido, inventei para ela um fim diferente, que me parecia melhor. Resolvi então escrever as minhas próprias histórias. Durante o meu curso de ginásio, fui estimulado pelo fato de ser sempre dos melhores em português e dos piores em matemática – … Ler mais

Empregadas – Crônica de Fernando Sabino

Desavença Entre outras virtudes, as novelas de televisão têm a de enriquecer com novas expressões o vocabulário das empregadas. Só porque a patroa riscou três fósforos para acender o gás e em seguida atirou-os ao chão, a cozinheira exclamou: – A senhora não devia fazer assim! Por causa disso ainda acaba provocando uma desavença no … Ler mais

O diamante – Crônica de Fernando Sabino

Em 1933 Jovelino, garimpeiro no interior da Bahia, concluiu que ali não havia mais nada a garimpar. Os filhos viviam da mão pra boca, Jovelino já não via jeito de conseguir com que prover o sustento da família. E resolveu se mandar para Goiás, onde Anápolis, a nova terra da promissão, atraía a cobiça dos … Ler mais

Notícia de jornal – Crônica de Fernando Sabino

Leio no jornal a notícia de que um homem morreu de fome. Um homem de cor branca, trinta anos presumíveis, pobremente vestido, morreu de fome, sem socorros, em pleno centro da cidade, permanecendo deitado na calçada durante setenta e duas horas, para finalmente morrer de fome. Morreu de fome. Depois de insistentes pedidos de comerciantes, … Ler mais

Piscina – Crônica de Fernando Sabino

Era uma esplêndida residência, na Lagoa Rodrigo de Freitas, cercada de jardins e, tendo ao lado, uma bela piscina. Pena que a favela, com seus barracos grotescos se alastrando pela encosta do morro, comprometesse tanto a paisagem. Diariamente desfilavam diante do portão aquelas mulheres silenciosas e magras, lata d’ água na cabeça. De vez em … Ler mais

Em Matéria de Automóveis – Crônica de Fernando Sabino

EM matéria de automóveis, seu raciocínio era o seguinte: — Para que ter automóvel, se eu não sei dirigir? E se alguém lhe sugeria que aprendesse: — Para que aprender, se não tenho automóvel? Um dia, porém, não se sabe como, escapou de seu sofismático raciocínio e apareceu dirigindo um automóvel. Aprendera a dirigir, só … Ler mais