Conversa de botequim – Crônica de Fernando Sabino

Sobre a visita da rainha Elizabeth ao Brasil em 1968 — ESSA rainha da Inglaterra vai acabar entrando pelo cano. — Por quê? — Vir no Brasil uma hora dessas? Pau comendo solto por aí… — Tem polícia pra proteger ela, que é que há? — Polícia? A polícia mesmo é que está baixando o … Ler mais

No Quarto da Valdirene – Crônica de Fernando Sabino

Mal ele entrou em casa, a mulher o tomou pelas mãos, ansiosa: – Estava aflita para você chegar. E sussurrou, apontando dramaticamente para os lados da cozinha: – Tem um homem no quarto da Valdirene. Sacudiu a cabeça com irritação: – Desde o primeiro dia eu achei que essa menina não era boa coisa. Ela … Ler mais

Aspirador de pó – Crônica de Fernando Sabino

Antes que eu lhe pergunte o que deseja, o gordinho começa a exibir-me uma aparelhagem complicada, ainda na porta da rua. São tubos que se ajustam, fio para ligar na tomada, escovinhas de sucção e outros apetrechos. – Entre – ordenei. Ora, acontece que jamais prestei sentido na existência dos aspiradores de pó. Por isso … Ler mais

Macacos me mordam – Crônica de Fernando Sabino

Morador de uma cidade do interior de Minas me deu conhecimento do fato: diz ele que há tempos um cientista local passou telegrama para outro cientista, amigo seu, residente em Manaus: “Obsequio providenciar remessa 1 ou 2 macacos”. Necessitava ele de fazer algumas inoculações em macaco, animal difícil de ser encontrado na localidade. Um belo … Ler mais

Na escuridão miserável – Crônica de Fernando Sabino

“Eram sete horas da noite quando entrei no carro, ali no Jardim Botânico. Senti que alguém me observava, enquanto punha o motor em movimento. Voltei-me e dei com uns olhos grandes e parados como os de um bicho, a me espiar, através do vidro da janela, junto ao meio-fio. Eram de uma negrinha mirrada, raquítica, … Ler mais

O gato sou eu – Crônica de Fernando Sabino

Estou falando na individualidade do ser, que se projeta em símbolos oníricos. Dos quais o gato do seu sonho é um perfeito exemplo. E o papel que você atribui ao gato, de fiscalizá-lo o tempo todo, sem tirar os olhos de você, é o mesmo que atribui a mim. Por isso é que eu digo que o gato sou eu.

A Última Crônica – Fernando Sabino

A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher … Ler mais

O Revólver do Senador – Crônica de Fernando Sabino

O Senador ainda estava na cama, lendo calmamente os jornais, e eram dez horas da manhã. Súbito ouve a voz do netinho de quatro anos de idade por detrás da folha aberta, bem junto de sua cabeça: – Vovô, eu vou te matar. Abaixou o jornal e viu, aterrorizado, que o menino empunhava com as … Ler mais

O Melhor Amigo – Crônica de Fernando Sabino

A mãe estava na sala, costurando. O menino abriu a porta da rua, meio ressabiado, arriscou um passo para dentro e mediu cautelosamente a distância. Como a mãe não se voltasse. Para vê-lo, deu uma corridinha em direção de seu quarto. – Meu filho? – gritou ela. – O que é – respondeu, com o … Ler mais

Primeira comunhão – Crônica de Fernando Sabino

Ele estava nervoso, muito empertigado no seu terninho branco: – Se colar no céu da boca o que é que eu faço?– Tira com a língua – recomendei. – Com o dedo não pode não?– Não pode não. Ao entrarmos no pátio da igreja, esqueceu suas preocupações e saiu correndo para juntar-se aos outros. Sob … Ler mais

Reunião de Mães – Crônica de Fernando Sabino

Na reunião de pais só havia mães. Eu me sentiria constrangido em meio a tanta mulher, por mais simpáticas me parecessem, e acabaria nem entrando – se não pudesse logo distinguir, espalhadas no auditório, duas ou três presenças masculinas que partilhariam de meu ressabiado zelo paterno. Sentei-me numa das últimas filas, para não causar espécie … Ler mais

Festa de Aniversário – Crônica de Fernando Sabino

Leonora chegou-se para mim, a carinha mais limpa desse mundo: – Engoli uma tampa de coca-cola. Levantei as mãos para o céu: mais essa agora! Era uma festa de aniversário, o aniversário dela própria, que completava seis anos de idade. Convoquei imediatamente a família: – Disse que engoliu uma tampa de coca-cola. A mãe, os … Ler mais