Em Londres, como os ingleses – Crônica de Fernando Sabino

QUANDO cheguei a Londres, fui acolhido pelo frio mais miserável. Andava pelas ruas debaixo de um grosso sobretudo, mas um vento gelado penetrava pelas mangas e corria-me pelo corpo. Dentro de casa, pouco adiantavam os recursos mecânicos com que se tenta contrariar a natureza: o sistema de aquecimento, quando funcionava, funcionava demais, esquentando como um … Ler mais

A selva do asfalto – Crônica de Fernando Sabino

Desisti de tomar aquele ônibus ali na Avenida Rio Branco, e bem andei, pois eu não iria longe: logo ao arrancar, esbarrou no pára-choque de um fusca verde à sua frente. O trocador desceu para espiar. O dono do fusca verde, um homem já de cabelos brancos, saltou vermelho de raiva: – Se é para … Ler mais

Fumar sem ser fumante – Crônica de Fernando Sabino

O MÉDICO proibiu Mário de Andrade de fumar: – Se você largar o cigarro, ainda poderá ter uns vinte anos de vida. E Mário, desencantado: – De que me adianta viver mais vinte anos sem fumar? A partir de então, trancava-se no banheiro para acender um cigarrinho, escondendo-se de si mesmo. E o conhecido médico … Ler mais

Psicopata ao Volante – Crônica de Fernando Sabino

David Neves passava de carro às onze horas de certa noite de Sábado por uma rua de Botafogo, quando um guarda o fez parar: — Seus documentos, por favor. Os documentos estavam em ordem, mas o carro não estava: tinha um dos faróis queimado. — Vou Ter de multar– advertiu o guarda. — Está bem– … Ler mais

A mulher vestida – Crônica de Fernando Sabino

Eu estava num centro comercial de Copacabana e era sábado, pouco depois do meio-dia. Às tantas, comecei a ouvir uma martelação de ensurdecer. O dono de uma lojinha de sapatos para senhoras chegou-se à porta, assustado: – Que será isso? E saiu pelo corredor a investigar. Caminhávamos na mesma direção e logo descobrimos que o … Ler mais

Hora de dormir – Crônica de Fernando Sabino

– Por que não posso ficar vendo televisão? – Porque você tem de dormir. – Por quê? – Porque está na hora, ora essa. – Hora essa? – Além do mais, isso não é programa para menino. – Por quê? – Porque é assunto de gente grande, que você não entende. – Estou entendendo tudo. … Ler mais

Sem tirar patente – Crônica de Fernando Sabino

Estou convencido de que errei de profissão, ao escolher a literatura. O que eu sou mesmo é inventor. E um grande inventor. Com o auxílio de minha filha Mariana, que rima com bacana, inventei o telefone portátil, a televisão de bolso, o rádio de pulso e a bicicleta voadora. Só não inventei o pó de … Ler mais

Ocasiões de ficar calado – Crônica de Fernando Sabino

– Como vai indo seu marido, que há tanto tempo não vejo? – Meu marido morreu há dois anos, o senhor não sabia? Cumprida a primeira parte da gafe, saio impávido para a segunda: – Que coisa terrível, eu não sabia! Me desculpe, mas andei viajando… E não tendo mais o que dizer, repito para … Ler mais

Roteiro de Hong-Kong – Crônica de Fernando Sabino

A princípio, foi apenas certo desânimo. Depois, o tédio universal diante de todas as coisas. Finalmente o que Unamuno chamava de sentimiento trágico de la vida. De súbito minha cabeça explodiu. Dor de cabeça, dor no corpo, nas juntas. Tosse. Nariz entupido, tosse, calafrios. Vertigem. Enjôo, astenia (tosse), sonolência, pesadelo. Na boca, gosto de ferrugem, … Ler mais

Ao bom bebedor meia garrafa basta – Crônica de Fernando Sabino

A primeira vez que provei bebida alcoólica foi aos 11 anos. Estávamos acantonados nos galpões vazios da antiga Feira de Amostras, ali onde é hoje o Aeroporto Santos Dumont. Havia latas de doce vazias, invólucros sem conteúdo, rótulos sem produto — restos da última exposição: nada que satisfizesse a nossa gula. Em companhia de outro … Ler mais

Fantasmas de Minas – Crônica de Fernando Sabino

Assim que ele soube que eu e ela pretendíamos passar o carnaval em Ouro Preto e não conseguíamos hotel, amavelmente ofereceu-nos sua casa. É uma linda casa, informou com ar matreiro. Tão matreiro que dava até para desconfiar. Mas eu já ouvira falar na casa, do tempo em que Marchette morava lá e passava o … Ler mais

O falso coronel – Crônica de Fernando Sabino

Sonhei que ia por uma estrada sob a luz da lua, quando, a uma curva do caminho, dou com um casarão estranho, ares de mal-assombrado. No andar inferior podia-se ver através das janelas o que se passava lá dentro. A princípio me pareceu a mais desvairada orgia: corpos semidespidos ou completamente nus que se misturavam … Ler mais